quinta-feira, 26 de julho de 2012

EDIÇÃO 38


                        
MUDANÇA
Flávio José Cardozo
Eis aí: depois de tanto aperto, a casa própria. Miudinha, arretiradinha, financiadinha por vinte anos, mas própria. Adeus, aluguel. Adeus, infeliz mudança quase todo ano.
O caminhão já veio. É um caminhão comum, dos pequenos, mas pra que melhor e maior se é tão pouco o que vai ser levado, se é tão curta a viagem do Saco Grande para o Roçado?
- Não vai caber tudo – diz a mulher.
- Dá e sobra – responde o marido.
- Pois tomara que dê.
Começa o carregamento. O marido e o motorista, com a ajuda de um guri da vizinhança, cuidam do mais pesado – guarda-roupa, cama do casal, cama da sogra, armário, fogão, mesa, cadeiras, geladeira. Um trabalhão. Mas um trabalhão gostoso – é a última mudança na vida, se Deus quiser. A mulher arruma as miudezas, entrouxa as roupas, empilha pratos e xícaras. A mãe dela descansa numa espreguiçadeira, convalesce duma zipra na perna.  É uma senhora gorda, que se abana sem cessar, toda encalorada.
- Não vai caber tudo não – insiste a mulher, quando quase todos os trecos grandes foram ajeitados no caminhão.
O homem coça a cabeça, pois de fato o espaço é pouco e ainda faltam alguns objetos de certo porte, como o fogão, o botijão de gás, as cadeiras. Olha as miudezas, olha a sogra imensa e começa a acreditar que vão ter problemas.
Sobem, por fim, os trens que faltam, sobem as roupas, as panelas, os pratos, a gaiola do coleira, as vassouras, os quadros de santos. Sobe até, sem muita discrição, um objeto branco e intrigante, um urinol de propriedade da sogra – intrigante porque até hoje o genro não entende como é que num tal tamanhinho pode se sentar um tal tamanhão. Mas enfim...
Enfim, com mais algumas bugigangas, o caminhão se empanturra de não se agüentar de pé. Nele, nem mais um alfinete. Ou melhor: ainda conseguem encarapitar sobre tudo a espreguiçadeira.
E agora a questão: e eles vão onde? Porque o plano tinha sido este: a sogra, com seus três metros de fundos, ia na frente com o motorista; o casal, na esportiva, lá em cima.
- Eu não disse que não cabia? – fala a mulher, vitoriosa.
- Paciência. Ninguém morre por isso. Tua mãe vai com o motorista. Nós vamos de ônibus.
O quê? A mulher não aceita. Nunca que a mamãe vai sozinha por aí com um desconhecido. Decide ir com ela.
- Mas como? O caminhão vai sem motorista?
A mulher é teimosa. Ajeita a mãe, acomoda-se em cima duma perna dela, obriga o motorista a ficar na pontinha do banco – um perigo. Mas deu. Parece que deu.
O homem fica olhando o caminhão se indo, meio de banda. Está feliz, ri sozinho: nunca pensou que tivesse tanto na vida.

(Do livro Uns papéis que voam)
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O REINO DOS ESQUECIDOS

Este é o novo romance do escritor MIRO MORAIS, autor de dois sucessos de mídia e de venda no país e no exterior, A coroa no reino das possibilidades e Cândido assassino, a ser lançado ainda este ano pela editora Insular.

O romance está estruturado em oito capítulos que sobrevivem por si só mas são costurados pela história do Barão de Vinhedo, Dom Manoel Manso, personagem central. São eles: Início da aventura; Rumo ao desconhecido; A construção dos sonhos; Um novo olhar; Origem de Mariano Paixão; O amor de Fábio Paixão; O reino ameaçado e Início final.
Dom Manoel manso, um fidalgo muito próximo ao Imperador, por razões misteriosas, abandona a corte no Rio de Janeiro e se lança à aventura de criar no Sul do Brasil um povoado onde as pessoas possam ser felizes. Para realizar o seu sonho não lhe basta dominar a natureza hostil e fascinante e aprender a conviver com ela. O seu projeto entra em conflito com as crenças e as regras, a ordem e a desordem e o Poder que reina sobre tudo e todos. E isso se transforma em mais uma ameaça para o seu plano e a sua vida.

Mas a determinação de Manoel Manso não tem fronteiras. Aos poucos ele atrai para sua idéia, vista como visionária, sobretudo, os que nada tinham. Nem bens materiais nem esperanças. E, logo, também os ambiciosos de riqueza e poder. E tudo vai se transformando em um universo com alma própria.

Pequenos e grandes heróis expõem suas paixões, seus ódios, seus amores, a traição e a solidão, suas esperanças, tristezas e alegrias. As suas múltiplas histórias se entrelaçam – em capítulos que se auto justificam – dentro de um enredo maior, onde convivem os aventureiros e os acomodados; os santos e os assassinos.

Para Dom Manoel Manso o ser humano é o seu santo e o seu demônio. E, dentro dele, perde o que ele conseguir mais fragilizar. E é esse desafio da liberdade que ele próprio, cada um dos moradores do lugar que fundou e o país se deparam todos os dias, todos os momentos, que o desencanta e fascina.

Só para lembrar, Miro Morais, um dos grandes nomes da literatura catarinense e brasileira concorre à cadeira número 20 da Academia Catarinense de Letras.

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11ª MOSTRA DE CINEMA INFANTIL

O Fim do Recreio, de Vinicius Mazzon e Nélio Spréa, do Paraná, é o grande vencedor da 11ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. O curta foi escolhido pelo Júri Oficial e pelo voto do público infantil. Disque Quilombola, de David Reeks, de São Paulo, ganhou Menção Honrosa do Júri. Cada um dos filmes recebe um Prêmio Aquisição no valor de R$ 10 mil da TV Brasil. O Destaque Especial do Júri foi para o curta Rap Consciente, realizado por alunos da Escola Amenóphis de Assis, do Espírito Santo. O anúncio dos vencedores vai ser realizado na tarde deste domingo, às 16h, antes do show Cante com o Peixonauta no Teatro Pedro Ivo, no encerramento da Mostra.

O Júri Oficial foi integrado pelo diretor da série de animação infantil Meu AmigãoZão, Andrés Lieban, pela produtora Patricia Alves Dias e pela cineasta Patricia Monegatto. Eles justificam a escolha do curta O Fim do Recreio “pela sua inventiva construção narrativa que valoriza com humor, delicadeza e sensibilidade o ponto de vista da criança, protagonizando seus próprios dramas, sem perder a sua natureza espontânea”. No filme, crianças de uma escola se unem para mudar um projeto de lei que pretende acabar com o recreio escolar.

Sobre a Menção Honrosa concedida a Disque Quilombola, os jurados argumentam que documentários são comumente realizados sobre crianças e não para crianças. No caso deste curta, avaliam, é possível cumprir a dupla façanha de fazer documentário sobre crianças, afirmando seus espaços, e revelando para outras crianças seus próprios mundos, usando a linguagem universal da brincadeira. “O filme é uma obra política, um olhar etnográfico apurado que dialoga com os mundos adulto e infantil do nosso vasto país”, escrevem os jurados na justificativa do voto.

O destaque para o Rap Consciente é uma referência especial pela relevância do crescimento quantitativo e qualitativo de conteúdos audiovisuais realizados por crianças e jovens. Na edição da Mostra deste ano, concorreram 88 produções de todo o Brasil, que foram exibidos ao longo de 17 dias de programação.

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SAUDADE

Quando chegares, saudade,
No desdobrar da vida,
- nem vivida –
Eu te divisarei, lá longe,
No barco parado, sem vela,
Boiando no mar sem verão
- nem procela –
Parado em ti.

Quando chegares, saudade,
Na noite amanhecida,
- nem dormida –
Eu te avisarei, de longe,
E abrirei os braços, no abraço
Da coisa conhecida
- e já perdida –
No meu entardecer.
(Mila Ramos, Sete Sumos, Ed. Sanfona, 1985)




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PALÍNDROMO: VOCÊ SABIA? 


Um 
palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.
Exemplos: OVO, OSSO, RADAR. O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência  seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido: 

SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), seguem alguns dos melhores palíndromos da nossa língua:
 
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA 
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL 
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO 
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
 
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ

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NOVÍSSIMOS (Escritores)

Em tempos passados, acelerava os passos, gastava quase o dobro do tempo acreditando numa saborosa ingenuidade.
Mas nada era verdade!
O tempo foi passando e meus dias foram se arrastando, mas ainda podia sentir que algo no âmago ia se transmutando.
Ainda podia querer!
Sentia que a vida dilacerava minhas visões, não conseguia encontrar vias na dita dilaceração.
Em tempos passados, acreditava ter encontrado a base de tudo que se me fazia amargo.
Acordava em desespero danado!
Buscava conforto na crença de algo intocável, algum sentido favorável, mas era em tempos já passados.
Já não podia mais saber!
Não sabia do que precisava, não sabia dizer, gritar, pedir, objetivar nem ao menos queria crer.
Mirava a foto de alguém que podia me entender, mas isso também não era verdade. Não queria mais crer.
Agora, passo pelo tempo com o mesmo prazer de outrora, já não corro nem grito, agora sei o que fazer:
Esquecer!

(Tempos passados/Mirkin-2010)

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CONFRARIA DO POEMA (PN)

Teu olhar
- vôo de gaivota –
meu guia.
Solto,
navega em teu seio
meu fantasma: solidão.
Flor primária
ou
botão último
                      de outono?
Teu beijo
- sal de rio –
esconde o concreto
de tênue relação.

 (Fugaz relação, Ciclo dos Olhos, p. 21)


domingo, 24 de junho de 2012

Edição 37





MIL PÁSSAROS CANTANDO (crônica)

Silveira de Souza

Você já acordou de madrugada e escutou mil pássaros cantando?
Pardais, sabiás, canários da telha, rolinhas, corruíras, bem-te-vis? Eles
todos, e ainda outros, em algazarra, nos primeiros sinais da manhã, fazendo
uma festa em torno de sua casa, na qual você (se estiver consciente) é
apenas um encantado e humilde espectador? Pois ontem presenciei tal
espetáculo!

Foi pela madrugada. Eu havia acordado, ao contrário de muita gente,
com aquela angústia de quem não sabe nada sobre a sua vida; de quem não
sabe nada, como num conto de Kafka, da sua situação neste mundo, nesta
cidade, na cama sobre a qual me encontrava. Então percebi que eles todos
estavam cantando – como se diz? – a plenos pulmões, mesmo sabendo que
se tratava de diminutos e delicados pulmões de passarinhos. Eu despertei
sem saber o que fazer, então os meus ouvidos ficaram atentos para aquele
inigualável espetáculo, tão antigo e banal, tão novo e surpreendente.
Os pássaros cantavam, por certo não eram mil – ora, que exagero!
Talvez nem chegassem a cem. Mas o canto deles me chamava à vida. Não
que a vida seja algo extraordinário para nós, habituados a ela, mas é que
ela é o contrário da morte. A morte é o buraco escuro na tua frente, é o
cinzento, é o deixar tudo como está. É o fim da luz. A vida é contrariar o
mundo, é fazer as coisas erradas, é o morrer na cruz. Só os vivos morrem
na cruz.

Que música tão singular é essa quando se está imerso no alvoroço
dos pássaros? O sabiá tem perícias de artista. Acorde único é o seu canto,
que se repete em variações tonais; brejeira, grave melodia de flautinha de
bambu. O sabiá, no seu meio, é um esteta. O pardal, sempre abrupto, é um
roqueiro suburbano, inepto e barulhento. Já o canário da telha trança o seu
traçado discreto, harpejo em ziguezague, áspero, mas correto, no alto do
poste de iluminação pública, em consonância com as suas penas amarelo-
queimado de estrias pardas. E a rolinha, o que ela faz? Parece assustada:
hu-u, hu-u, hu-u! E que espalhafato é esse do bem-te-vi, grito estridente
e espalhado, como um bêbado histérico fazendo escarcéu na casa ou
fagulhas de fogos de artifício se multiplicando no ar, por fim decrescendo
para um ti-vi, ti-vi, ti-vi mais comportado? Mas não são os indivíduos
que impressionam. É todo o conjunto orquestral, a variedade de trinados,
assobios e gritos (que às vezes parecem miados), entremeados por um tril-
li-li, tril-li-li, tril-lili, compassado, persistente, enigmático e um estranho
tssiu, tssiu, tssiu a sussurrar quase inaudível, oculto na espessa folhagem de

alguma árvore.

Sempre encontrei um significado especial nessas coisas pra lá de
corriqueiras. Bem comparando, são elas como algo bonito que a gente
julgava perdido para sempre (aquela ferroada melancólica escondida no
coração), mas que de repente, em momentos inesperados, sempre em
momentos inesperados, surge de novo pra te avisar que tudo pode estar
bem. Como quando, nos meus tempos de garoto, ao acordar inquieto
pelas manhãs, de repente ouvia aquela voz gritando lá fora na rua: “Olha
a laranja lima! Olha o caju! Olha o araçá! Olha a banana ouro!” E então,
depois disso, a manhã se enchia de sol.

Posso ser, e sem dúvida o sou, para quem está ao redor, um cara sem
importância (que nunca soube exatamente o significado da importância)
e que vive num país que talvez até já tenha acabado e diante de um
mundo que embaralhou todos os significados. Entretanto, escutar pássaros
cantando na ressaca de uma repentina madrugada para mim representou
uma importante revelação. Eles soltavam livres o seu canto, cada espécie
cantando a música que aprendera, livre, sem inveja dos outros cantos, sem
disputar entre eles quem cantava melhor. E isto foi como fazer a óbvia
descoberta de que existe alguma coisa decisiva acima do que você já sabe.
Ou reconhecer que o céu, na maioria das vezes, estará escuro, até que você
aprenda a contemplar as coisas com um olhar interior. Esse interior que
é, no dizer de Antonin Artaud, “germinação, idéia, linguagem, levitação,
sonho”, quando a gente então renuncia às formas e fica a espera só do
vento.



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NOVÍSSIMOS

Quem pela vida passa
Sem aproveitar o tempo
Fica levitando no ar
Com o sussurrar do vento.

(Francisco Pinheiro - Troféu Manezinho da Ilha/2012)


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CINEMA DE GRAÇA PARA ALUNOS

Escolas públicas e particulares da Grande Florianópolis já podem fazer as inscrições de turmas de alunos para a 11ª Mostra de cinema Infantil de Florianópolis, que ocorre no Teatro Pedro Ivo Campos de 29 de junho a 15 de julho. Professores interessados em levar seus alunos gratuitamente para as sessões de cinema devem enviar e-mail para agendamento@mostradecinemainfantil.com.br, que a produção solicitará as informações necessárias. Mais informações com Ana Lucia Fernandez pelo fone (48) 9108-8048.





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URDA KLUEGER

A escritora Urda Alice Klueger inovou mais uma vez. Programou o lançamento de seu novo livro simplesmente para o dia dos namorados. Das 15 às 18 horas do dia 12, a escritora que também é membro da Academia Catarinense de Letras, ficou à disposição de seu público leitor para autografar a coletânea de suas melhores crônicas intitulada “Trinados para o meu passarinho”.
O livro é mais uma edição da Editora Hemisfério Sul, da própria autora que, nos convites encaminhados utilizou a seguinte frase: “Presenteie a quem você ama com um livro que fale de amor”.
Parabéns em dobro, querida amiga: pelo livro em si e pela inovação.



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MEMORIAL MEYER  FILHO 2011 E PROJETO 3 PERGUNTAS.


No dia 30 de maio de 2012, o Instituto Meyer Filho lançou o catálogo “Memorial Meyer Filho 2011”, contendo textos e imagens das exposições: A extensão das coisas; Chassis Ajardinados; Chifre coberto de carne; Entre a palavra pênsil e a escuta porosa; Inverso; Lugar; Natureza da/na Arte e Natureza Faminta. Na ocasião também foi lançado o projeto “3Perguntas”, idealizado junto à artista Raquel Stolf.

A seleção composta pelas exposições “A extensão das coisas”, “Entre a palavra pênsil e a escuta porosa”, “Inverso”, “Natureza da/na arte” e “Natureza faminta”  foi aprovada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Florianópolis e patrocinada pelo Costão do Santinho Resort. Já as exposições “Chassis ajardinados”, “Chifre coberto de carne” e “Lugar” foram realizadas pelo Instituto Meyer Filho em parceria com os próprios artistas e/ou curadores. O catálogo foi organizado por Kamilla Nunes, também curadora do programa de exposições. A agenda de exposições do MMF intermediou gerações e fronteiras, ao invés de buscar um tema em comum entre as exposições. A preocupação em abrir o Memorial Meyer Filho para diversas gerações é importante para que ele não se torne um espaço de um grupo determinado de artistas mas, pelo contrário, possibilite contaminações, trocas e interlocuções entre vários grupos, dos artistas consagrados aos aspirantes e recém formados. Evitar a predominância de uma única linguagem foi também um dos propósitos, pois o Memorial não é um espaço de fotografia, ou de desenho, ou de instalação ou de novas mídias, mas um local que busca abrigar a arte nas suas mais variadas formas de suporte.

Serão suspensas, por tempo indeterminado, todas as exposições que viriam a ser realizadas no Memorial Meyer Filho em 2012. Este espaço irá contribuir de forma efetiva para a rede de debates e ações que já estão acontecendo em Santa Catarina, acerca de políticas culturais, de políticas públicas, de arte. Enquanto artistas se unem em frente às secretarias regionais, enquanto críticos de arte, jornalistas e escritores publicam nos jornais para acordar o Governador em relação ao atual estado da cultura, o Memorial Meyer Filho tornará seu espaço expositivo em um local de debates, de produção de conhecimento, de agrupamento de agentes culturais, artistas, professores, autoridades, diretores de museus e demais interessados, que possam vir a contribuir com perguntas e possíveis respostas e ações. Assim, “3Perguntas” é um projeto que consistirá numa conversa que possuirá três eixos de vozes: o público, um convidado que participou da agenda do MMF (2009 a 2012) e um convidado externo. Propõe dar visibilidade ao que o MMF já construiu e escutar o que está por vir, suscitando reflexões críticas dentro do contexto artístico, cultural e político de Santa Catarina. Funcionará como uma rede de questões a serem lançadas, com uma programação que será amplamente divulgada.



                                 
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 CONFRARIA DO POEMA


A flacidez muscular
Da retina
Revolve os dejetos.
Pálpebras descoloridas
calam tua boca
vermelha carmim,
esquecida
canto do olho.


Passam-se os anos
A vida esco(l)a
Entre esquálidos dedos.
Procuro vaidades
Esqueço verdades.
Ampulheta,
Hediondo marcador.

(Pinheiro Neto, Cena 2011-2, Poemas à flor da pele, p. 339) 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Edição 36



QUANDO O GARÇOM É POETA

Olsen Jr.

   Surpresas! Ninguém está livre delas. Não naquele sentido emprestado pelo Barão de Itararé (Apparício Torelli) quando afirmou, “de onde você menos espera, daí mesmo é que não sai nada”. Mas, de repente, o sujeito com quem você conversa esconde, em uma ocupação mundana, um grande talento para uma área totalmente diversa. Um garçom, por exemplo, que é escritor.

   Quando cheguei, o restaurante estava quase lotado, seis garçons se revezavam no atendimento. Ele me vê no balcão, apressa-se em dizer, “consegui baixar na internet, a Divina Comédia”... Retorna pouco depois da mesa que está servindo, as mãos ocupadas com pratos, copos e garrafas... Indago, mostrando interesse no assunto, que livros? Ouço, ou pareço ouvir, enquanto ele passa apressado em direção da copa, “a terra, o céu e o inferno”... Imagino aquele cidadão com mais tempo para se dedicar àquilo que, de fato gosta, livros e leituras. Também, da música, da qual já tinha notícias, após comprar um cd que ele próprio gravara, depois de um ano de “economias”, muitas “horas extras” na alta temporada em Florianópolis no ano passado... Na volta, já com a bandeja cheia, continua a conversa, “tive sorte, consegui o livro em versos, melhor que a prosa lançada, tempos atrás, aqui no Brasil, a poesia é superior”... Não deu tempo de corroborar com a descoberta dele, logo vislumbro seu corpo arqueando-se sobre uma das mesas para servir as bebidas. Sujeito dedicado estava ali. Aceitava com desenvoltura os seus desígnios presentes, uma espécie de preparação para, quem sabe, vôos futuros. Tento me concentrar neste roteiro não escolhido, para pegar o mesmo vôo que aquele homem condenado a servir os seus iguais...

   Logo que passou o “sufoco”, ouço a voz dele, às minhas costas, no balcão, “descobri um sebo, numa galeria aqui na cidade, alguns autores que estava a muito procurando, Rimbaud, Bukovski, Kerouac... Conheces?”... Respondo, huumm! Alguma coisinha, estes caras da “beat generation” como ficaram conhecidos, li quando tinha 17 anos, faz algum tempo, Allen Ginsberg, Thimoty Leary, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs, Gary Snyder, Neal Cassady, Peter Orlovsky, Ken Kesey, este, escreveu “Um Estranho no Ninho”... “Bah!” Ouço a exclamação, enquanto ele ri, “esqueci que você é um escritor”... E se afasta para atender um novo chamado na mesa em frente da janela, no outro lado do salão... Aquele sujeito não tinha interlocutores ali... Depois que voltou, com a comanda nas mãos, antes de fazer o pedido para o copeiro, sugeri para ele, rapidamente, precisamos conversar qualquer hora, faço um churrasco, convido alguns jornalistas e escritores, que tal? “Topo”, afirmou ele, se afastando novamente.

   Enquanto pagava a minha conta, comentei no balcão, para o caixa, feliz do restaurante que tem poetas como garçons... O proprietário me olhou, surpreso, mas não se fez de rogado, “do jeito que bebem, preferimos os poetas como fregueses”... Estava rindo ainda, quando me deu o troco.


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POEMAS REUNIDOS

Este é o título da coletânea reunindo todos os meus poemas editados até hoje e mais alguns inéditos, em comemoração aos meus quarenta e cinco anos “fazendo poesia”.
Trata-se de um projeto há algum tempo acalentado por mim e que ganhou forma no último ano de gestão do saudoso mestre Lauro Junkes, então Presidente da Academia Catarinense de Letras.
O volume é apresentado pelo grande estudioso da nossa Literatura, professor Celestino Sachet e traz na contra capa um texto do escritor Olsen Jr..
Em breve estarei divulgando a data, com o respectivo o local e hora, em que será realizada a noite de autógrafos.

7º PRÊMIO FUNCINE

Estão abertas as inscrições para o 7º Prêmio Funcine de Produção Audiovisual Armando Carreirão. Esta edição teve um crescimento de 50%. Em 2011, era de R$ 170 mil e agora vai para R$ 250 mil. Além do aumento dos valores, havia somente um prêmio para a categoria estreante e neste ano serão dois

Serão contemplados oito projetos de curtas-metragens digitais: dois na categoria 1, no valor de R$ 50 mil, quatro na categoria 2, no valor de R$ 30 mil, e dois na categoria 3 (diretores estreantes), no valor de R$ 15 mil.

A apresentação das propostas de filmes concorrentes é realizada em arquivo PDF em CD. O Prêmio é uma realização do Fundo Municipal de Cinema (Funcine) e conta com o apoio da Cinemateca Catarinense, Fundação Franklin Cascaes e Prefeitura Municipal de Florianópolis.

Desde o ano passado, o edital está com um novo formato, aprovado em uma consulta pública. Até 2010, havia prêmios específicos para os gêneros ficção, documentário e animação. Agora, há somente faixas de valor. A mudança privilegia a qualidade das propostas de filmes, independente do gênero, e incentiva projetos de novos diretores.


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CONFRARIA DOS NOVÍSSIMOS

“Todos os loucos e os mendigos possuem uma visão de mundo que invejaria qualquer artista consagrado. Entretanto, suas confusões psicológicas os tornam seres alvejáveis perante a inteligência humana.
Os loucos, dentro de suas loucuras felizes ou infelizes, impõem suas próprias razões sobre os outros valores que não lhes dizem respeito em seus próprios universos. Ou seja, são pessoas completamente normais.
Os mendigos, dentro de suas misérias felizes ou infelizes, rastejam-se diante de uma vida ilusoriamente promissora, confrontando-se com resultados ilógicos e muitas vezes injustos. Ou seja, são pessoas completamente normais.
A questão não é o ponto de vista sobre o cotidiano, mas o cotidiano em si.
Se todos os loucos e mendigos tivessem aderido ao cotidiano de forma pacífica, de certo não subverteriam as obras dos verdadeiros artistas.”

(Texto de Cláudio Domingues – Floyd. Recebi numa das sinaleiras da cidade, não lembro qual. O escritor entregava seus textos em troca de alguma moeda, possivelmente para permitir a impressão de novos trabalhos. Este texto foi escrito no dia 31/12/2011 às 14h39min e é intitulado Cantarei nos albergues e nos hospícios.)
Um poema aos professores (sempre lutando pelo pão de cada dia e por melhores condições de trabalho)

Não era pra ser, 
tudo conspirava contra, 
ninguém queria ver, 
se visse, fazia de cont(r)a. 
E foi assim, acredite,
veio devagar, muito tranquilo,
e de repente, com voraz apetite,
devora tudo aquilo, 

que um dia fez,
calor agora é frio,
o rei nada diz, 

nasceu como ser feliz,
viveu pouco, muito riu,
humilde, é sempre aprendiz. 

(Entre o sol e a lua vive o professor, inédito de Lúcio Darelli)
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REGISTRO


  1. Em minhas mãos o número 37 da revista do Grupo de Poetas Livres, Ventos do Sul. Um belíssimo trabalho encabeçado pela escritora Maura Soares, dedicado a Licinho Campos. Destaque para as homenagens feitas ao artista e escritor, bem como para: Oração dos poetas, destaque literário- Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, descobrindo portas novos e promovendo os poetas do grupo. Nestas duas últimas seções, nota-se o volume de poemas produzidos bem como a qualidade da grande maioria deles. Site do Grupo: www.poetas livres.com.br


  1. Boletim do Instituto Histórico e Geográfico 162, referente a abril de 2012.


  1. O Trinta Réis, referente a março/abril de 2012, Boletim da Academia São José de Letras, trabalho excelente de seu Presidente o confrade Artêmio Zanon. Destaque para a excelente matéria em homenagem ao escritor e membro da Academia Catarinense de Letras, Jair Francisco Hamms, “o encantado por palavras” falecido no dia 11 de janeiro de 2012.


  1. O Nheçuano, jornal da cidade de Roque Gonzáles-RS que tem como responsável o escritor e jornalista Marco Marques e onde escreve o meu caro amigo escritor Nelson Hoffmann, que sempre tem aberto espaço para a divulgação das obras produzidas em Santa Catarina.


  1. A ILHA, suplemento literário número 120 referente a março de 2012, editado pelo escritor Luiz Carlos Amorim. Segundo o editor, “são quase trinta e dois anos de publicação da revista do Grupo Literário A ILHA, divulgando a nova literatura que vem sendo produzida nas últimas décadas. Nesta edição, destaque para “literaturacatarinense sempontocom” de Celestino Sachet, “Amemos a Ilha!” de Enéas Athanázio, além de vários poemas de autores diversos.


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CONFRARIA DO POEMA

I
Aberto o compasso
Mostra-se o coração,
Doído, marcado,
Pelas cicatrizes
Entrecortadas
Ao vento.

II
Carótidas obstruídas
Vertigens, tonturas.
Valente coração
Teimoso, bate ainda.

(Pinheiro Neto, Cena 2011-1, Poemas à flor da pele, p. 338) 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Edição 35 março 2012-1


                       
                                

A  PRIVADA  DA  VÓ  DO  ALEMÃO
                                  Rui Cesar Bittencourt


Barra da Lagoa, em Florianópolis,  é um local bastante interessante. Com
muito de suas características  ainda preservadas, é única.  Comunidade
pesqueira das mais produtivas, abastece o ano inteiro nosso mercado com
tainhas, enchovas e corvinas. Tem personalidade e vida próprias.
Conheço nativos que conseguem passar meses, às  vezes um  ano inteiro sem
sequer ir ao centro... -  não “carece”...lá  tem tudo, dizem eles.  Quando
vão  é para consultar com os “Doutori”...!!!
Com seu vai e vem ininterrupto dos barcos de pesca, linguajar próprio, fruto
de  seu “fechamento cultural”, ali mantém-se  vivo
 o sotaque carregado açoriano-manezes.
Tem “causos” e  personalidades-peças-raras que são hilários.

O Alemão grandão  é um  deles.

Numa dessas sextas-feiras, de passagem por lá, vejo meu  amigo  subindo a
rampa de acesso à  ponte ex-pênsil – que  agora não balança mais -  depois
de reformada e tornada rígida pelo Prefeito  “Daro ”.
Todo compenetrado, carregava umas tábuas nas costas, atravessadas,
incômodas, uma viga, ou barrete, na frente, caminhando com  dificuldade.
- Vais construir o quê Alemão, com esse madeirame todo?  ...perguntei
brincando.
-  Meio encurvado pelo peso, sacana do jeito que é, prontamente   responde:
-  é  pra  reformar a privada da minha  Vó,  relíquia da família, lá em cima
do morro.
Era verdade.

O  cara é uma peça raríssima. Comprido, quase dois metros de altura, de tão
alto e desengonçado, é até um pouco corcunda, seguramente de tanto olhar
para baixo para conversar com as pessoas. Só vendo o tipo, legítima
encarnação do  manézinho típico da Ilha.
Somos amigos há uns bons anos. Para terem uma idéia, eu meço  um metro e
oitenta e para falar com ele tenho que olhar pra cima...!
De sorriso fácil, fala grossa, olhos grandes e “arregalados”, carrega
vários colares no pescoço e pulsos, com bolas grandes e pequenas de madeira,
como adornos e proteção. Entre os colares pendurados um deles ostenta
miçangas coloridas,  azuis e brancas, não meras coincidências, pois
irremediavelmente circula pela Barra quase que com o uniforme completo do
Avaí, fanaticamente seu time do coração. Está sempre vestindo a camiseta
oficial por fora das calças ou  bermuda e  boné azuis, com o símbolo do
Leão.
Faz um misto de “girafa” (pela altura) com pai-de santo-avaiano, pelos
tantos penduricalhos, cores e excentricidade exibidos.

Perguntei como é que ele faz para tomar banho, com
todos aqueles badulaques ?
- Alguns eu tiro, outros não…nuuuunnnnca do pescoço:  - são “muito fortes”,
dizia ele...!!!  Pelo boné já me ofereceram uma grana,  mas nem pensar em
vender.
 “Bafinho” de cana no ar, fechando os olhos enquanto falava,  seu costume,
me explicava que a privada, lá no alto do morro...  - é antiga pra caramba.
 - Foi  lá que minha Vó  “rezou” durante toda sua vida...e a família
inteira, por muitos anos, também lá sentou pra fazer suas “oraçõezinhas” de
manhã cedo....!!!  E ria, com uma baita cara de sem-vergonha.
-  O  neguinho baixava as calças e sentava no trono de madeira, com vista
panorâmica por entre as largas frestas das tábuas, obrando  e  apreciando o
mar distante lá de cima, com aquele ar puro;  um privilégio para  poucos.
– ‘Tá chegando o bote do fulano, saindo o do beltrano... aquele  ‘tá
carregado, afundado pelo peso, o outro não matou nada....

-  Ôhh  Rui, escuta aqui óh – e se inclinava para falar comigo - vou te
confessar uma coisa que poucos sabem: -  muita revista de “mulhé”  pelada eu
levei lá pra trás....e ria o safado..!!!
 - Agora, te digo, com o ventão nordeste de inverno, que pega de frente no
barraco, imagina, chegava a congelar  o rabo do neguinho. Tinha que ser
ligeiro no ato...!!!  Era vapt-vupt e cair fora.
- Rui, Rui, me pegando pelo braço.:  -  a véinha, que Deus a tenha, gemia,
gemia... mas não desistia...!!!.  E  dá-lhe  gargalhadas.
Eu também, nessas alturas.

Mas  agora ‘tá tudo caindo , a tal da privada, coitada. Abandonada, meia
torta, necessita urgentemente  de  reparos, caso contrário vai virar ninho
de cobras, ou despencar  de vez.
 – Arranjei essa madeira ali na casa Mainho, óh,  restos de uma obra.
Agora vou subir  para fazer o serviço...

 Dia desses, era uma quinta-feira,  com seu Avaí aplicando dois a zero sobre
o Palmeiras, líder do campeonato – lá mesmo em São Paulo -, empolgadíssimo
com o resultado, já  “mamado”, olhos vermelhos de tanto “cafezinho”,
gritava,  melhor,dizendo,  urrava -  mais parecendo um berrante com
auto-falante -  para o lado de lá do canal,  fazendo tremer até as árvores.
Botava as mãos em corneta e explodia...  . AVAEEEEEEEEEEEEEEEHHHHH....dava
até um arrepio o vozeirão.

Pobres garças que se recolhiam  num ninhal próximo para o merecido descanso
noturno,  sem entender nada d’aquilo , voavam em disparada, plena onze horas
da noite.

E lá vai o Alemão arrumar a privada da Vó. Longilíneo, tábuas desarranjadas
nas costas,  atravessando lentamente a ponte, bermuda caindo, mostrava
parte da cueca e da bunda branca.
Figuraço..
Tem cada  peça rara  na Barra.

Outro dia conto pra vocês do tio Vâno...


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1º FAÇA: filmes selecionados

De 177 inscritos, foram selecionados 31 curtas para concorrer a troféus e a R$ 20 mil reais de premiação em dinheiro no 1º FAÇA - Festival Audiovisual Catarinense, que ocorre em abril em Lages (de 12 a 14), Blumenau (de 19 a 21) e Florianópolis (de 26 a 29). São 17 ficções, 9 documentários e 5 animações disputando os prêmios das quatro categorias, incluindo o Júri Popular.

Florianópolis permanece como o maior polo produtor, mas é importante destacar que pequenos municípios, como Irineópolis e Ilha Redonda tiveram filmes selecionados, além de produções de catarinenses realizadas em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).

Serão contempladas quatro categorias, cada uma delas com um prêmio de R$ 5.000,00: Melhor Ficção, Melhor Animação, e Melhor Documentário, eleitos pelo Júri Oficial, e o melhor curta eleito pelo Júri Popular. A curadoria foi integrada por Fernando Boppré, Guto Lima e Lucian Chaussard , todos de Santa Catarina e com reconhecida experiência em cinema.

Embora as inscrições estivessem abertas para filmes realizados em qualquer período, mais de 80% dos títulos selecionados foram produzidos nos últimos cinco anos. É importante observar que o número de inscritos demonstra que o Estado produz um curta por semana. Mas das produções inscritas há 19 finalizadas entre janeiro e fevereiro de 2012, o que dá uma média de pelo menos dois curtas por semana feitos no Estado.

FAÇA é uma realização da Exato Segundo Produções Artísticas em parceria com a Alquimídia.org e da Hemisfério Criativo, responsável pela criação da identidade visual. O evento tem o Apoio Institucional da Cinemateca Catarinense/ABD-SC, FUNCINE – Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis, SANTACINE – Sindicato da Industria do Audiovisual de Santa Catarina, SINTRACINE – Sindicado dos Trabalhadores do Audiovisual em Santa Catarina, Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Cinema do CIC e Museu da Imagem e do Som (MIS/SC).

O Festival conta ainda com o apoio da Vantuta Impressões, SESC Santa Catarina, FURB (Fundação Universidade Regional de  Blumenau) e Fundação Cultural de Blumenau, Prefeitura Municipal de Blumenau e Paradigma Cine Arte. O Governo de Santa Catarina, por meio da Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte do Estado (SOL) e FUNCULTURAL, é patrocinador do 1º FAÇA – Festival Audiovisual Catarinense.

Contatos: www.faca.art.br

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GERAÇÃO VIVA

Nas bancas a 6ª edição de Geração viva, edição de bolso, do escritor catarinense David Gonçalves.
Vejam o que nos diz o autor sobre esse livro: “Escrevi estes contos quando jovem. Em geral, os autores não gostam dos seus primeiros contos. Mas, confesso, estes contos me engrandecem. Eles focalizam os grandes problemas sociais e econômicos do país no século XX, precisamente a década de setenta, com o êxodo rural, onde os trabalhadores rurais foram expulsos dos campos e incharam as periferias das médias e grandes cidades. Relatei, então, as desigualdades sociais de um país rico, com todos os desmandos possíveis, muito mais visíveis hoje. Geração viva é registro de uma situação histórica vivida também no começo do século XXI. É o retrato doloroso e cruel de uma geração de seres massacrados e explorados pelo sistema a que estão subordinados. Quis retratar, não somente a chaga agrícola do Paraná, mas do país. Essa massa de trabalhadores carentes [ os boias-frias, atualmente denominados sem-terras] e mal alimentados, mas seres humanos que, apesar da dura e mísera realidade, ainda têm alento para sonhar e amar. Representa, enfim, uma massa humana que labuta, perambula, sofre e produz. Uma geração viva.”
São dezessete contos forjados através de um realismo chocante mas sempre trabalhado de maneira clara e precisa, comprometida com o social e o humano.
e-mail do autor: david.goncalves@uol.com.br.  


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CONFRARIA DO POEMA

(HOMENAGEM A FLORIPA - 286 anos)


As curvas da Enseada
desdobram teu todo
em curvas dos olhos
da Ilha dos medos.

As curvas do tempo
encontram nas alvas
no mistério do ventre
escorpiões sem garras.

As curvas da Enseada
vistas por sobre o sonho
te desnudam te orvalham
te fazem Senhora minha
nesta Desterro alcova.



( PN/Enseada, de Minha Senhora do Desterro)



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Edição 34 - Janeiro 2012


O VENDEDOR DE MARAVILHAS  Jair Francisco Hamms (*)

Foi em Porto alegre. O meu amigo Cardoso calcou o botão do interfone, aproximou a boca do aparelho, indagou:
- Dona Vera, há mais alguém aguardando?
- Dois, ainda, doutor.
- Quem são?
- O do terreno de Santa Maria... e ... aquele que o senhor mandou passar hoje. O dos tecidos.
- Diga ao de santa Maria para passar na quarta. Mande o outro entrar.
Depois, dirigindo-se a mim.
- Só mais um, Hamms. É um cara que, dizem, vende uns tecidos muito bons. E baratos. Queres tomar outro chimarrão?
- Não, obrigado. Não te preocupes comigo.
- Certo. Dá mais uma olhadinha no jornal e depois conversaremos descansados. Jantas comigo?
- com prazer.
- A secretária fez entrar um homem baixinho, magrinho. Uma enorme pasta, feito mala, contrastando com a figurinha mirada.
- Boa tarde, Dr. Cardoso. Quem me recomendou o senhor foi o Dr. Lima. Disse que eu passasse aqui, que era possível que o senhor ficasse com alguma coisinha...
- Vamos ver isto rápido. Tenho um amigo esperando há quase uma hora.
- Tecido, Dr. Cardoso?
- Não é o que o senhor vende?
- Sim, sim. Mas tenho outras coisinhas... perfumes, jóias, relógios, isqueiros, máquinas fotográficas...
Abriu o quase baú. Retirou um retângulo de papelão com dezenas de pequenas mostras de tecidos simetricamente distribuídas.
- Tudo inglês, doutor. É só escolher... O Dr. Lima focou com três. Um deste... com um cinza... e este preto aqui.
- A quanto, isto?
- Pro senhor, que é amigo do Dr. Lima, trezentos.
- Trezentos? Mas não fez a duzentos e cinqüenta para ele?
- duzentos e cinqüenta. Pronto.
- este aqui ta me agradando. Que tal este aqui, Hamms? Vem cá, dá uma olhadinha. Me ajuda.
- É. Este ta bacana.
- Este, então. Quando é que o senhor entrega?
- Na hora que o senhor desejar. Até hoje.
- Não, hoje não. Na segunda-feira. Se eu não estiver aqui, deixe com a minha secretária. E ela lhe entregará o cheque, ta?
- Claro, doutor. Não tem problema. Mas vai ficar só com unzinho? Este cinzinha aqui não lhe agrada?
- Não. Só quero este.
- E o senhor? Não quer? Amigo do Dr. Cardoso, faço o mesmo preço.
- Não, obrigado.
- Perfume pra sua senhora, Dr. Cardoso?
- Não, só isto. Pronto.
- Isqueiro eletrônico. Última novidade nos Estados Unidos e Europa. Veja que maravilha!
- Não. Isqueiro já tenho vários. E não uso nenhum.
- Uísque. Da Escócia. Tenho pra pronta entrega. Todas estas marcas aqui. Veja: Big T, a quarenta, Highland Queen, 15 anos, a cento e vinte, Royal Salut, a duzentos, Haig, a quarenta, Fortification, a cem.Something Special, a oitenta, Old Smugler, a setenta. Cutty Saark, a sessenta. Robertson’s, yellow label, a noventa. Hundred Pippers a…
- Não, não quero mais nada, não. Uísque ainda tenho bastante.
- Relógio com mostrador digital? Que tal? E máquinas fotográficas? Binóculo, veja que maravilha. Pro senhor, eu faço este por trezentos. Custa quase isto pra mim.
- Não. Estou satisfeito.
- Gravatas italianas. Tenho dezenas, por preço inacreditável. E jóias, doutor. Pedras preciosas: água-marinha, ametista, brilhante...
- Estou satisfeito, já disse. Agora, o senhor pode ir. Tenho de atender o meu amigo aqui, de Santa Catarina.
- De Santa Catarina? Pois então? O senhor não vai levar nada para sua esposa? Presentinho de viagem... isto funciona...
- Não, não. Já comprei presente pra ela.
- E pros filhos? Tenho brinquedos japoneses, americanos, alemães. Verdadeiras raridades. Tenho um aqui que...
- Não quero nada não, chefe. Meus guris já estão cheios de cacarecos.
- Pois leve uma coisa que realmente encante uma criança, senhor.
- Não, obrigado.
- E o senhor, Dr. Cardoso? Não vai querer me dizer que vai ficar só com aquele cortezinho e pronto? Tenho maravilhas aqui, doutor. Ma-ra-vi-lhas. Barbeadores elétricos, legítimo caviar russo, vódica, tequila mexicano, tapetes persas, quadros de pintores famosos. Filmes pornográficos, do festival da Dinamarca, verdadeira maravilha, última palavra em safadeza!
- Estou satisfeito, já disse. Agora, me deixe que eu tenho que atender o meu amigo.
- Então, ta bem. Mas pode crer que ta perdendo verdadeiras pechinchas...
Apertou a minha mão. Apertou a mão do Cardoso. Fechou a mala, dirigiu-se à porta. Parou. Com a cabeça, fez um sinal ao Cardoso, chamando-o à parte. Tornou a abrir a pasta, retirou um livro de capa preta.
- E isto, interessa?
Cardoso folheou o livro. De longe, pareceu-me fotos.
- Quanto?
- Depende.
- Depende de que?
- Tempo. Cobro por hora. Duzentos.
Cardoso coçou o queixo. Sorriu.
- Pra pronta entrega?
- Agora, se desejar.
- Esta lourinha, então.
- Quando?
- Segunda.
- Que horas? Ás oito.
- Aqui?
- Aqui, não. Melhor ela telefonar.
- Até segunda.
Cardoso, sorrindo, fechou a porta. Depois passou a língua no bigode. Um velho hábito dele.


(*) Nota da Confraria

Esta é a homenagem da Confraria da Leitura-pn e do Jornal Leste da Ilha ao grande escritor e membro da Academia Catarinense de Letras, Jair Francisco Hamms: a reprodução da crônica que dá nome ao seu segundo livro. Foi uma edição da Edeme (do grande Lourival), em 1973, que contou com a participação da Universidade Estadual. A edição traz na capa uma ilustração de Rodrigo de Haro e é apresentada por Raul Caldas Filho.
Jair nasceu em 11de abril de 1935 e deixou o convívio de seus amigos, confrades  e familiares quase agorinha, em 11de janeiro de 2012.

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POEMAS À FLOR DA PELE

A Associação Cultural Poemas à Flor da Pele foi convidada para participar ativamente da programação cultural do Centro Cultural de São Paulo. Durante todo este ano a diretoria da ACPFP, em parceria com aquele centro promoverá lançamentos, recitais, saraus, palestras, etc., com escritores de todo o Brasil integrantes da entidade, buscando não apenas difundir o trabalho que vem sendo feito pela Associação em Porto Alegre e em diversos estados brasileiros, mas divulgar também a produção individual desses mesmos associados.
Segundo a Presidente da ACPFP, escritora Soninha Porto, o primeiro evento deverá ser realizado no final de março com o lançamento do volume 4 da coletânea Poemas à flor da pele (poesia) e do volume 1 da coletânea Poemas à flor da pele (contos e crônicas), além de performances, declamações, coreografias, teatro, etc.
Aliás, diga-se de passagem, os dois livros estão belíssimos. Um trabalho gráfico maravilhoso, capa impecável,  uma grande parte dos textos bastante maduros, enfim, uma contribuição significativa para a estante dos novos escritores brasileiros.

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CONFRARIA DO POEMA

Teu fascínio
Ofusca meus pensamentos
Enquanto sozinho me debato
Pelo portal do teu desejo.

Teu fascínio
Cega minhas vontades
Enquanto caminho a esmo
Por labirintos em teus olhos.

Teu fascínio
Estupra-me a mente
Enquanto cego fico
Sob a nuvem do teu ventre.

(Pinheiro Neto LM., Fascinação/2012)

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PRÊMIO LITERARTE 2012



Nos dias 4 e 5 de fevereiro, na Cidade de Curitiba, acontecerá a entrega do Troféu "Prêmio LITERARTE de Cultura 2012", promovido pela Associação Internacional de Escritores e Artistas.

Idealizada pela LITERARTE, a outorga é uma grande homenagem a todos aqueles que brilharam durante o ano de 2011 no cenário cultural e têm como objetivo central reconhecer e trazer a público as melhores iniciativas culturais tendo como critério: talento, criatividade, empreendedorismo, respeito, companheirismo e apoio cultural.
Com este Prêmio, a LITERARTE reconhece, distingui e premia a quem se destaca na sociedade com excelência na gestão de suas carreiras, contribuindo assim efetivamente para o desenvolvimento cultural e, consequentemente, socioeconômico do país.
O evento será realizado durante um final de semana cultural, na Sala de Conferências do Hotel Nikko Curitiba, com programação especial composta por: Cerimônia Solene de outorga do Prêmio, Posse dos Conselheiros Literarte, Chá Literário com lançamentos, lançamento oficial do Catálogo Artístico Literário Bilíngue, Exposição de Artes Plásticas, Jantar de Confraternização e Passeio Turístico Cultural. Será definitivamente um final de semana que entrará para a história e abrirá o ano cultural.

A escolha dos homenageados se deu perante um rigoroso processo de análise por parte da Diretoria LITERARTE e será conferido por mérito próprio de desempenho.

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VÍDEOS SOBRE SARTRE

O Núcleo Castor  acaba de lançar mais quatro novos vídeos do "Seminário Sartre: Psicanálise Existencial", ministradas pelo professor Pedro Bertolino da Silva, da Universidade Federal de Santa Catarina (aposentado), estudioso de Jean-Paul Sartre há mais de 40 anos, em seminários com os profissionais dos Consultórios Associados em Psicologia e Psicoterapia de Florianópolis e Blumenau, que também é poeta,  ensaísta e membro da Academia Catarinense de Letras.

No vídeo XII "Seminários Sartre: Psicanálise Existencial - A mitologia do primeiro-motor", Pedro Bertolino fala sobre a ruptura existencialista sartreana com as metafísicas antigas, medievais, clássicas ou contemporâneas, estabelecidas pela mitologia do "primeiro-motor-imóvel" aristotélico; apropriada pelo misticismo da Idade Média, dissimulado em nossa cultura até esses dias de terceiro milênio; o engodo da derivação das verdades e o absurdo conveniente da "necessidade lógica", conduzente ao ateísmo metafísico-acadêmico, com a dissolução do cristianismo na mitologia politeísta dos gregos antigos.
No vídeo XIII "Seminários Sartre: Psicanálise Existencial - A mitologia da Razão Universal",Pedro Bertolino trata do invento "mirabile" de Descartes para negociar com a Santa Inquisição, Cardeal Berule, contra a Ciência Moderna, de Kepler e Galileu; a mitologia da Razão Universal como máquina pensante para substituir o Deus do Cristianismo e dispensar a Revelações Divinas, os profetas ou os livros sagrados por conta das idéias inatas, claras e distintas; a confusão entre percepção e conhecimento, inventando as ilusões de ótica, descartando as verificações experimentais da ciência, em favor das especulações puramente lógicas.
No vídeo XIV de "Seminários Sartre: Psicanálise Existencial - O homem positivista como " paixão-inútil"", fala sobre Sartre e a tradição luterana clássica, sua formação espiritualista cristã, a reputação do positivismo de Augusto Comte e de todas as epistemologias; o confronto sartreano com a tradição filosófica, sempre misticismo metafísico, ateísmos de sacristia ou de academia; as bases antropológicas ou cientificas da Ontologia de Sartre em "L'être e Le neant", a liberdade como constatação antropológica de campo, portanto, cientifica experimental.

E, por fim, no vídeo XV "Seminários Sartre: Psicanálise Existencial - O ateísmo de Sartre e Galileu", Bertolino aborda a contestação dos ateísmos metafísicos por Jean-Paul Sartre e seu existencialismo, relação de Sartre com Deus e a Religião; Sartre no Stalag II e a celebração do Natal (Bariona): um "auto de natal"; O existencialismo contra o ateísmo materialista de Engels e Marx, a Crítica da Razão Dialética e a negação da Dialética da Natureza; Sartre e o Marxismo; a seriedade e a competência filosófica de Sartre; o homem como paixão-inútil e o inverso da Paixão de Cristo; o desejo absurdo do homem positivista e sua conduta de fracasso
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