sexta-feira, 17 de julho de 2015

Edição nº. 73

PAPO NA CONFRARIA:





PAULO BERRI


1-   O que te motiva a escrever?

Caro amigo Pinheiro Neto, a primeira justificativa que me vem à mente é a vontade de extravasar a criatividade latente e presente desde a mais tenra idade.  Muito jovem ainda, apaixonei-me pela poesia e hoje tenho exatos 1.039 poemas e 367 frases, além de contos, crônicas e parábolas.  Com um pouco mais de maturidade, hoje sinto o desejo de compartilhar reflexões voltadas para os quesitos filosóficos, psicológicos e sociológicos da vida e é neste sentido que se encontra no prelo, o primeiro livro em prosa.  A escrita nos proporciona uma viagem pela imaginação, como não encontro em nenhuma outra arte e é nesse bailar ao som das frases e versos, que procuro me deleitar, tanto na composição poética, quanto na prosaica.  A leitura, tanto quanto a composição, é passaporte barato e que nos dá direito a conhecer, culturas, personagens (fictícios ou não) e os países mais diversos, sem sequer sair do lugar.


2-   Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

- O primeiro, ainda adolescente, foi um dos que me despertaram o desejo de escrever “Memórias de um agente secreto” de Maria de Lourdes Ramos Lock
- Na Juventude “O Alquimista” de Paulo Coelho, mostrou-me uma forma simples de se chegar ao coração do leitor e assim como conquistou boa parte do mundo, o fez a mim também.
- E finalmente “Veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, não pelo aspecto literário, que certamente não era brilhante, mas por apresentar o mundo verdadeiro a um jovem e idealista estudante universitário.  Este livro abriu o Véu de Ísis e me mostrou a dura realidade do mundo e das pessoas, sem tirar da retina, a esperança e muito menos o otimismo.


3-   Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)        Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries):

Memórias de um agente secreto – ver acima

b)        Alunos do Ensino Médio:

Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

c)        Alunos do Ensino Superior:

O Poder do aqui e agora – Eckhart Tolle

4-   Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Essa resposta é bem tranqüila.  Sou impulsionado basicamente pela inspiração.  Meus poemas duram na média entre dez a quinze minutos, fora aquele burilamento necessário.  Agora que estou me dedicando mais à prosa, a qual imaginava necessitar mais da transpiração do que da inspiração, percebi que estava equivocado e, por conseguinte, satisfeito por poder exercer nos dois estilos (poesia e prosa) a mesma receita.


5-   Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Temos nas três instâncias, federal, estadual e municipal, ferramentas de apoio à literatura, como a Lei Roaunet por exemplo.  Em contrapartida, temos Leis que estão apenas no papel, como aquela que obriga o município a adquirir, via processo específico, obras de autores florianopolitanos de autoria do ex-vereador Sérgio Grando, apenas pra citar uma delas.  Na instância privada a dificuldade é ainda maior, pelo simples fato de que esta modalidade dá pouco retorno aos empresários.  Geralmente acontece o apoio privado na escala de amizades pessoais.  Muito há que ser feito nessa área!


6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?


As academias, bem como algumas associações literárias mais organizadas, têm o papel fundamental de disseminar a literatura e de despertar o gosto por ela.  Um dos terrenos férteis pra isso são as visitas às escolas, a doação de livros a bibliotecas, o uso dos concursos literários e outras ações.  Nisso, temos algumas agremiações mais produtivas que outras.  Quanto à língua em si, creio que fica destinado à instância superior desta escala, ou seja, restrita à Academia de Letras do Brasil.



SOBRE O ENTREVISTADO

Autor de quatro livros de Poemas, contos e reflexões, com o primeiro em prosa no prelo.  Teve o prazer de palestrar nos Açores/Portugal sobre a literatura catarinense.  Participante de diversas antologias, tendo sido agraciado com alguns concursos literários.  É membro das Acad. Catarinense Letras/Artes – ACLA (cad. 20) e ASAJOL (cad.17) e das assoc. ACPCC, Letras no Jardim e Leitores em Floripa, participando eventualmente do GPL e GPT.
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DA SÉRIE “POETAS MULHERES” – 13




[Renda de bilro confeccionada por Sivonei Gonçalves]



JE SUIS POEMA





BAILADO

Eras estrela, eras ave, eras
grande flor aberta
sobre o peito do homem?

Em verdade parecias
em teu bailado, Raissa,
um pássaro
pousando sobre aquele tronco
pousando e, no entanto, pronto
para voar.

Em verdade eras um símbolo
em teu bailado, Raissa,
pois no mesmo dia
surgia uma era nova
e da tua terra voava
uma nova lua
para no céu bailar.

[+ MAURA DE SENNA PEREIRA, A dríade e os dardos, Livraria São José, Rio, 1978, p.57]

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"LOucomotiVE-se"

tire
o coração
dos trilhos
meu bem


que o trem
da vida
é bala


seu tiro 
enlouquecido
pode pegá-lo
dormindo


[Valéria Tarelho] (Face/29/06/2015)


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flores do mais


devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

[ + ANA CRISTINA CESAR, Poética, Companhia das Letras, São Paulo, 2013, p.209]


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FUNDO DOS TEMPOS

Vem, vem do fundo dos tempos
traz em tuas mãos claras e leves
transpondo neves
um ramo verde de álamo

vem, vem do fundo dos tempos
conduzindo
na alma e no coração ágil e puro
o frescor de um mundo amanhecente

Vem, vem do fundo dos tempos
e desnuda-te, inocente.

[VANI CAMP0S, Relicário, Porto Alegre, Somar,2014, p.25]



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SEM PRAZO DE VALIDADE


Desisti das rimas pobres de amores.
Quero 
a festa dos 
licores,
sabores,
suores,
sussurros vorazes
sem prazos de validade
ou relógios a tiquetaquear.

A realidade em meus poros,

hera a recobrir nossos corpos
em simbiose de amor.
Devaneios!

©rosangelaSgoldoni
19 08 2014
RL T 5 304 195







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LI E RECOMENDO (13)







Desvios é, sem dúvida, uma das excelentes produções na área do conto surgidas no estado (e porque não dizer, no  país) este ano. São apenas três histórias:  As gêmeas, O aposentado e As três coroas, e uma melhor do que a outra.

Editado pela autora, o livro apresenta o projeto gráfico e a editoração eletrônica impecáveis, a cargo da Alvo Design e a capa muito bem bolada, discreta e de uma beleza singular. Aliás, as orelhas  trazem uma inovação muito interessante,  o texto, assinado pelo escritor Flávio José Cardozo, está impresso na parte interior delas. Ao leitor desavisado  fatalmente passará despercebido caso não a desdobre e perceba-o lá.

O texto de Flávio José Cardozo  acaba sendo também a própria apresentação do livro, já que nada mais há entre a página da ficha catalográfica e o início do primeiro conto – o maior – As gêmeas.  Trata-se de uma análise extremamente precisa do que são os três contos de Iris Guimarães Borges. É por isso que resolvi transcrever aqui o texto em sua íntegra. Até porque eu não teria condições de fazê-lo melhor.

“ Aqui estão três histórias narradas na primeira pessoa (duas por mulheres e uma por um homem) nas quais nossa autora exibe sutilezas da memória alheia num palco enriquecido com suas lembranças próprias. Embora ela não diga os lugares em que cada ação acontece, a alusão a certos costumes e mesmo o emprego de certas palavras deixam clara a herança mineira trazida de Araxá, quando aos 24 anos, recém-casada, ela veio para Criciúma. Mas esse é o lado mais exterior de Desvios, de resto todo construído com boa técnica e uma fluência que prende. Sobressaem, mais que tudo, nos três relatos a força da sondagem psicológica, o domínio do tempo ficcional, a pulsação das rotas e retas que se quebram e nos oferecem sentimentos.

No primeiro conto, temos duas gêmeas em confronto. Maria Inês e Inês Maria, mais que individualidades, são duas metades que não se ajustam e se pertencem. Maria Inês conduz a linha do conflito, é dela a consciência dolorosa do vínculo. Odeia as roupas tantas vezes iguais, os agrados açucarados dos que, pelos 65 anos já vividos, as veem juntas, despreza a dependência da outra, aquela cara de lerda, a presença grudenta, a virgindade ridícula. “Minha irmãzinha”, ela repete, e lembra quando brincavam de se olhar lado a lado no espelho, as duas, as quatro, embaralhadas. Se ao menos Inês Maria tivesse uma cicatriz... Nesse jogo de imagens ambíguas, o leitor é chamado a um labirinto de que também é boa metáfora a guerra das almofadas, quando já não sabiam quem era a irmã de cá e a irmã de lá e qual delas asfixiava a outra.

Em “O aposentado”, o homem metódico é surpreendido pela ruptura dos hábitos e pelo tédio. Mas é criativo. Com a boa memória que tem e o gosto pelos cálculos, logo inventa o que fazer. Põe-se a contar o mundo que lhe sobra: as travessas das janelas, os azulejos do banheiro, os cantos do pintassilgo. Há uma poesia amarga no desdobrar dos seus passos de sobrevivente, na sugestão que lhe dão de visitar os amigos.

No terceiro conto vem a experiência de Ieda. Sua amizade com três vizinhas mais velhas (ela então 17 anos, as três irmãs sessentonas) flui em dez pequenos capítulos, com um introito de poucas linhas que fala em crime perfeito. Todos estranham o relacionamento assimétrico, não entendem o prazer da moça em falar sobre livros com Adélia, sobre licores e doces com Berenice, em aprender bordado com Cecília. Conversam. A distância dos anos, o que é isso? As quatro passeiam, Ieda não diz o nome da pequena cidade inesquecível, mas sabemos que é em Araxá, aquela por cujas mulheres o poeta dava o seu reino.”


SOBRE A AUTORA, PELA PRÓPRIA

Nasci na noite gelada de 29 de abril de 1945, na pequena  Araxá, cidade que primeiro vê o sol. Filha de Altino Guimarães e Níobe Neves Guimarães, das duas famílias herdei a rigidez de caráter, a intransigência e o gosto por ensinar. Mas, antes de ensinar, é preciso aprender. Recebi uma primorosa educação formal – hoje, mais do que nunca, sei disso -, cursando o Primário no Grupo Escolar Delfim Moreira, o Ginasial e o Normal no colégio São Domingos. Nessas duas instituições, lecionei antes de me casar com Ruiter Antônio Borges e vir morar em Criciúma, onde encontrei espaço e acolhida para realizar todo o meu  plano de vida: criar meus dois filhos, Nicole Guimarães Borges  Medeiros e Ruiter Guimarães Borges, fazer o Curso de Letras na então Fucri e ali lecionar Literatura Brasileira, fundar minha própria escola, o CALLP, e participar da fundação da Academia Criciumense de Letras, na qual ocupo a cadeira 19.
   


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DA SÉRIE “EU SOU POEMA”




[Arte no Café por Michele Espíndola]



O POEMA


Tudo
está no som. Uma canção.
Raramente uma canção. Que deverá
ser uma canção – feita de
minúcias, vespas,
uma genciana – alguma coisa
imediata, tesoura aberta,
olhos de mulher – a despertar
centrífuga, centrípeta.


[ WILLIAN CARLOS WILLIANS. Tradução livre de Silveira de Souza, especialmente para Confraria da Leitura-pn]




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DA SÉRIE “CRÔNICAS, CONTOS E OUTROS TANTOS”




[Autor não identificado]


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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”








GAFES TELEVISIVAS

Bons fluídos

Fluido é palavra que rima com circuito, gratuito, intuito, fortuito. A tonicidade, portanto, está no u, e a palavra nãotraz acento gráfico.

Vejamos, porém, o eu disse um locutor de televisão certa feita:

O Palmeiras terminou o segundo turno emanando bons fluídos para a coletividade alviverde.

Os fluidos que o locutor emanou foram tão negativos, que a consequência foi que o todos viram: o Palmeiras perdeu o título do campeonato paulista para um time do interior – primeira vez na sua história -, perdeu o campeonato brasileiro e genhou um Mirandinha – pelo jeito – para sempre...


 [ Luiz Antônio Sacconi, Gafite, nº. 1, abril 1987, Nossa Editora, p. 15]


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DA SÉRIE  “REPASSANDO”







A SENSIBILIDADE SOMBRIA


Conhecia o trabalho da artista plástica alemã Unica Zurn (1916/ 1970) por sua ligação com o Surrealismo. Suas obras apresentam formas pontilhadas ou fragmentadas, uma leitura pictórica de quimeras, animais fantásticos, conteúdos bizarros, imagens bipartidas, desenhos que empurram os corpos para fora dos limites. A fragmentação de sua obra remete à sua condição de esquizofrênica, expressão que significa "partida", "dividida" e se caracteriza pela perda de contato com a realidade. O que eu não sabia é que Unica Zurn deixou também uma obra literária significativa, cerca de 140 contos publicados na imprensa alemã nos anos 40, além de um livro de anagramas (Hexentexte/ Texto de Bruxas (1954), e o livro autobiográfico "O Homem-Jasmim" dedicado a Henri Michaux por quem ela foi apaixonada. Esse livro, publicado postumamente em Paris em 1971, tem uma tradução em português da Editora & ETC (Lisboa), mas não o encontrei nos sebos virtuais do Brasil e, se encontrasse, possivelmente custaria uma pequena fortuna, tendo em vista que alguns livros de Michaux, publicados pela mesma editora, estão cotados hj a preços que ficam entre R$ 350,00 e 500,00 em lojas de usados.
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Unica Zurn teve um longo relacionamento com Hans Bellmer, artista alemão conhecido por suas fotografias e uma impressionante coleção de bonecas mutiladas. Seus principais temas eram a alucinação e os aspectos subconscientes da sexualidade. É conhecida a série fotográfica que fez de Única Zurn em que ela aparece em poses sadomasoquistas, nos quais seu corpo é amarrado fortemente por cordões que marcam e distorcem as formas. Dizem que Bellmer direcionava suas pulsões sádicas para a arte e foi o grande protetor de Unica quando ela, em fases de alucinação, tornou-se incapaz de lidar com os marchandes. Ficaram juntos até a morte de Única, quando a artista, em 1970, suicidou-se atirando-se da janela do apartamento de Bellmer em Paris sem que ele pudesse fazer nada porque estava inválido, numa cadeira de rodas, e só pode presenciar o ato extremo.
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A vida de Unica, apesar de sombria, resultou em iluminações que podem ser apreciadas em sua obra, nas quais uma estética convulsionada é tb demonstração de sua enorme qualidade artística. De alguma forma, ela conseguiu, como afirma em seu livro autobiográfico "O Homem-Jasmim", colocar-se "no centro dos acontecimentos", ainda que muitas vezes de forma trágica. Entre outros, foi uma artista acolhida pelo Surrealismo, primeiro movimento a assumir a "obra dos loucos" como obra.

(Célia Musilli)

Há uma biografia mais completa de Unica Zurn no blog da autora, num artigo da revista Saúde Mental:


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DA SÉRIE “POEMAS VISUAIS”



[ Ondas, poema visual Pinheiro Neto/Chrischelle]


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[Poema visual de Fátima Queiroz/SP]




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O MELHOR LIVRO DE POEMAS QUE ESCREVI POUQUÍSSIMOS PODERÃO LER NESTA VIDA.
ELE ESTÁ IMPRESSO NO MEU CORAÇÃO! E TU, COM CERTEZA ESTÁS LÁ, EM TODOS
OS VERSOS QUE NÃO FORAM PUBLICADOS.

(Pinheiro Neto)


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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn









TEÇO O POEMA
COMO BOM GURMÊ
QUE ELABORA O PRATO:
SO (E) MENTE ESPECIARIAS.

SORVO O POEMA
COMO BOM GLUTÃO
QUE DEGUSTA VERSOS:
SO (E) MENTE POESIA.


(Pinheiro Neto, Degustação poética, inédito, agosto 2013)   






sexta-feira, 19 de junho de 2015

Edição nº. 72

PAPO NA CONFRARIA:





ROSANE CORDEIRO DA SILVA



1-    O que te motiva a escrever?

Dois são os motivos para eu escrever: a inquietude do cotidiano: um fato, uma notícia, um momento triste ou alegre, e a vontade de ser, ou não, eu mesma.

2-    Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

a)    “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis
b)    “Evocações” de Cruz e Sousa
c) “A Trilogia Tebana: Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona” de Sófocles

3-    Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)    Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
“Capitu, Memórias Póstumas”, de Domício Proença Filho
b)    Alunos do Ensino Médio
“A Vida que ninguém vê” de Eliane Brum
c)    Alunos do Ensino Superior
“Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago

4-     Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Em geral, quando as ideias surgem, sou obrigada a colocá-las no papel, para que não fujam. Por isso carrego comigo sempre um bloco para anotá-las seja em um ônibus, em uma fila de banco, ou ainda em um velório. Sou,  de certa forma, “manipulada” pelas palavras que vêm sem pedir licença. E isso é bom demais, pois elas me proporcionam um alívio quando se transformam em textos. Não sou muito engraçada quando escrevo, prefiro a reflexão ao humor, mas este algumas vezes dá o ar de sua graça. Apesar de ser professora de Português, na escrita sempre me sinto atraída por um jeito Leminski de ser: livre.  Com um papel e uma caneta (ou ainda um computador), escrevo, penso, reescrevo, remendo. É assim, um processo às vezes demorado e difícil, outras vezes, bastante tranquilo.

5-    Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Ainda há pouco apoio, e isso não é algo estranho em uma sociedade que pouco lê e visa ao lucro. Quando publiquei “Teatro do Cotidiano”, fiquei chocada com a forma que o autor catarinense é tratado nas livrarias que promovem, logicamente, apenas os best sellers, desvalorizando os escritores locais, que não estão na mídia, afinal, são manés, não norte-americanos, e não dizem que santo da casa não faz milagre?  Além disso, há alguns editais nas fundações de cultura, mas a falta de divulgação, o excesso de burocracia e a política não contribuem para o sucesso de alguns projetos e/ou escritores. Não seria novidade alguma afirmar que investir em cultura nunca foi prioridade em Santa Catarina, nossos acervos estão se perdendo, basta visitar a Biblioteca Pública do Estado para verificar a situação em que se encontra nosso patrimônio, então, para que mais literatura? Enfim, é fato, um país que trata mal seus professores não pode tratar bem seus escritores.

6-    Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

As Academias de Letras são fundamentais para que escritores, de gêneros variados, tenham a oportunidade de discutir e fazer literatura. É um espaço essencial para a interação de escritores, bem como para a valorização de publicações de autores locais. Além disso, nesse espaço, acadêmicos podem interagir com a comunidade, desenvolver projetos e, lógico, incentivar a leitura. Em São José, por exemplo, a ASAJOL, Academia São José de Letras abre e apresenta um varal literário com produções dos acadêmicos e doa livros à comunidade. Esse encontro acontece no 2º domingo do mês em uma feira cultural no Centro Histórico. 
           

Sobre Rosane:
                   
Manezinha de alma, coração e certidão de nascimento, Rosane Cordeiro da Silva é a sétima filha de uma família que construiu história na rua Menino Deus  em Florianópolis.

O gosto pela leitura e pela escrita levaram-na ao curso de Letras na UFSC. No Mestrado desenvolveu uma pesquisa sobre o satírico na Desterro do final do século XIX e, no Doutorado, orientada por Lauro Junkes, defendeu tese sobre a prosa de Cruz e Sousa. Publicou, em 2014, o livro de crônicas, “Teatro do Cotidiano”, mas escreve também poesia, contos e letras de música.

Tem publicado artigos nos jornais Ô Catarina e Diário Catarinense. No blog: “Olhares cotidianos”(http://rosanecordeiro.simplesite.com.br/), apresenta textos sobre fatos corriqueiros que muito têm intrigado o brasileiro deste século. 

Foi professora efetiva  da rede estadual de ensino, mas hoje trabalha apenas na rede particular. No Curso “Inovador, Redação sem Dor”, prepara alunos para escrever os mais variados gêneros textuais.

Ocupa a cadeira 06 da Academia São José de Letras.




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DA SÉRIE “POETAS MULHERES” – 12

  


[Arte no café de Michele Espíndola]




JE SUIS POEMA




CANTO DA AMANTE AMADA


Ainda trazendo sol e sal
além do ímpeto e da esperança
chegou o Amado.
É alvo o leito e o instante é alvo
porque desatado
de tudo o que antes
turvava o amor.

Nada conspurca
incompleta ou ensombra
meu festim da entrega
e o total carinho pela noite alta
me faz tão sagrada
que me julgo a terra.

Ah, eu sei que – um dia – estarei derramada
em cinzas pelas companheiras rosas
mas – antes – rosas brotarão de mim.  




 [MAURA DE SENNA PEREIRA, A dríade e os dardos, Livraria São José, 1978, pg. 141]




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CÓDIGO


sou
de
morse
      :
te
traço
e
ponto



[VALÉRIA TARELHO, Livro da Tribo, São Paulo, 2013, pg. 294]





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SONHO VAGO

O tempo também é um sonho
Que nossa ilusão afaga
As marés da vida levam embora
Para além de toda a vaga

Grata aos mistérios do início
Somos onda sol e procura
Na noite trevas e sacrifícios
Numa psicose de loucura.

Sonho que sou um barco
Há um anjo que me segura
Além das flechas de meu arco
Sob um céu ermo de ternura.


 [ VANI CAMPOS, Relicário, Somar, Porto Alegre, 2014, P. 23]



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DIA DE INVERNO


Oh! noites frias e insones
em que a tua lembrança cresce
nesta saudade que não passa,
que não passa nunca!
Esperanças longínquas
desfeitas no tempo
que, indiferente, apaga tudo ao seu redor.
E deixa este silêncio,
este vazio,
esta angústia pertinente
que nos nos faz sentir cada vez mais só!


[ Silvia Amélia, Poemas do meu caminho, ACL, 1993, p. 69] 

  

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VINHO DO PORTO

Do camaleão afoito
Parte o porto.
Vem ao cais
Buscar sossego, afirmação.

Dançando na garganta,
À borda do cálice,
Eu respiro.
Tenho seu grito.

[ Rita Raphael, Da sedução, da intimidade, do mundo, Editora Cepec, Florianópolis, 1988, p. 15]




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TUA AUSÊNCIA

Na noite insone a que o amor pletora
- Os meus sentidos todos de ti cheios –
Cada minuto se transforma em hora,
E cada hora um dia é de anseios:

As minhas mãos, em lúbricos meneios,
Buscando-te, se perdem leito afora;
Meu coração, arfando nos meus seios,
A maciez da tua boca implora,

E, trêmulos, os lábios entreabertos
Os teus procuram nos lençóis desertos;
O peito opresso, a voz febril, gemente,

Sussurra, estertórica o teu nome...
Em vão o amor em chamas me consome:
Ninguém me ouve, tu estás ausente

[ Leatrice Moellmann, Confissões de amor, Editora Insular, Florianópolis, 2015, p. 34]





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LI E RECOMENDO (12)









ANA CRISTINA CÉSAR poética



Há uns dias, em plena madrugada, sem sono algum, com o controle da tv buscando algum programa que prestasse, deparei-me com a declamação de um poema pelo ator Paulo José. Surpreendido, primeiro pela  leitura de um poema numa emissora de tv,  segundo por  perceber que tratava-se de um programa sobre Literatura Brasileira, abandonei o controle remoto.  Encontrei o que procurava. A emissora?  O Canal Brasil.

Como peguei o “bonde andando”, demorei um pouco para saber o nome do poeta, (no caso da poeta), que estava sendo apresentada no programa. Após aguardar o suplício dos comerciais, fiquei sabendo que a poeta era Ana Cristina Cesar. Os depoimentos de amigos da autora e  de poetas contemporâneos, bem como a declamação de mais poemas realmente mexeram comigo. Deixaram-me preso (no bom sentido) ao programa a ponto de ficar indignado quando terminou.

Embora já tivesse ouvido falar em Ana Cristina Cesar, percebi naquele momento que possuía nenhum livro dela em minha biblioteca e, o mais lamentável, não havia lido nada daquela poeta cujos versos e cuja história de vida tanto me tocavam naquele momento. Fui dormir com o firme propósito de resolver o problema o mais rápido possível. Confesso que demorei muito para pegar no sono, o que ocorreu apenas às quatro da manhã.

Sem deixar passar mais um dia sequer, fui na manhã seguinte  a uma livraria do centro da cidade e adquiri um exemplar do livro Poética / Ana Cristina Cesar. O livro, com 503 páginas, editado pela Companhia das Letras de São Paulo em 2013, tem como curador editorial Armando Freitas Filho, que também é o apresentador da obra. A capa e o projeto gráfico são de Elisa von Randow e a foto da capa, de Cecília Leal, pertence à coleção da própria Ana Cristina Cesar e tudo pertence  ao acervo do Instituto Moreira Salles.

Uma das coincidências da vida: Ana Cristina Cesar faleceu no dia 29 de outubro de 1983, data em que este poetinha completava 35 anos.

A obra está assim estruturada: Apresentação de Armando Freitas Filho (p.7); Cenas de abril (poesia, 1979 – p. 15); Correspondência completa (1979 – p.45); Luvas de pelica (1980 – p.53); A teus pés: prosa/poesia (1982 – p. 75); Inéditos e dispersos: poesia/prosa (1985 – p.125); Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa (2008 – seleção, p.125); Visita à oficina 9 p. 403); Posfácio, Viviane Bosi (p. 425); Apêndice (p. 433); Cronologia (p. 491); Créditos das imagens (p. 497); Índice de títulos e primeiros versos (p. 498).

Sobre a obra, seleciono, a seguir, algumas passagens da apresentação feita por Armando Freitas Filho:

1-    “Em Cenas de abril,  de 1979, uma poesia tocante e pungente apareceu como que escrita não nas linhas, mas nas entrelinhas dos sentidos. O acaso da construção alterava a estrutura esperada do poema. O livro de estreia era magro e, na aparência, insuficiente para matar a fome de quem o lia e relia, a princípio curioso com os enigmas de uma poética densa que exigia uma leitura refletida, mastigada: nem todos os enigmas se resolviam, pois quem disse que tudo tem solução?” (p.7)

2-    “ No livro seguinte, Correspondência completa, a poeta se abreviou ou se mascarou como Ana Cristina C., ‘singular e anônima’ como tão bem definiu Silviano Santiago, em ensaio seminal sobre sua poesia. Uma tentativa talvez, de criar ao menos um vínculo, por mais epidérmico que fosse, com alguns dos seus companheiros de geração que costumavam assinar a autoria com apelidos sem pompa nem circunstância.” (p.9)

3-    Luvas de película” são inglesas, de 1980. O livro é assinado por Ana Cristina C. A capa reproduz um desenho de Bia Wouk de uma figura feminina que o tempo esmaeceu, na reprodução e fora dela. É a impressão que dá, devido ao sentimento de perda., melancolia e desnorteio que encontramos na narrativa. Neste volume, o antigo desejo de escrever um romance, que chegou a ser esboçado n’ “O Livro” (uma das seções de Antigos e soltos) dá seu primeiro passo através de um texto híbrido, flutuante, mal saído do rascunho, que conjuga com perfeição o poema, a prosa, o diário, a carta, a anotação para ser usada ou não, pitadas de ensaio, num verdadeiro mélange adultere de tout , como dizia Corbière:” (p.10)

4-    Eliminou a abreviatura, tirou a máscara dos óculos escuros, recuperando sua identidade como poeta se disfarces, e publicou A teus pés, em 1082. O volume se inicia com uma coletânea inédita que dá título ao livro e reúne os anteriores revistos. O aspecto “caseiro” das edições independentes é suprimido: a “Equipe do coração” no colofão de Cenas de abril  e a “2ª edição” de Correspondência completa desaparecem. No primeiro caso, fica a ficha técnica pura e simples, sem “coração”, e no segundo, some o registro bibliográfico falso da edição princeps, que poderia continuar a ser verdadeira, então.” (p.12)

5-    “Depois disso, tudo foi póstumo sem a sua mão ordenadora. Inéditos e dispersos, arrancado de quatro caixas de papelão deixadas aqui em casa por seus pais atendendo à ordem expressa dela e Antigos e soltos, descoberto a posteriori e organizado com esmero e sabedoria por Viviana Bosi. Seus textos de ensaio, crítica, tradução, dissertações acadêmicas, correspondência que venham a ser publicados depois completarão a obra, sempre incompleta.” (p.13)


SOBRE A AUTORA




Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983), poeta e tradutora brasileira, conhecida como Ana Cristina Cesar (ou Ana C.) é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo da década de 1970, e tem o seu nome muitas vezes vinculado ao movimento de Poesia Marginal.

Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz, nasceu em uma família culta e protestante de classe média. Tinha dois irmãos, Flávio e Filipe.
Antes mesmo de ser alfabetizada, aos seis anos de idade, já ditava poemas para sua mãe. Em 1969, Ana Cristina Cesar viajou à Inglaterra em intercâmbio e passou um período em Londres, onde travou contato com a literatura em língua inglesa. Quando regressou ao Brasil, com livros de Emily DickinsonSylvia Plath e Katherine Mansfield nas malas, dedicou-se a escrever e a traduzir, entrando para a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro(PUC-RJ), aos dezenove anos.
Começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativos. Seus primeiros livros, Cenas de Abril Correspondência Completa, foram lançados em edições independentes. As atividades de Ana Cristina não pararam: pesquisa literária, mestrado em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outra temporada na Inglaterra para um mestrado em tradução literária (na Universidade de Essex), em 1980, e a volta ao Rio, onde publicou Luvas de Pelica, escrito na Inglaterra. Em suas obras, Ana Cristina Cesar mantém uma fina linha entre o ficcional e o autobiográfico.
Cometeu suicídio aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana.
Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, foi o melhor amigo de Ana Cristina Cesar, para quem ela deixou a responsabilidade de cuidar postumamente das suas publicações. O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. A família fez a doação mediante a promessa de os escritos ficarem no Rio de Janeiro. Contudo, sabe-se que muitas cartas de Ana Cristina Cesar foram censuradas pela família, principalmente as recebidas do escritor Caio Fernando Abreu.



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DA SÉRIE “EU SOU POEMA”



[Entardecer de inverno na Lagoa da Conceição/Alessandra Pinheiro/SC]



HÁ CERTO DESVIO DA LUZ


Há certo desvio da luz
nas tardes invernais
que oprime, tal o peso
de músicas em catedrais.

Fere-nos celestialmente,
não vemos qualquer cicatriz,
só o íntimo entendimento
que o sentido nos diz.

Nada podemos ensinar-lhe.
Selado desesperar -,
Imperativa aflição
que nos chega pelo ar.

Quando vem, a paisagem escuta,
prendem as sombras o alento.
Quando vai, é como o olhar
da morte em distanciamento.


[Emily Dickinson, tradução livre  de Silveira de Souza especialmente para este blogue] 




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DA SÉRIE “CRÔNICAS, CONTOS E OUTROS”




[Escultura de Elisa Zattera/RS]




A MEDIDA É O GOZO



Hoje vim para dizer que não quero as meias verdades, as meias palavras, os meios sentimentos. Hoje quero a redondeza da Terra, o caminho com começo, meio e fim, o salto com impulso, velocidade e alvo.

Com a voracidade definida, o querer afiado, não desejo mais as fatias, mas o bolo inteiro, com glacê, calda e cereja. O beijo com saliva e língua. O abraço pleno com direito a mergulhar no outro. O passeio com sol e sorvete, a atmosfera leve como as manhãs da infância. Porque na infância, antes que nos contaminem a liberdade, temos noção dessa inteireza que a maturidade nos rouba, porque o adulto é um craque em escamotear a si mesmo, dissimular emoções, conter o choro, medir o riso, evitar os excessos, neutralizar instintos, viver o possível.
 
Então, vim para dizer que querer demais faz bem. Que aquele que só se doa pela metade, no fundo, não dá nada de si, não pega a estrada com a gana do aventureiro, do cigano que não tem terra a perder, do nômade que não se fixa porque tem horizontes.

Hoje quem tiver a disposição da entrega será meu honroso convidado. Pode vir ao banquete, comer e beber as iguarias, servir-se do pomar de doces frutos pendentes, no ponto de serem apanhados sem risco de nódoas de amargar a língua, sem risco do engodo dos sentimentos verdes, das flores sem pólen, dos favos sem mel. 

Hoje a minha medida é o gozo e quem quiser menos que isso, por favor, saia do caminho, porque a vida não admite conta-gotas nem escorre em filetes. A vida molha, inunda, fertiliza, multiplica. A vida é o mistério da reprodução sem fim.

(Célia Musilli – SP`, Todas as Mulheres em Mim, Atrito Arte, 2010)

                           

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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”








GAFES TELEVISIVAS


Isso endoida a gente.


Dependendo de como se pronuncie essa forma verbal, isso realmente endoida a gente. O verbo endoidar não tem forma com ói. Vamos ler, então:

Isso endoida a gente. (endôida)

Certas gafes endoidam qualquer um. (endôidam)

Vocês querem que eu endoide? Venham me oferecer um computador tira-teima...

Quem viu um jornal noturno da televisão percebeu o seu correspondente nos Estados Unidos anunciar assim o filme de Anthony Perkins:

Perkins é um tarado incorrigível. Basta aparecer uma loira, que ele endóida completamente.

E então? Isso não endoida a gente, caro leitor?  


 [ Luiz Antônio Sacconi, Gafite, nº. 1, abril 1987, Nossa Editora, p. 14]



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DA SÉRIE " [SÓ]RIR E/OU PENSAR












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DA SÉRIE  “REPASSANDO”





[Arte no Café de Michele Espíndola]



Atire a primeira  pedra quem nunca cometeu um pleonasmo!



Autor: "Anônimo Desconhecido" (Já é o primeiro pleonasmo)

Você já "pleonasmou" hoje?

Todos os portugueses (ou quase todos) sofrem de "pleonasmite", uma doença congênita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objetivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.
Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: "Subir para cima", "descer para baixo", "entrar para dentro" e "sair para fora".

Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.

Vai dizer-me que nunca "recordou o passado"? Ou que nunca está atento aos "pequenos detalhes"? E que nunca partiu uma laranja em "metades iguais"? Ou que nunca deu os "sentidos pêsames" à "viúva do falecido"?
Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha "opinião pessoal". Baseio-me em "factos reais" para lhe dar este "aviso prévio" de que esta "doença má" atinge a "todos sem exceção".

O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com "ofertas gratuitas". E agências de viagens que anunciam férias em "cidades do mundo". No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um "acabamento final" naquele projeto. Tudo para evitar "surpresas inesperadas" por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de "gritar alto""Cala a boca!"?

O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que "estreia pela primeira vez".

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de "certeza absoluta", a "principal protagonista" da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e "verá com os seus próprios olhos" a pleonasmite em direto no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta "arde em chamas". Um treinador de futebol queixar-se-á dos "elos de ligação" entre a defesa e o ataque. Um governante dirá que gere bem o "erário público". Um ministro anunciará o reforço das "relações bilaterais entre dois países". E um qualquer "político da nação" vai pedir um "consenso geral" para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma "multidão de pessoas"?

Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa "dores desconfortáveis" nem "hemorragias de sangue". E por isso podemos "viver a vida" com um "sorriso nos lábios". Porque um Angolano a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu "habitat natural".

Mas como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E "já agora" siga o meu conselho: não "adie para depois" e comece ainda hoje a "encarar de frente" a pleonasmite!

Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só "maluco da cabeça".

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DA SÉRIE “POEMAS VISUAIS”






[Poema visual de Pinheiro Neto/SC]





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[Poema visual de Fátima Queiroz/SP]






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O MELHOR LIVRO DE POEMAS QUE ESCREVI POUQUÍSSIMOS PODERÃO LER NESTA VIDA.
ELE ESTÁ IMPRESSO NO MEU CORAÇÃO! E TU, COM CERTEZA ESTÁS LÁ, EM TODOS
OS VERSOS QUE NÃO FORAM PUBLICADOS.

(Pinheiro Neto)


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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn



Na trama
Na trança
O verso
Branco
Ou livre
Trancafia
No peito
O algoz
Do teu
Coração.


(Pinheiro Neto, Poema 16, inédito, agosto 2013