domingo, 9 de novembro de 2014

Edição nº. 65









 PAPO NA CONFRARIA: KÁTIA REBELO


1- O que te motiva a escrever?

Escrevo para dar o meu depoimento sobre a vida. Dizer como eu vejo o mundo. Contar uma história que surgiu de uma ideia e tomou forma para se transformar em um livro.


2- Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

Rebecca, de Daphne Du Maurier.
Casa Velha, de Machado de Assis.
Os papéis de Aspern, de Henry James.


3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)         Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)

Trabalhei muitos anos como bibliotecária e acredito que a biblioteca escolar precisa ser uma extensão da sala de aula. Uma visita orientada à biblioteca fará com que os alunos conheçam, por exemplo, a literatura clássica de Monteiro Lobato: Reinações de Narizinho e a literatura moderna de Ana Maria Machado: Bisa Bia Bisa Bel. O que realmente importa é o contato do leitor/estudante com o acervo disponível na biblioteca.

b)         Alunos do Ensino Médio

No Ensino Médio o elo entre sala de aula e biblioteca precisa ser reforçado. Para instigar a imaginação, a leitura de narrativas de mistério, desperta a curiosidade dos leitores/alunos. Indico Crime na baía sul, de Glauco Rodrigues Correa, pois além de ser uma ficção policial, traz um final inesperado.

c)         Alunos do Ensino Superior

Aos alunos da graduação indico Machado de Assis. A leitura de Dom Casmurro, bem conduzida pelo professor, será um encontro prazeroso e desafiador com a volubilidade do narrador Machadiano.


4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?


Escrevo todos os dias. Mesmo que seja para revisar, acrescentar um parágrafo, uma sentença ou mesmo um vocábulo. É necessário manter o ritmo de produção.

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.


Deveria haver maior apoio às artes: prêmios literários, incentivo aos novos autores. O setor público concede apoio com editais, contemplando assuntos ligados ao folclore local, atestando o “Instinto de Nacionalidade” que Machado de Assis já abominava no século dezenove. O que realmente importa, é o “Sentimento íntimo”, pregava o autor. Afinal, um tema universal alcança um maior número de leitores.


6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

Nas Academias de Letras os escritores unem forças, seja na valorização da língua, com palestras e produções dos autores, como também na publicação e divulgação dos trabalhos dos acadêmicos.


Kátia Rebelo é natural de Florianópolis. Formou-se em Biblioteconomia na UFSC. É mestre e doutora em Literatura. Suas obras: A casa da praia, 1988; Homicídio em dó maior, 1966; Coincidência!, 1999; Em nome da arte, 2000; Olhos de vidro, 2001; Por falar em fantasma, 2005; O silêncio do olhar, 2011 e A realidade e a ficção, 2013 (todos pela editora Papa-livro).
É membro da Academia Desterrense de Letras, onde ocupa a cadeira número 2, e da Academia São José de Letras, cadeira número 30.  


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DA SÉRIE "POETAS MULHERES - 7" 



                                    [Franklin Cascaes, Bruxa]






CORAÇÃO CANSADO


Bate forte coração cansado,
sob o peso de tantas ilusões,
por belos sonhos embalados
ao som de velhas canções.

Bate pelas esperanças malogradas,
se amarguras que teimam em voltar.


Bate enfim para lembrar
de alguém o derradeiro afago
que, num passe de mago,
te fez um dia (segredo?)
fortemente pulsar!


[ Silvia Amélia, Poemas do meu caminho, Coleção ACL, 2,Florianópolis, 1993. “Homenagem ao Centenário de nascimento da Secretária Perpétua da Academia Catarinense de Letras”.] 
                                                             
 
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POR RAZÃO NENHUMA


desejo um riso
profundo
que não corra
o raso risco
ou uma rente
rasura
e se curve 
sem motivo
desalinhando o siso
do sol da boca


[Valéria Tarelho, Face 01-10-2014]




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[Arte de Michele Espíndola - Café Mineiro/2014]



MISTÉRIOS

Imagens fatigam
Rodeadas de batalhas
Velho é o tempo
Fora de casa
No quintal de quimeras
Vergel de primaveras
Limite temporal
Mora entre vírgulas escondidas
E interrogações solitárias
E eu, entro no mistério
De colher orvalhos
Ao amanhecer...

[Vany Campos, Relicário, Porto Alegre, Evangraf/Somar, 2014, p.21]


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TEIA

Ela tece sua teia
se enrola se enleia
os fios trameia
na teia.
Como gangorra
sobe
desce
pelos fios balança
se lança
quase cai.
Equilibra avança
o topo logo alcança
enlaça abraça
suas crias cria
passa a noite
chega o dia
ela continua sua lida
sua vida conquista
realiza
vence.

Ela é uma MULHER!

[Adélia Einsfeldt, POA/RS]


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[Arte de Michele Espíndola - Café Mineiro/2014]





FEITO A LUA

És feito a lua...
reluzente
misterioso
sombrio!
Ora aparece
ora nebuloso,
ora fugidio!

És feito a luz ...
tímido
prata
faceiro!
Ora some,
ora reflete,
ora inteiro!
Ah! Como eu gosto da lua cheia!
                        
                       [ Andréa Lúcia, RJ]


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MOMENTOS

Minutos não esquecidos,
Lembranças vividas,
Carinhos enternecidos
Em consequentes idas.

Não obstante o olhar,
Pasmo, fico a pensar,
Ideias fazem pairar
Suspiro a desabrochar.

No desencanto da vida
Espero o desenrolar,
Como tudo se faz passar
Vivo mementos, torno a pensar.

[Elba Khadija Gomes, RJ]


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SERENIDADE

O barulho da água a jorrar
Liberta o pensamento no ar

Voa livre, sem destino.
Busca o eu encontrar

As ideias a navegar
As imagens refletem sobre o mar
Assim como as ondas livres e calmas a quebrar

A paz invade contente
O coração da gente

É possível notar
O movimento ao respirar
A presença de Deus
Trazendo o conforto
O ambiente para orar!

[Flávia Assaife]


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[Arte de Michele Espíndola - Café Mineiro/2014]





NOS BRAÇOS DA POESIA

Num repente as palavras acordaram
Revelando todos os meus reversos
Em rimas, as letras sobejaram
Suscitando a cumplicidade dos versos.

Chegou, do silencio elegendo o fim
Desatando o que interditava a voz
Na aridez do papel promoveu jardim
Meu dia amanhecendo, vibrante, veloz.

Então, silente, por minhas ruas andei
A sussurrar segredos em cada passo
Do tempo e das emoções me apossei
Sosseguei nos veros, mau cansaço.

[Glória Salles, Flórida Paulista/SP]


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BORBOLETAS AZUIS

mulher em metamorfose
transcende csheiro primaveril

cálice de pétalas pequeninas
transborda suavidade
feitiço
das borboletas azuis

suave odor a sensualidade feminina

[Jania Souza, Natal/RN] 



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Poema de Valeska Cabral/ RJ






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DA SÉRIE CRÔNICAS



 Um pescador com alma de poeta

                       
       Havia um pescador que vivia numa belíssima aldeia, numa casa modesta, à beira mar. Tinha um filho lindo e uma esposa que reclamava de tudo: da vida que levava, da pobreza e até do próprio filho. Matias saia todos os dias cedo, levava consigo uma rede nas costas e uma marmita. Tinha uma expressão triste, e enquanto caminhava na areia branca da praia recitava alguns versos do escritor Victor Hugo “Da espalda de um rochedo, gota a gota / límpida fonte sobre o mar caia, / Mas, ao vê-la tombar em seu regaço/" O que queres de mim? "O mar dizia. / Eu sou da tempestade o antro escuro/ Onde termina o céu aí começo/ Eu que nos braços toda a terra espreito / De ti, tão pobre e vil, de ti careço?...”/ No tom saudoso do quebrar das águas/ Ao mar, serena, a fonte assim murmura:/"A ti, que és grande e forte, a pobre fonte/ Vem dar-te o que não tens, dar-te a /doçura!...”

Passava o dia todo no mar buscando a sobrevivência, e a poesia era a sua companheira. O velho professor da aldeia o alfabetizou, e Matias se tornou um apaixonado pelas letras. Muitas vezes, o pescador com alma de poeta trocou peixes por livros de poemas. O mestre sabia que Matias poderia se tornar um escritor, só que a pobreza o impediria, pois tinha que buscar o sustento da casa e deixar de estudar assim que terminasse a quarta série. E assim aconteceu, sendo que Matias não abandonou os livros.

     Os homens do mar carregam consigo sentimentos de pureza e amor pela vida. Os sorrisos e os olhares denotam a simplicidade do ser humano, das pessoas que levam uma vida simples à beira do mar. Matias conquistava as pessoas através do seu jeito manso de falar , e principalmente quando ilustrava o diálogo com poesias. Falam que os poetas são tristes e ele não era diferente, e seus olhos azuis pareciam estar sempre chorando. Todas manhãs os pescadores cumpriam a missão, de ir ao mar, e as embarcações enfileiradas sumiam nas ondas do mar. Na orla, filhos e esposas se despediam em silêncio, sempre com ares de preocupação, porque alguns pescadores foram e não retornaram. Se bem, que com o passar do tempo se conformavam. A paisagem do mar, os coqueiros, a areia branca intactas, algemava qualquer pessoa sensível!Os dias passavam e a dor da viúva e dos filhos se tornava menos dolorosa. Naquela praia não havia nenhum vestígio de impureza, havia somente ondas tombando ininterruptamente, puro espaço e lúcida unidade, onde o tempo apaixonadamente encontrara a própria liberdade.

     Numa manhã sem sol, Matias acordou pensativo. Chegou até o mar, não foi pescar e sentou-se sobre uma duna, olhos perdidos no horizonte, nostalgia e uma insatisfação. Não conseguiu trabalhar e voltou para a casa, e antes de pôr o pé na porta lá vem a mulher gritando “Matias, isto é hora de voltar para a casa, e os peixes? Cada dia mais pobre, homem fracassado! Estou casada com um sujeito que me trouxe para esta aldeia pobre e seu filho é igual a você, não vai ser nada na vida!” Matias deitou-se na rede com o menino, abraçados adormeceram... Maria fez a mala e partiu.

    Segundo a lenda, pai e filho nunca mais acordaram. Foram transformados em anjos, que protegem a aldeia até hoje. A morada desapareceu. Ali nasceu uma árvore verde, e bela, que ofusca os olhares de todos que por ali passam, uma magia! Movimentam-se no ar dois galhos enormes, em formato angelical, parecem dois anjos de mãos dadas. Segundo a lenda, é a árvore mais bonita da aldeia, única que é frutífera o ano inteiro, um fruto delicioso! Só que, por entre as folhas da majestosa árvore, por trás dos galhos escorrem as lágrimas...


[Maria de Fátima Pavei, 11/02/2010]







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LI E RECOMENDO (8)






A CERIMÔNIA DO ADEUS


Em 1924, aos 19 anos de idade, Jean Paul Sartre deixa a cidade portuária de La Rochelle, onde vivia com a mãe e o padrasto, retornando a Paris para se matricular na Escola Normal Superior, o centro de discussão cultural, filosófica e política da época. Nesse ambiente, conheceu Simone de Beauvoir, através do amigo comum Herbaud. A identificação entre os dois foi total. Logo no primeiro encontro, o futuro autor de O ser e o nada e Crítica da razão dialética  declarou: “A partir de agora eu tomo conta de você”. Desde então, até a morte de Sartre em abril de 1980, Simone foi sua companheira inseparável. Participaram juntos de todos os grandes acontecimentos decisivos de nosso tempo, da Resistência a Maio de 68. Nunca se casaram, viveram perto um do outro, mas não sob o mesmo teto, segundo um projeto de amor sem quaisquer obrigações – nem mesmo a da fidelidade. Em Balanço final, recordando essa época, Simone se interroga: “Como teria evoluído se não tivesse encontrado Sartre? Ter-me-ia libertado mais cedo ou mais tarde de meu individualismo, do idealismo e do espiritualismo que ainda me dominavam?” E conclui: “Não sei. O fato é que o encontrei e que esse foi o acontecimento capital de minha existência.”

Em A cerimônia do adeus Simone de Beauvoir relata os últimos dez anos da vida desse homem fascinante, num tom ao mesmo tempo distante e comovente. O livro é o “diário-de-bordo” dessa longa morte. Simone de Beauvoir fala das crises de hipertensão, da cegueira, da progressiva falta de memória, das bebedeiras de Sartre. É um documento atroz, doloroso, mas que, contra o que pode parecer, homenageia Sartre. Um depoimento nada lírico, muitas vezes contendo até frases de um desespero absoluto: “Sua morte nos separa. Sua morte não nos reunirá. É assim: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tento tempo.”

O livro é composto também por uma longa série de entrevistas realizadas por Simone com Sartre em épocas diversas. Ela, faz ainda alguns acertos de contas, não com Sartre, que ela admira inteiramente, mas com pessoas que, segundo ela, no final de sua vida, o desviaram de si mesmo, como Benny Levy, ou Victor, que se tornou célebre por ter recolhido a última grande entrevista do filósofo, publicada na revista Le Nouvel Observateur. “Victor”, diz Beauvoir, “não expressava diretamente nenhuma de suas opiniões. Fazia com que Sartre os endossasse, representando em nome de não se sabe que verdade o papel de produtor. Seu tom, a superioridade arrogante que tomava com Sartre revoltaram todos os amigos que tiveram conhecimento desse texto. Ficaram como eu, aterrados pelo conteúdo das afirmações extorquidas de Sartre... Victor era volúvel, estonteava Sartre com palavras, sem lhe deixar o tempo de que precisaria par organizar-se.” Esse absurdo é um dos últimos episódios tristes da vida do escritor.

Poucos intelectuais na história do pensamento ousaram tanto e deixaram uma obra tão eclética. Filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista, militante, Sartre foi sobretudo um homem generoso e livre. A busca incessante da verdade o levou a passar suas convicções por um implacável molinete dialético. Combateu todas as instituições, recusou o Nobel, se solidarizou sempre com as minorias. “O silêncio é reacionário”, disse em 1976.

O livro de Simone certamente seria lido com aprovação por Sartre, amante da coragem, da verdade e do rigor. Ficará para todos que se interessam por ele e sua ação na história como um testemunho essencial e patético.

Para Gilles Lapouge, “lê-se A cerimônia do adeus dividido entre o horror (pois seria lícito dizer tudo, não passar em silêncio nenhuma das horas dolorosas da agonia?), a admiração (pois não é heroísmo por parte da mulher dizer tudo?) e as lágrimas – pois, no dia em que morreu Jean-Paul Sartre e em que foi enterrado, toda a Paris se reuniu espontaneamente: 50 mil desconhecidos, jovens principalmente, seguiram silenciosamente o carro fúnebre no qual repousa agora esse homenzinho macilento, feio, que foi no coração de todo um meio século a mais lúcida, a mais generosa das testemunhas.”

[A cerimônia do adeus, seguido de Entrevistas com Jean-Paul Sartre, agosto-setembro 1974, Simone de Beauvoir; tradução de Rita Braga, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.]




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PASSEI UMA VEZ POR UMA CIDADE POPULOSA


Walt Whitman

Passei uma vez por uma cidade populosa buscando guardar  na mente,
        para uso futuro, seus acontecimentos, costumes, tradições e arquitetura.

 No entanto daquela cidade lembro hoje somente de uma mulher
       que encontrei por acaso e que me deteve ali dado seu amor por mim.

Dia após dia e noite após noite estivemos juntos — tudo mais
       foi esquecido há muito tempo.

Recordo apenas, repito, daquela mulher que apaixonadamente se ligou a mim.

E agora de novo caminhamos pelas ruas, nos amamos, e nos separamos.

De novo agora ela me segura pela mão, não devo partir.

Vejo-a bem próxima ao meu lado, com seus lábios silenciosos, tristes e trêmulos.

                                                                   

 (Tradução de Silveira de Souza, especialmente para esta Confraria, outubro/2014)                                                                              
                                             
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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”












GAFES JORNALÍSTICAS



dois anos atrás

Alguns gostam muito de chover no molhado. Outros, que isso não apreciam, ficam resfriados só de pensar...

Quem usa já está dizendo que foi atrás. Esse equivale a faz. O caro leitor já viu alguém usar “faz dois anos atrás”? Por que, então, construir “dois anos atrás”?

Deixemos o atrás para trás e usemos daqui para a frente só assim:

dois anos não havia o Plano Cruzado. E agora, há?
três anos não havia esse governo.
O presidente eleito morreu quase três anos.

Quem usa “dois anos atrás” - e se sente bem – está autorizado a usar também: entrei lá dentro, saí lá fora, subi lá em cima, desci lá embaixo, pomar de frutas, adega de bebidas, demente mental: tudo é farinha do mesmo saco.

Quem faz questão de usar atrás, então, que não use há:

Dois anos atrás não havia o Plano Cruzado.

O presidente eleito morreu quase três anos atrás.

Num dia de agosto (mês de mau agouro sobretudo para nós, brasileiros) se leu num de nossos jornais:

Na data de hoje, 24 anos atrás, Jânio Quadros renunciava à Presidência da República.

Eis aí um mau exemplo...

[ Luiz Antônio Sacconi, Gafite, nº. 1, abril 87, Nossa Editora, p. 17]



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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn


Não será a frase tola
a palavra fácil,
o olhar comum;

Não será a verdade,
a vontade, o desejo,
o tempo passageiro;

não será coisa alguma
ou tudo isso
que te fará feliz.

Apenas meus minutos,
meus pobres e poucos
minutos
te darão prazer.
 
(Pinheiro Neto, Minutos poucos, A rosa do verso, 1988, p.69)   





segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Edição nº. 64







PAPO NA CONFRARIA: Luiz Carlos Amorim



1-O que te motiva a escrever?
O que me motiva a escrever é compartilhar a minha visão do mundo, me localizar no meu tempo e no meu espaço. É escrevendo que procuro a minha identidade, que exteriorizo a aventura de viver. Escrever é um ato de sobrevivência.

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2- Cite 3 livros e respectivos autores mais significativos em sua a vida.
Alguns dos livros mais significativos para mim: “Germinal”, de Zola, “A quinta essência de Quintana” e “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. E não posso deixar de citar “Cruzeiros do Sul”, de Urda Alice Klueger, pois de alguma maneira me lembra o livro de García Márquez.

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3-  Indique um livro,  da literatura brasileira, para leitura de:
a)      Alunos do Ensino Fundamental – 5ª. a 8ª.: “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach
b)      Alunos do Ensino Médio: “Os Melhores Poemas de Mário Quintana”
c)       Alunos do ensino Superior: “Os melhores contos de Tchekov”

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4- Como se dá o processo criativo em tua prática cotidiana?
O processo de criação para mim é simples. Presto atenção em tudo, vou recolhendo pedaços do cotidiano e da relação com as pessoas e vou sempre anotando. Quando é possível, anoto no primeiro papel que estive à mão, pois se deixarmos para depois o assunto será abordado de maneira diferente, já não será a mesma coisa. E depois de escrito, reler, reler, reler.

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5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.
Não vejo muito apoio à leitura, por parte dos setores públicos. Não temos bibliotecas em todas as escolas, principalmente as públicas, não temos bibliotecas em todos os municípios, tanto aqui de nosso Estado como em outros pontos do país, não temos um espaço especificamente dedicado à leitura e literatura em nossos currículos escolares. Vejo mais iniciativas privadas para o incentivo à leitura. Pessoas anônimas que montam bibliotecas em lugares diversos, que angariam livros na sua comunidade para colocar a disposição de quem não tem dinheiro para compra-los, pessoas que trocam lixo por livros, e assim por diante. Um exemplo está bem aqui em Florianópolis: o projeto Floripa Letrado, da Prefeitura da capital, colocou estantes nos terminais de ônibus, mas está colocando lá, há algum tempo, quase que exclusivamente livros didáticos, alguns já defasados e de segunda mão. Não há verba para comprar livros novos, livros literários.


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6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à língua e à literatura.
As academias literárias deveriam ter um papel muito mais dinâmico no sentido de preservar a nossa língua e valorizar a nossa literatura. Elas precisam ir até os leitores e trazê-los, também, para dentro de suas casas, e estamos encaminhando para isso, felizmente. Os escritores precisam estreitar a aproximação com o leitor e não só os acadêmicos precisam fazer isso, mas todo aquele que escreve.

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Luiz Carlos Amorim é natural de Corupá (SC), nascido em 16.02.1953 e formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Joinville.  É fundador e  Presidente do Grupo Literário A ILHA em SC, com 34 anos de atividades e editor das Edições A ILHA, que publicam as revistas Suplemento Literário A ILHA e Mirandum (Confraria de Quintana), além de mais de 50 livros. 
Editor de conteúdo do portal PROSA, POESIA & CIA. – Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br - e autor de 29 livros de crônicas, contos, poemas e infanto-juvenil, três deles publicados no exterior, em inglês, espanhol, francês e italiano.


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DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 6



POR RAZÃO NENHUMA
 
desejo um riso
profundo
que não corra
o raso risco
ou uma rente
rasura
e se curve 
sem motivo
desalinhando o siso
do sol da boca

[Valéria Tarelho, Face, 01/10/2014]












SILÊNCIO DE NÓS

Pousa teu olhar devagar
e prende a palavra
deixe que apenas o querer
eternize o instante
eu guardarei na lembrança
esse momento perfeito
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Desfez-se todo o sortilégio
tornaram-se comuns
apenas uma  leveza vulgar
e permaneceram amantes
em lugar de velhos conhecidos
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Um banquete a dois
de risos, venenos e entregas
você diluindo os segredos 
eu semeando as vertigens 
produzindo ressonâncias 
naquela noite
-------------------
Fala-me dos teus pecados
esses me interessam
consinta a plenitude do amargo
deixa-te devorar pela ânsia voraz
das impermanências
discurso eloquente
não convence

[CRIS MP BRANCO, POA, 2014]



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LÁGRIMAS AMARGAS


Meu coração pulsa forte
Ao som de tua voz
Todo meu corpo estremece
Ao vê-lo passar
Mãos suadas e frias
Lembro-me, não sou mais tua
Arde em meu peito a dor
Retenho a emoção
Finjo estar bem, sorrio
Um sorriso dolorido
Que sufoca impiedosamente
Minhas lágrimas amargas
Lágrimas de tua ausência.


[ Carina  Morais,  31/10/2012, republicado no Face pela autora em 15/09/2014]









FURACÃO

Soprou tão forte
sobre as frágeis nuvens
que as desfez

enredou casas,muros,
cruzes, faces, pontes,
arou tudo sobre a terra

e depois escondeu-se
cansado, coberto de lama
e só a brisa o entendeu!


[ Ana Luiza Conceição ,  Poemas à flor da pele 8, Somar, pg. 21, Porto Alegre, 2014]





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DESCOBERTA

Não desisto dos meus sonhos,
a cada passo vejo o caminho,
ele às vezes é claro,
às vezes escuro, mas não desanimo.

O olhar busca a alegria,
e a beleza das cores,
um passo a cada dia,
num caminho, às vezes tortuoso,
às vezes repleto de flores.

Cabelos ao vento,
pele arrepiada pela brisa,
sensações novas a cada momento,
provocam sorrisos ou lágrimas,
é a vida que improvisa,
provocando encantamento.

Troco de roupa no outono,
para ressurgir feliz e colorida,
na primavera, onde espiono
os movimentos da fantasia tingida,
pelos pincéis nas mãos do dono.

Sou a força do meu ser,
sou a minha criadora e dona,
sei o que quero e o que fazer.
Sou um ser que se emociona
e se impulsiona, sabendo se ter.

[Celma  Capeche [RJ],  Poemas à flor da pele 8, Somar,2014, pg.31]





[Arte de Michele Espíndola - Café Mineiro/2014)




O HOMEM


Massa desfigurada
número de série infinita
de banco de memória
que o sacrifica
e o anula
coisificando-o
dentro desta conjuntura
onde o número é símbolo
do ser esquecido


[ Margarida Finkel, No tear dos ventos, Massao Ohno-Roswitha Kempf/Editores, São Paulo, 1980]





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ENVELHECENDO

Os cabelos grisalhando,
o rosto emurchecendo:
é o tempo que está voando
ou nós estamos passando?

As coisas que mais amávamos
já não trazem prazer:
recordações nos perseguem
o medo nos assedia,
a esperança vai fugindo
e o desengano vem chegando...

Tudo parece dizendo adeus:
O sol já não aquece tanto
e as estrelas já não brilham como antes!

[Silvia Amélia, Poemas do meu caminho, Coleção ACL 2, p. 55, Floripa, 1993]





[Arte de Michele Espíndola - Café Mineiro/2014)




VIDA  I

E quantas águas brotaram,
                              Rolaram.
Quantos olhares cruzaram-se,
                               Desviaram-se.
Só esperanças, sonhos, desejos.
Quantas montanhas a cruzar;
Quantas barreiras a enfrentar;
Quantos caminhos a percorrer
ao chegar a resposta da verdadeira
existência do ser humano.


[ Jaqueline Boabaid, Um cheiro de vida verde, Edições Bernúncia, p.4, Floripa,1985]




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TARDES DE SÁBADO

Um burburinho de vozes,
onde nenhuma palavra se entende...
borboletas com pés nas nuvens
e folhas de joaninha pelo chão.
Minha lucidez?
é tudo que não quero de volta:
vou ser feliz um pouco mais.


[Basilina Pereira , Tempo contrário, Verbis editora, p. 82, Brasília, 2011]










AVE NOTURNA


Que me perdoem as madrugadas
mas serei sempre
apaixonada pela beleza
do entardecer.
Quando a noite é quase
uma certeza,
quando as pessoas
acendem as luzes dos olhos
e o real fica mesclado
de fantasia,
sou como ave noturna:
canto para as estrelas,
canto porque sou triste
meu canto está derramado
pelas distantes lagoas
dos teus olhos.

[ Telma Lúcia Faria, Anjo solidão, Editora Secco, p. 72, Florianópolis, 2007]



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ESPERANDO A MORTE CHEGAR (crônica)

Quando alguém pergunta para você: como vai? Não dá tempo para se esboçar uma resposta e o sujeito já está falando sobre outra coisa que sequer tem nexo com a indagação inicial. Qual é a idéia? Simples. Este protocolo está ficando caricato, como uma série de gestos, comportamentos, manias, cacoetes que herdamos sem atinar para o seu significado ou por sua abrangência caso tentássemos ir mais fundo nesta superficialidade em que tudo se está transformando, ou melhor, a que nós mesmos estamos reduzindo e claro, por supuesto como dizem ali em Buenos Aires, nos reduzindo juntos.
O Raul Seixas tem uma música que fez sucesso em 1973, chamada “Ouro de Tolo” que é muito elucidativa. Na canção o protagonista tem a consciência de se contentar com o que possui num mundo em que ele não entende. Quer dizer, ter-se a noção de que se está doente é o primeiro passo para a cura. Só esta consciência não basta, diria o Sartre, é preciso agir.
Dia destes caí na armadilha. Deixo o carro no posto para lavar e vou ao bar tomar um café (também estou ficando mentiroso, alô Tim Maia!) enquanto espero. Quando entro dou de cara com um conhecido e pergunto logo: como vai? Logo depois (antes mesmo de terminar a frase) me arrependo, penso, se ele me disser “como está indo” quem está “ferrado” sou eu. Com um cigarro em uma das mãos e o copo na outra, para minha surpresa, o sujeito dá uma boa tragada, deixa o copo de cerveja no balcão e me estende a mão afirmando ”esperando a morte chegar”.
Não resisto e tasco logo:
--- Tá brincando!
Ele me olha sério e contrapõe.
--- Por que, você não está esperando a morte?
--- Estás é louco, digo. --- Entre a morte e outra coisa, prefiro outra coisa.
--- Vai dizer que você acha que não vai morrer?
Antes de responder ainda tiro um sarro.
--- Esta outra coisa pode ser a Vera Fischer, a musa... Tudo menos essa aí que você se referiu...
Rimos.
--- Mas que ela vai chegar, vai, insiste.
--- Tudo bem, digo. --- Mas não precisa ser agora e enquanto ela não chega, podemos fazer alguma coisa ainda.
De repente tudo ficou silencioso. O cara comendo o pastel parou o ato, o outro segurando o copo no ar, o cidadão na minha frente dá outra tragada, o proprietário está impaciente atrás do caixa, todos esperando que alguma coisa fosse feita, afinal tinha-se a impressão de que a morte estava ali rondando esperando o primeiro abrir a boca para levá-lo.
--- Como se diz lá na minha terra, começo, referindo-me a morte. --- Posso até ir, mas vou esperneando.
Eles riram.
--- Absolutamente contra a vontade, concluo, emendando. --- A vida é esta, pode ser um inferno, como diria o poetinha, mas ninguém me provou que exista outra, portando temos que vivê-la da melhor forma possível, de preferência, fazendo o que se gosta...
Depois disso o ambiente se descontraiu. No entanto, observando mais atentamente aquele meu conhecido, um habitué do local, destes que chegam sempre no mesmo horário, pedem a mesma coisa e sentam-se à mesma mesa, invariavelmente conversam sobre as mesmos assuntos, enfim, repetem o que os garçons chamam “o de sempre”, percebi aquele olhar perdido em um ponto indefinido na parede, como se estivesse esperando algo que não soubesse precisar bem o quê... Expectativa quebrada quando estaciona um carro em frente da porta do bar, ele toma o resto da cerveja num gole, se despede e sai. Alguém brinca, “é a rádio patroa chegando”... Vejo a mulher do sujeito dentro do veículo, tamborilando os dedos sobre o volante, denotando impaciência, o que parecia normal para todo o mundo, menos pra mim.
É! Penso - para muita gente a morte deve ser mesmo um consolo - e digo para o garçom: suspende o café e me traga outra coisa!
(Olsen Jr., Diário da Provyncia, 28/09/2014)


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LI E RECOMENDO (8)





O DESPERTAR DOS MÁGICOS  Introdução ao realismo fantástico


Escrito por Louis Pauwels e Jacques Bergier, 6ª. edição, Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1971, tradução de Gina de Freitas e capa de Marianne Peretti, 463 páginas continua como um dos meus livros de cabeceira, de consultas e de infindáveis retornos. Acredito que todos os escritores, prosadores e poetas, se ainda não o fizeram, deveriam lê-lo.

Será a sociedade secreta a futura forma de governo? Terão existido em tempos imemoriais civilizações técnicas? Haverá portas abertas para universos paralelos? Estaremos avançando para alguma forma de ultra-humano?

Aparentemente, estas são perguntas loucas. Mas, para Jacques Bergier e Louis Pauwels, que investigaram exaustivamente as linhas avançadas do conhecimento, é indispensável que estas questões sejam formuladas. Estas e muitas outras ainda mais estranhas. Nós interrogamos a realidade através dos nossos preconceitos, antigos ou modernos. Mas há outra forma de a interrogar e então ela se revela fantástica. Para nos dar um exemplo ao nosso alcance, os autores estudaram especialmente o nazismo. Apresentam-nos uma sociedade místico-política que acreditava na terra oca, na presença real do Superior Desconhecido, nos Gigantes da era secundária, sociedade que lançava expedições à conquista do Graal e julgava poder vencer por meio de sacrifícios rituais o frio da planície russa. E essa sociedade por pouco não conseguiu a vitória! Será lida com assombro esta descrição do socialismo mágico hitlerista, que altera as nações admitidas pela história oficial.

Todavia, isto é apenas um exemplo daquilo que pode desvendar o método de exploração que os autores chamam de realismo fantástico. A história dos descobrimentos, a história do pensamento desde o século XIX até os nossos dias, a história das civilizações adquirem proporções fabulosas. Na terceira parte de O Despertar dos Mágicos, sem dúvida a mais importante do livro, é a nossa concepção da psicologia humana que se encontra alterada. Tudo o que geralmente pensamos a respeito dos poderes da inteligência, dos estados de consciência, do equipamento do nosso cérebro, do gênio, da intuição, da memória ou do sonho, é varrido por um vento prodigioso, e achamo-nos numa floresta de hipóteses aterradoras e feéricas. Ora, não se trata de meditações gratuitas ou de efabulações poéticas. Trata-se de conhecimentos trazidos à luz por um método revolucionário e expresso com uma paixão clara.

 Eis por que esta obra singular, cuja documentação é enorme, se lê como um romance. Aliás, talvez seja um romance...

SOBRE OS AUTORES:

Louis Pauwels nasceu em Ghent, na Bélgica em 02 de agosto de 1920 e faleceu em 28 de janeiro de 1997 em Paris. Foi jornalista e escritor.

Jacques Bergier nasceu em Odessa em 8 de agosto de 1912 e faleceu em 23 de novembro de 1978 em Paris. Foi engenheiro químico, espião, membro da resistência francesa, jornalista e escritor.



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SONETO nº 15




William Shakespeare


Quando considero que tudo quanto cresce
Mantém-se um só instante em sua perfeição,
Que este cenário no mundo pouco mais oferece
Além da secreta influência dos astros em ação;

Quando percebo que os homens, como as plantas, evolvem
Animados e restritos debaixo de um mesmo céu,
Orgulhosos das seivas jovens, que mais tarde se recolhem
E escondem da memória os bravos dias, como um véu;

Então a imagem dessa instável permanência
Mostra você mais rica em juventude ante meus olhos,
Enquanto tempo e ruína combatem em turbulência

Para mudar a jovialidade do dia em noite de abrolhos.
E inteiramente em guerra contra o tempo pelo meu amor,
Tudo que ele de você retira, reponho com maior valor.

(Tradução de Silveira de Souza, especialmente para esta Confraria, setembro/2014)




                                                                            
                                             
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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”


“COMPUTADOR TIRA-TEIMA

Eis aí um computador maroto. Em nossa língua existe apenas “tira-teimas”, o mesmo que “tira-dúvidas” (ambas sempre com s final, a exemplo de pires, Tênis, lápis, ônibus, etc).

Veio, então, junho de 1986. E com junho veio a Copa do Mundo do México. E com a Copa veio uma emissora de televisão com uma novidade: um computador, a que deram o nome de “tira-teima”. Tratava-se de um computador que auxiliava os telespectadores a tirar dúvidas de certos lances capitais de cada jogo. Apesar de ser fortemente irrecomendável, dia destes voltaram a ressuscitar o tal computador, que teima em ser maroto.

Ora, senhores, inventar é bom mas com saúde...

Essa mesma emissora usou um locutor paulista durante as transmissões de todos os jogos da Copa do mundo. Foi outro pequeno desastre: a cada lance digno de ser revisto pelo telespectador, o homem ordenava a todos nós: “Reveja de novo o lance!”

Inventar é bom. Mas com saúde...

Em tempo – Um dicionário brasileiro, revisto e bastante ampliado, registra, para nosso espanto, o verbete “tira-teima”. Ora... Por que não registrar também, então, “tira-dúvida”? Ou pire, têni, lápi, ônibu?

Saúde, realmente, não é para todo dia – e muito menos para sempre...”

  

(Luiz Antônio Sacconi, Gafite, as gafes da atualidade, nº. 1, Nossa Editora, abril 87, P. 14)


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DA SÉRIE  “REPASSANDO”






CERVEJA NO CORPO

Você  vai ao bar e bebe uma cerveja. Bebe a segunda cerveja. A terceira e assim por diante. 

O seu estomago manda uma mensagem para seu cérebro dizendo "caracas véio... o cara tá bebendo muito liquido, tô cheião!!!"

Seu estômago e seu cérebro não distinguem que tipo de liquido está sendo ingerido, ele sabe apenas que "é líquido". Quando o cérebro recebe essa mensagem ele diz: "Caracas, o cara tá maluco!!!" E manda a seguinte mensagem para os Rins "Meu, filtra o máximo de sangue que tu puder, o cara aí tá maluco e tá bebendo muito líquido, vamo botar isso tudo pra fora" e o Rim começa a fazer até hora-extra e filtra muito sangue e enche rápido. Daí vem a primeira corrida ao banheiro. Se você notar, esse primeiro xixi é com a cor normal, meio amarelado, porque além de água, vêm as impurezas do sangue.

O Rim aliviou a vida do estômago, mas você continua bebendo e o estômago manda outra mensagem para o Cérebro "Cara, ele não pára, socorro!!!" e o Cérebro manda outra mensagem pro RIM "Véi, estica a baladeira, manda ver aí na filtragem!!!" O Rim filtra feito um louco, só que agora, o que ele expulsa não é o álcool, ele manda pra bexiga apenas ÁGUA (o líquido precioso do corpo). Por isso que as urinadas seguintes são transparentes, porque é água. E quanto mais você continua bebendo, mais o organismo joga água pra fora e o teor de álcool no organismo  aumenta e você fica mais "bunitim".

Chega uma hora que você tá com o teor alcoólico tão alto que teu Cérebro desliga você. Essa é a hora que você desmaia... dorme... capota... Ele faz isso porque pensa "Meu o cara tá a fim de se matar, tá bebendo veneno pro corpo, vou apagar esse doido pra ver se assim ele pára de beber e a gente tenta expulsar esse álcool do corpo dele"

Enquanto você está lá, apagado (sem dono), o Cérebro dá a seguinte ordem para o sangue "Bicho, apaguei o cara, agora a gente tem que tirar esse veneno do  corpo dele. O plano é o seguinte, como a gente está com o nível de água muito baixo, passa em todos os órgãos e tira a água deles e assim a gente consegue  jogar esse veneno fora". O Sangue é como se fosse o Boy do corpo. E como um  bom Boy, ele obedece as ordens direitinho,e por isso começa a retirar água de todos os órgãos. Como o Cérebro é constituído de 75% de água, ele é o que mais sofre com essa "ordem" e daí vêm as terríveis dores de cabeça da ressaca.

Então, sei que na hora a gente nem pensa nisso, mas quando for beber, beba de meia em meia hora um copo d’água, porque na medida que você urina, já repõe a água.

 (Texto retirado do "O bar do Zé)






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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn






Ah crianças
dos olhos azuis.
O que será
das crianças
sem cor nos olhos
das latas de lixo
da cama feita relento
da desesper(m)ança?

Ah crianças
da comida na mesa
do estudo, do clube,
da piscina, do computador.

O que será das crianças
tamanho grande, médio, pequeno
- ...enta milhões –
cúmplices no não-alimento
dia sim e outro?
 
(Pinheiro Neto, [Des]istoricizando 2, A rosa do verso, 1988, p.69)