(Pinheiro Neto, Poema visual, in Poemas Reunidos, p.159, ACL, 2010)
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OITENTA ANOS AGORA! por VALDIR ALVES
Lá nos primórdios, os oceanos eram calmos e tranquilos. Os viajantes só dispunham dos remos para empurrar os barcos em seus deslocamentos. Havia serenidade nas viagens, mas obrigatoriamente eram curtas e limitadas; e proibidas para determinadas ilhas reservadas, especialmente, para os deuses. Assim navegava a humanidade até o dia que os vikings arrombaram a ilha do deus vento. E o vento libertado foi soprando, esparramando por todos os cantos do mundo a sua força. Os vikings, primeiro tentaram detê-lo, mas perceberam que quem corre para a liberdade é sempre mais rápido e astuto que o carcereiro. E assim escolheram se libertarem com ele inventando a quilha e as velas, que davam às embarcações equilíbrio e estabilidade, mas, principalmente, combustível para longas jornadas.
Lembro-me da lenda a propósito dos 80 aniversários deste ilustre brasileiro Jaison Barreto que, na biografia das minhas boas lembranças, foi o protagonista de um embate memorável disputando o cargo de governador de Santa Catarina, em 1982. O discurso veemente, a postura serena e inflexível, o verbo feito pão, o pão que haviam subtraído dos catarinenses. Com dignidade violou uma ilha da ditadura e soltou o vento da liberdade, o vento que se esparramaria por todo o Brasil soprado pela sinfonia dos galos tecendo uma nova manhã, segundo o debruado do João Cabral de Mello Neto.
No começo do mês de outubro, reta final da eleição, fui assistir um comício na cidade Imbituba. Os fatos, com pequenos detalhes que diferenciavam aqui ou ali, se repetiam numa sucessão de comícios por diversas cidades que eu acompanhava sempre que possível: palavras de ordem contra a ditadura, contra as oligarquias e, finalmente a vitória inexorável da democracia faziam de Jaison Barreto uma comemoração. Era o começo de uma catarse, embora ainda lambuzada de medo.
Nesta oportunidade, para compor uma matéria que eu preparava para o Jornal O Globo, perguntei para um garoto, ainda imberbe, que acompanhava o evento nas proximidades, que motivação tinha para apoiar um candidato da oposição. “O Jaison – me respondeu – é a novembrada do palanque”. Atônito, fiquei ali sem comentar, sem anotar, atônito até o garoto partir. Mas nunca esqueci aquele sucinto e esclarecedor encontro.
Como também nunca esqueci o Jaison Barreto cidadão comum, com o estranho gosto de misturar uísque com coca-cola, é verdade, mas sábio quando entre um gole e outro argumentava que a ignorância não se higieniza, se varre. Logo, educação era o fundamental. O palco e o boteco tinham harmonia, eram os versos do Quintana apertando o interruptor: Venho do fundo das eras/Quando o mundo mal nascia/Sou tão antigo e tão novo/ Como luz de cada dia.
A alegria durou até a abertura das urnas no mês de novembro. Junto com elas, todavia, se abriram também os depósitos das falcatruas que os penduricalhos da ditadura obsequiavam aos poderosos de plantão. Roubaram a eleição de Jaison Barreto. Mas não roubaram os ventos da liberdade, estes estavam espalhados e, sobretudo, soprando nos corações libertários das pessoas que não se trocaram por uns poucos vinténs, da gente honesta brasileira. Não roubaram o desejo dos catarinenses de por fim a ditadura, não roubaram dos catarinenses o desejo de acabar com as oligarquias.
Hoje, estes milhões de brasileiros que estão nas ruas exigindo o fim da corrupção, exigindo o aroma da honestidade, estão também cantando um pouco: parabéns Jaison Barreto, feliz aniversário.
Com o carinho do escriba Valdir Alves (Jornalista e escritor - texto publicado em sua página no facebook)
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SYNT
Synt, garoto
impuro
Esse garoto
morava num túmulo
Synt, garoto
impuro que não tinha voz
Mas mantinha
distância em cada parte
De sua
cordialidade
Não, não diga
nada, não há nada a dizer
Não, não fale
nada, não há nada a declarar
Synt, goroto
impuro
Esse garoto
se escondia do mundo
Synt, garoto
impuro que não tinha nada a dizer
Mas mantinham
os desentendimentos em cada parte
De sua
superficialidade
Onde seu
próprio medo é morrer sozinho
Onde seu
próprio desejo é morrer sozinho
(Blimer, apenas um verme
que se alimenta de cicatrizes de verão, 04/06/2006)
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(EX) PLANADAS
Roubaram pra cacete
pisando leve em tapetes
imaculados
cochicham entre
cafezinhos e rodadas de uísque
Conspiram, planejam,
prevaricam, escamoteiam,
tergiversam, subornam e
dão sumiços em processos
Dom Bosco, nos proteja
Juruna, esbaforido,
atravessa o Anexo II da Câmara,
o turista americano tira
uma fotografia
Prestes compra flores do
cerrado na Catedral
No Setor Hoteleiro Sul
executivos paulistas
planejam uma grande
noitada e, sofregamente,
procuram cadernetas com
endereços de
cafetinas cinco estrelas
Índios invadem a sede da
FUNAI,
um disco voador foi
visto em Sobradinho
E reivindico a
Constituinte feliz, utópica, macunaímica
Belisca meu pescoço,
moça
Me fere me acaricia me
morde me decifra
Só cifras
Um cooper desesperado,
uma pensão pulguenta,
um zelador atônito
Um beijo sanguinário, um
cão sarnento,
um boteco infecto, uma
mijada espumante,
uma batida no Eixo.
(Emanuel Medeiros Vieira, Sete planos de asas, Edições Sanfona,
1985)
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LI E
RECOMENDO
Sentimentos
confiscados, de
Jacqueline Aisenman, contos e crônicas, lançado este ano e editado pela Design
Editora de Jaraguá do Sul.
Para
Carlos Henrique Schroeder, com esse livro, Jacqueline “prova ser uma das
cronistas mais afiadas do país, e com uma versatilidade impressionante aborda
assuntos tão díspares como desejo e redenção, e mostra como a delicadeza e a
sutileza são o verdadeiro tempero da crônica brasileira.
Os
textos ora se contrapõem,, ora se sobrepõem, sempre numa dualidade incrível
(são sempre dois textos em um). E esta faca de dois gumes deixará marcas
indeléveis nos leitores, pois a verdadeira literatura sempre confisca.”
Nascida em Laguna, Santa Catarina,
viveu também em Curitiba, Ponta Grossa, São José dos Pinhais, Florianópolis e
há mais de vinte anos reside em Genebra, na Suíça.
Já publicou: Pedaços de mim e coisas assim; Muito mais do que a solidão; Coracional;
Poesia nos bolsos; Entre os morros da minha infância, Lata de conserva; Palavras
para o seu coração e Briga de foice.
Criou em 2009 e até hoje edita a
revista literária eletrônica e o site Varal
do Brasil, “fazendo uma ponte de palavras entre o continente europeu e o
Brasil”.
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INSCRIÇÕES PARA O
15º CATAVÍDEO
As inscrições para a 15ª edição do Catavídeo –
Mostra Livre Catarinense vão até o dia 30 de setembro. O festival é uma janela
livre, que permite a exibição e o debate do audiovisual produzido em Santa
Catarina.
Podem ser inscritos vídeos finalizados em qualquer ano, formato e
duração, mas que sejam inéditos no festival. Se você é catarinense, reside no
estado, ou seu audiovisual foi realizado em Santa Catarina, poderá exibir
e conversar com o público sobre sua produção. Inscrições em www.catavideo.org.
O 15º Catavídeo ocorre de 25 a 29 de novembro na Fundação Cultural Badesc, em
Florianópolis.
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CONFRARIA DO POEMA-pn
Sorvo o
sangue
dos teus
versos
repagino
poemas.
(Nanopoemas
V (a), Pinheiro Neto, Poemas à
flor da pele, p. 144, 2013)