quinta-feira, 17 de maio de 2012

Edição 36



QUANDO O GARÇOM É POETA

Olsen Jr.

   Surpresas! Ninguém está livre delas. Não naquele sentido emprestado pelo Barão de Itararé (Apparício Torelli) quando afirmou, “de onde você menos espera, daí mesmo é que não sai nada”. Mas, de repente, o sujeito com quem você conversa esconde, em uma ocupação mundana, um grande talento para uma área totalmente diversa. Um garçom, por exemplo, que é escritor.

   Quando cheguei, o restaurante estava quase lotado, seis garçons se revezavam no atendimento. Ele me vê no balcão, apressa-se em dizer, “consegui baixar na internet, a Divina Comédia”... Retorna pouco depois da mesa que está servindo, as mãos ocupadas com pratos, copos e garrafas... Indago, mostrando interesse no assunto, que livros? Ouço, ou pareço ouvir, enquanto ele passa apressado em direção da copa, “a terra, o céu e o inferno”... Imagino aquele cidadão com mais tempo para se dedicar àquilo que, de fato gosta, livros e leituras. Também, da música, da qual já tinha notícias, após comprar um cd que ele próprio gravara, depois de um ano de “economias”, muitas “horas extras” na alta temporada em Florianópolis no ano passado... Na volta, já com a bandeja cheia, continua a conversa, “tive sorte, consegui o livro em versos, melhor que a prosa lançada, tempos atrás, aqui no Brasil, a poesia é superior”... Não deu tempo de corroborar com a descoberta dele, logo vislumbro seu corpo arqueando-se sobre uma das mesas para servir as bebidas. Sujeito dedicado estava ali. Aceitava com desenvoltura os seus desígnios presentes, uma espécie de preparação para, quem sabe, vôos futuros. Tento me concentrar neste roteiro não escolhido, para pegar o mesmo vôo que aquele homem condenado a servir os seus iguais...

   Logo que passou o “sufoco”, ouço a voz dele, às minhas costas, no balcão, “descobri um sebo, numa galeria aqui na cidade, alguns autores que estava a muito procurando, Rimbaud, Bukovski, Kerouac... Conheces?”... Respondo, huumm! Alguma coisinha, estes caras da “beat generation” como ficaram conhecidos, li quando tinha 17 anos, faz algum tempo, Allen Ginsberg, Thimoty Leary, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs, Gary Snyder, Neal Cassady, Peter Orlovsky, Ken Kesey, este, escreveu “Um Estranho no Ninho”... “Bah!” Ouço a exclamação, enquanto ele ri, “esqueci que você é um escritor”... E se afasta para atender um novo chamado na mesa em frente da janela, no outro lado do salão... Aquele sujeito não tinha interlocutores ali... Depois que voltou, com a comanda nas mãos, antes de fazer o pedido para o copeiro, sugeri para ele, rapidamente, precisamos conversar qualquer hora, faço um churrasco, convido alguns jornalistas e escritores, que tal? “Topo”, afirmou ele, se afastando novamente.

   Enquanto pagava a minha conta, comentei no balcão, para o caixa, feliz do restaurante que tem poetas como garçons... O proprietário me olhou, surpreso, mas não se fez de rogado, “do jeito que bebem, preferimos os poetas como fregueses”... Estava rindo ainda, quando me deu o troco.


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POEMAS REUNIDOS

Este é o título da coletânea reunindo todos os meus poemas editados até hoje e mais alguns inéditos, em comemoração aos meus quarenta e cinco anos “fazendo poesia”.
Trata-se de um projeto há algum tempo acalentado por mim e que ganhou forma no último ano de gestão do saudoso mestre Lauro Junkes, então Presidente da Academia Catarinense de Letras.
O volume é apresentado pelo grande estudioso da nossa Literatura, professor Celestino Sachet e traz na contra capa um texto do escritor Olsen Jr..
Em breve estarei divulgando a data, com o respectivo o local e hora, em que será realizada a noite de autógrafos.

7º PRÊMIO FUNCINE

Estão abertas as inscrições para o 7º Prêmio Funcine de Produção Audiovisual Armando Carreirão. Esta edição teve um crescimento de 50%. Em 2011, era de R$ 170 mil e agora vai para R$ 250 mil. Além do aumento dos valores, havia somente um prêmio para a categoria estreante e neste ano serão dois

Serão contemplados oito projetos de curtas-metragens digitais: dois na categoria 1, no valor de R$ 50 mil, quatro na categoria 2, no valor de R$ 30 mil, e dois na categoria 3 (diretores estreantes), no valor de R$ 15 mil.

A apresentação das propostas de filmes concorrentes é realizada em arquivo PDF em CD. O Prêmio é uma realização do Fundo Municipal de Cinema (Funcine) e conta com o apoio da Cinemateca Catarinense, Fundação Franklin Cascaes e Prefeitura Municipal de Florianópolis.

Desde o ano passado, o edital está com um novo formato, aprovado em uma consulta pública. Até 2010, havia prêmios específicos para os gêneros ficção, documentário e animação. Agora, há somente faixas de valor. A mudança privilegia a qualidade das propostas de filmes, independente do gênero, e incentiva projetos de novos diretores.


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CONFRARIA DOS NOVÍSSIMOS

“Todos os loucos e os mendigos possuem uma visão de mundo que invejaria qualquer artista consagrado. Entretanto, suas confusões psicológicas os tornam seres alvejáveis perante a inteligência humana.
Os loucos, dentro de suas loucuras felizes ou infelizes, impõem suas próprias razões sobre os outros valores que não lhes dizem respeito em seus próprios universos. Ou seja, são pessoas completamente normais.
Os mendigos, dentro de suas misérias felizes ou infelizes, rastejam-se diante de uma vida ilusoriamente promissora, confrontando-se com resultados ilógicos e muitas vezes injustos. Ou seja, são pessoas completamente normais.
A questão não é o ponto de vista sobre o cotidiano, mas o cotidiano em si.
Se todos os loucos e mendigos tivessem aderido ao cotidiano de forma pacífica, de certo não subverteriam as obras dos verdadeiros artistas.”

(Texto de Cláudio Domingues – Floyd. Recebi numa das sinaleiras da cidade, não lembro qual. O escritor entregava seus textos em troca de alguma moeda, possivelmente para permitir a impressão de novos trabalhos. Este texto foi escrito no dia 31/12/2011 às 14h39min e é intitulado Cantarei nos albergues e nos hospícios.)
Um poema aos professores (sempre lutando pelo pão de cada dia e por melhores condições de trabalho)

Não era pra ser, 
tudo conspirava contra, 
ninguém queria ver, 
se visse, fazia de cont(r)a. 
E foi assim, acredite,
veio devagar, muito tranquilo,
e de repente, com voraz apetite,
devora tudo aquilo, 

que um dia fez,
calor agora é frio,
o rei nada diz, 

nasceu como ser feliz,
viveu pouco, muito riu,
humilde, é sempre aprendiz. 

(Entre o sol e a lua vive o professor, inédito de Lúcio Darelli)
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REGISTRO


  1. Em minhas mãos o número 37 da revista do Grupo de Poetas Livres, Ventos do Sul. Um belíssimo trabalho encabeçado pela escritora Maura Soares, dedicado a Licinho Campos. Destaque para as homenagens feitas ao artista e escritor, bem como para: Oração dos poetas, destaque literário- Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, descobrindo portas novos e promovendo os poetas do grupo. Nestas duas últimas seções, nota-se o volume de poemas produzidos bem como a qualidade da grande maioria deles. Site do Grupo: www.poetas livres.com.br


  1. Boletim do Instituto Histórico e Geográfico 162, referente a abril de 2012.


  1. O Trinta Réis, referente a março/abril de 2012, Boletim da Academia São José de Letras, trabalho excelente de seu Presidente o confrade Artêmio Zanon. Destaque para a excelente matéria em homenagem ao escritor e membro da Academia Catarinense de Letras, Jair Francisco Hamms, “o encantado por palavras” falecido no dia 11 de janeiro de 2012.


  1. O Nheçuano, jornal da cidade de Roque Gonzáles-RS que tem como responsável o escritor e jornalista Marco Marques e onde escreve o meu caro amigo escritor Nelson Hoffmann, que sempre tem aberto espaço para a divulgação das obras produzidas em Santa Catarina.


  1. A ILHA, suplemento literário número 120 referente a março de 2012, editado pelo escritor Luiz Carlos Amorim. Segundo o editor, “são quase trinta e dois anos de publicação da revista do Grupo Literário A ILHA, divulgando a nova literatura que vem sendo produzida nas últimas décadas. Nesta edição, destaque para “literaturacatarinense sempontocom” de Celestino Sachet, “Amemos a Ilha!” de Enéas Athanázio, além de vários poemas de autores diversos.


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CONFRARIA DO POEMA

I
Aberto o compasso
Mostra-se o coração,
Doído, marcado,
Pelas cicatrizes
Entrecortadas
Ao vento.

II
Carótidas obstruídas
Vertigens, tonturas.
Valente coração
Teimoso, bate ainda.

(Pinheiro Neto, Cena 2011-1, Poemas à flor da pele, p. 338) 

2 comentários:

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  2. " coração
    Doído, marcado,
    Pelas cicatrizes
    Entrecortadas
    Ao vento."
    Um abraço, meu poeta, pela visão do envelhecimento puro e sofrido, que vem chegando sábio. Um abração.

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