quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Edição nº. 63




 PAPO NA CONFRARIA: Miro Morais


1-O que te motivou a escrever?

 Primeiro a necessidade de criar novos limites e logo o prazer e o desafio de dar ao imaginário
 a verdadeira dimensão da realidade, com a primeira publicação aos 14 anos. Esse prazer e esse desafio despertou uma profunda reflexão sobre o ser humano e suas contradições.
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2- Cite 3 livros e respectivos autores mais significativos em sua a vida.

Antes e acima de tudo a BIBLIA, quer como reflexão espiritual e como narrativa bem articulada, escrita por muitos autores em muito tempo diferente,  sobre violência, amor, traição, poder, submissão, fé e acontecimentos  de natureza insondável. Depois DOM QUIXOTE,  DE CERVANTES, o imaginário que submete o real às fantasias . E por último ÉDIPO REI de SÓFLOCES, a tragédia grega que além de mostrar a segunda das duas  únicas  verdades incontestáveis da vida, a de que depois da morte, ninguém é dono do seu destino, ainda ofereceu, de graça, para Freud a chave principal da sua psicanálise.
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3-  Indique um livro,  da literatura brasileira, para leitura de:

a) alunos do ensino fundamental;
b) alunos do ensino médio.;
c) alunos do ensino superior.

Coloque dez livros a disposição de cada nível de ensino diante dos alunos, com o professor dando coordenadas sobre enredo, técnica narrativa, ambientação e temporalidade e deixe que o aluno escolha o que quer ler. Creio ser melhor do que minhas indicações pessoais.
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4- Como se dá o processo criativo em tua prática cotidina?

Disciplina do  dia a dia de escritor eu não tenho. Primeiro porque gosto de me maravilhar com tudo que vivo e cada coisa, para ser bem vivida, tem que ser única a cada vez. Mas tenho disciplina: A COROA NO REINO DAS POSSIBILIDADES em exatos 45 dias e noites, o CÃNDIDO ASSASSINO em 38 noites e dias e o REINO DOS ESQUECIDOS EM 10 anos. O recém concluído, CAMINHOS SEM VOLTA, em 1 ano e 2 meses. Em todos os casos trabalho até a exaustão. Anoto dia e noite, aproveitando ou não. Busco a palavra exata, na melhor frase, dentro do parágrafo mais claro e melhor articulado. Quer maior desafio do que este?
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5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

 Fui dirigente do principal órgão público de cultura do Estado de Santa Catarina e tenho uma ideia clara do antes e do agora. Lá vai uma historinha: O  saudoso grande escritor e amigo Jair Hamms enviou um exemplar do seu último livro, antes de sua morte, para uma certa secretária de Educação do Estado de Santa Catarina, anexando uma carta pedindo mais atenção para a inclusão de livros de autores catarinenses no currículo da rede escolar. Depois da morte de ambos, da então Secretária e do escritor, um amigo meu, livreiro, recebeu em sua loja o livro com a carta lacrada. A iniciativa privada, me parece, abre as cartas recebidas.

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6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à língua e à literatura.

As academias não podem ser instituições amorfas. Devem assumir um papel de liderança na preservação da língua e estimulação da melhor literatura e da cultura como um todo. Sem isso, que finalidade tem?


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(Miro Morais é ocupante da Cadeira nº. 20 da Academia Catarinense de Letras. É
autor de dois sucessos de mídia e de venda no país e no exterior, A coroa no reino das possibilidades e Cândido assassino. Seu último romance, O reino dos esquecidos, lançado em maio deste ano pela editora Insular, também vem sendo muito bem recebido pela crítica. Prepara um novo romance para breve.)



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DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 5



                                            (Arte no café de Michele - Café Mineiro)




ESTA EDIÇÃO DE "POETAS MULHERES" É UMA HOMENAGEM AO 8º. ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL POEMAS À FLOR DA PELE. TODOS OS POEMAS TRANSCRITOS AQUI ESTÃO NA COLETÃNEA PUBLICADA PELA EDITORA SOMAR ESTE ANO DE 2014.





FEITO A LUA

És feito a lua...
reluzente
misterioso
sombrio!
Ora aparece,
ora nebuloso,
ora fugidio!

És feito a lua...
tímido
prata
faceiro!
Ora some,
ora reflete,
ora inteiro!

Ah! Como eu gosto da lua cheia!

(ANDRÉA LUCIA, Rio de Janeiro/RJ)


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ASSIM SERÁ

... e de vez em quando
ainda me darei
ao direito
de vir aqui
de te olhar
de pensar em nós...

... e em sonhos
cavalgar
num cavalo alado
levando comigo
a saudade
que aperta no coração...


(Claudete Silveira, Santa Cruz do Sul/RS)

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AVALANCHES

Rimas dissonantes
Veredas atravessavam-lhe o cérebro.
Perigos, trincheiras
Sangue quente.
O sibilar da serpente
Com sangue frio
Ouviu o mar
Soluçar um grito.

(Dora Dimolitsas, São Paulo/SP)


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VOAR

Pronto... agora é só atravessar
Aquela estrada de luz
Vá, sem medo do agora, desse mundo
Leve todas as sensações
Vividas, que te ensinaram a amar
Vá sem segredos
Com todos os sonhos
Com toda a vida
Esta dor vai passar
Basta atravessar
Ver o sol nascer
Agora ele vai brilhar
É só atravessar
Esta passagem nova
e... voar...

(DU CARMONA, São Paulo/SP)


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DESEJO

O mesmo olhar de desejo
Faz-me sentir nua
Sem nada dizer
Os dias seguem
Esse olhar me persegue
Tirando meu sono
Invadindo minha alma
Queimando meu corpo
Desejando o teu.

(MARIA HELENA MATTOS, Condor/RS)



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RETRATOS

Cruzando dias e horas
Cometa riscando o céu
O ano passou enfim...
Instantes de pleno Amor
E momentos perdidos...
Mas o que importa
Todo mal que sofri ou
Todo o bem que perdi
Nas lembranças do coração?
Sou grata sim! Pelos sorrisos
Memórias. Ternas imagens
Visões do futuro pela janela
Que permanece entreaberta
O que realmente  interessa
São os carinhos que ofertamos
Os sorrisos que proporcionamos
O Amor que se dá e recebe
Nessa vida tão breve...
Retratos numa estante
Versos inacabados
Escritos nas linhas do tempo!

REGINA MOON (São Paulo/SP)


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QUANDO EU PARTIR

Quando eu me for,
por favor,
não exclamem: coitada!
Antes, quero-me maquiada:
olhos e boca,
faces rosadas.
Nada de palidez:
que me vejam como eu gostava.
Quero o som da bossa nova
a embalar o sono eterno.
Nênias, dispenso.
Vou ao encontro de Nara Leão
E seu violão,
Johnny Alf e sua brisa,
Elis e seu jeito intimista.

No testamento, a lápide:
“Partiu prosa,
Poética no Céu”!

(ROSÂNGELA DE SOUZA GOLDONI, Niterói/RJ)



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TOCA-ME

Toca-me como se nunca tivesse tocado outra
Descobre meu corpo e minha alma...
Cansada e arisca...
Toca-me
Como se eu fosse a última
Descobre meus segredos e abraça minha alma inquieta...
Toca-me de maneira que eu nunca mais queria ser tocada
Descobre meu amor escondido por entre máscaras
Em um misto de choro e riso
Toca meu ser
Descobre minha alma
E abraça meu coração.

(SANDRA VIEIRA, São Bernardo do Campo/SP)



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OLHAR DE ALMA

Tenho a alma tão atrevida
Que teima em ficar assim
Nua, exposta, translúcida,
A olhar por mim...

Essa alma, tola feminina,
Esquece o tempo e a idade,
Brincando de ser a menina
Dos olhos que traz saudade!

Incolor, na retina se veste,
Cobrindo a nudez do mundo,
Driblando o espaço celeste...

Precisa, num piscar de leve,
Deixar a tona, ir mais fundo...
Lá, onde ainda não se atreve!

(TELMA MOREIRA, Rio de Janeiro/RJ)


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PROCURO PASSAGENS

Neves do tempo acordadas
Véus de noivas e de anjos
Tramados e bem tecidos
Por renúncias devolvidas.

Procuro passagens a esmo
Que sejam para mim ainda que só
Onde haja sempre um sorriso
Primaveras beijando a brisa.

Os fatos estão se unindo
Procurando a realidade
De teu ser para o universo
Seja um povoar-se de estrelas.

(VANI CAMPOS, Porto Alegre/RS)
 



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POEMAS À FLOR DA PELE: 8 ANINHOS



Não há como negar, a cada ano que passa a Poemas à flor da pele fica mais viçosa, mais ardente, mais adulta, mais guapa. Não há como negar!

Pois este ano, exatamente quando ela comemora seus oito anos muito bem vividos, quero comentar como ela vem se conduzindo e sendo conduzida, a partir das características psicológicas elencadas por estudiosos do comportamento humano, mormente no que diz respeito a essa faixa etária.

Primeiramente esta “nossa menina” demonstra neste momento de sua vida possuir uma grande necessidade de crescer, manifestando interesse ímpar pela sua autonomia interna, já que toda a organização associativa vem comprovando sua maturidade. Com isso, sua personalidade vem se tornando a cada dia mais expressiva.

A todo o momento sentimos sua consciência de si mesma enquanto entidade, reconhecendo algumas das questões que a diferem das outras e não tem prurido algum em expô-las. E isso a faz pensar e repensar sobre si mesma, sobre sua situação no contexto literário atual.

Por vezes, como qualquer menina de oito anos, costuma sentir-se como centro de qualquer cena e dramatiza-se. Esperneia, choraminga,  mas tem a consciência – e quer mesmo  - que as outras instituições “mais adultas” sejam parte do seu mundo, porém, deixando sempre claro que suas opiniões e exigências são determinantes no processo.

Tem procurado viver, no entanto, segundo as normas que disciplinam as atividades das demais entidades congêneres. Tem consciência de que precisa seguir tais normas até para poder afirmar-se como entidade madura nacional e internacionalmente.

Sente-se mais identificada com a família, isto é, sua diretoria, seus conselheiros, seus associados, pois têm consciência de que esta exerce sobre ela uma influência preponderante no que diz respeito ao futuro. Por isso mesmo é sensível aos desacordos e antagonismos que se apresentam entre os membros da família.

Por fim, ao completar seus oito aninhos de vida, esta “nossa menina” Poemas à flor da pele necessita que as relações recíprocas com as outras entidades se encontrem em equilíbrio, pois só assim poderá aprimorar suas características psicológicas e físicas, vivenciar intensamente todos os anos de sua vida e comemorar cada novo aniversário com saúde, força, fé, competência e com muita festa.

(Pinheiro Neto – Barra da Lagoa-SC, 21/03/2014)



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LI E RECOMENDO (7)



A realidade e a ficção, romance de Kátia Rebelo editado pela Papa-Livro em 2013, conta a história de Isadora, uma professora de Literatura que é convidada por Antero, o reitor, a lecionar pela primeira vez em uma universidade.

No universo do romance convivemos com a presença de três mulheres: Isadora, personagem principal, professora, escritora - autora do romance que é lido e estudado por seus alunos, bem como por vários outros integrantes do enredo; Isabela, personagem do livro escrito por Isadora. Por vezes os alunos costumam confundir-lhes a identidade e, por fim, Kátia Rebello, a autora do romance ora recomendado e que têm as duas personagens mulheres Isadora e Isabela. Ela, Kátia, mistura-se às duas personagens de forma inusitada ao transitar pelo universo ficcional daquelas, amparada pelo processo de elaboração da obra, que é seu, particular e (in) controlável. Nesse universo, Kátia exercita o que Isadora afirma categórica: “finjo ser outra pessoa enquanto escrevo”.

Isadora, Antero e Ismael foram amigos de juventude e mantém ao longo do romance uma espécie de triângulo amoroso: enquanto Isadora deseja Ismael, o primeiro homem de sua vida, Antero tem por ela uma fixação quase doentia. Aliás, mesmo nos períodos que ambos estiveram afastados - ela e Ismael - ela sempre o quis por perto.

Ao aceitar o convite do reitor e “amigo” Antero, Isadora acaba aceitando também a oferta dele para morar  na casa até então ocupada pela professora de Literatura falecida e a quem ela substituiu. Já no primeiro dia, Isadora recebe o telefonema de uma criança que a confunde com a tia morta. Esses telefonemas vão se repetir dali para a frente, deixando Isadora apreensiva.

Pelo fato de não morar na “casa dos professores”, onde residem as fofoqueiras Raquel e Ludmila, o professor Falcão  – espécie de garanhão, segundo o ideário circundante – bem como outros professores, Isadora vê-se invadida pelos comentários maldosos que a colocam ora como “a amante do reitor”, ora como a “amante do Dom Juan” da Faculdade. Acaba por refugia-se conscientemente na amizade de Falcão, que passa a assumir um papel de ouvinte, quase confidente, em troca de massagens para fazê-lo conseguir adormecer – especialidade de Isadora – já que sofre de uma “insônia aguda”. Com os “encontros”, apenas para massagens e confidências, sem que nada mais íntimo aconteça, o que vai criando um laço maior entre Isadora e Falcão, ela vai “substituindo” o sentimento até então nutrido por Ismael. Como é de se esperar (e até torcer) Isadora e Falcão, por fim, têm sua noite de amor: e tudo começa com a inversão de quem é o massagista e quem necessita da massagem. Falcão assume desta feita o papel de “massageador”, com o objetivo inverso, isto é, deixar Isadora acordada.

É interessante observar que o tratamento dado pela autora à “consumação” desse episódio: fica quase em suspense, sem minúcias ou mesmices desnecessárias, instigando e provocando o leitor. Novamente o que considero um corte cirúrgico: na cena seguinte o leitor se depara com  Isadora saindo do apartamento de Falcão, de chinelo e roupão, sem nenhuma alusão ao que possa ter ocorrido – e como – na noite anterior.
 

O contexto – o ambiente universitário – é muito bem estruturado pela autora, bibliotecária formada, com mestrado e doutorado, além de uma vasta experiência profissional, o que a faz  transitar segura e cirurgicamente por todos os vieses. Tal contexto permite que uma história que trabalha um tema comum supere-se o tempo todo e não se torne repetitivo, muito pelo contrário, prenda e contagie o leitor.



Conforme  Edwin Muir, em A estrutura do romance, editora Globo, 1975, “a correspondência entre a ação e os personagens é tão essencial que mal se pode encontrar termos para descrevê-la sem parecer exagerar; poder-se-ia dizer que uma mudança de situação sempre envolve uma mudança nos personagens, enquanto toda a mudança, dramática ou psicológica, externa ou interna, ou é causada ou é configurada por alguma coisa existente em ambos.”


Um ponto marcante do romance são os diálogos. Linguagem coloquial simples e cotidiana, sem rebuscamento ou “frufrus” qualificam a autora como alguém que o faz com segurança e maestria. Tal afirmativa denota suporte hodierno mas sem a pieguice da avalanche das  traduções “alienígenas” superficiais e embotadoras que proliferam em nossas livrarias.


Final aberto, como preconiza Umberto Eco, permitindo ao leitor viajar um pouquinho mais no universo da história por conta e risco próprios.

 VALE A PENA LER!!!



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NA BARRA DA LAGOA


O luar era uma bênção
naquela calma noite de verão.
Na Barra da Lagoa, pequenas ondas
espreguiçavam-se na areia morna da praia.
Uma e outra gaivota retardatária
deixava delineado o seu perfil
no prateado disco da lua cheia.

O coaxar das rãs
era uma orquestra natural
regida pela brisa suave!
Há uma eternidade a paisagem se repete,
e, se alguém se recusa a admirá-la,
o que se pode fazer?



(Edy Leopoldo Tremel, cadeira 01 Academia Catarinense de Letras, 2014 – especialmente para esta Confraria)



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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”


EU JAMAIS DIRIA UMA COISA DESSA


Quem diz uma coisa dessas está precisando saber que este, esse e aquele (e suas variações), contraídos com de, devem sempre estar no plural, em construções desse tipo. Portanto:

Eu jamais voltarei a dizer uma coisa dessas.
Quem é que vai pagar uma dívida destas?
Fizemos um esforço daqueles, e o Brasil continua em crise.
Um país destes não pode passar por constantes crises econômicas.

Abre-se, então, uma revista, a melhor revista nacional. Fica-se, então, sabendo, à pág. 30, que dias após o presidente advertir toda a Nação: “Nada de traição ao País sob o pretexto de criticar o governo” , uma repórter carioca faz esta pergunta a um ministro: “O senhor acha que crítica é traição?”. A resposta vem fulminante: “Só um idiota poderia dizer uma coisa dessa”.

Só um idiota poderia dizer uma coisa dessas.

Como os jornais, no dia seguinte, estamparam manchetes sobre o assunto, o ministro se apressa em ligar para o presidente e esclarecer tudo. A seu modo. O presidente, espírito sensato e apaziguador, aceita as explicações do ministro, terminando o diálogo com palavras de conforto: “Eu sabia que uma coisa dessa não partiria de você”.

Eu sabia que uma coisa dessas partiria de você...

(Luiz Antônio Sacconi, Gafite, as gafes da atualidade, nº. 1, Nossa Editora, abril 87)


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DA SÉRIE  “REPASSANDO”




ESTA CARTA DEVERIA SER LIDA POR TODOS OS CATARINENSES, ESCRITORES OU NÃO.
        

 Sr. Edgar Gonçalves Jr.
Editor-chefe do DC

No mês de julho o Diário Catarinense extinguia a coluna Contexto, (página 3 do Variedades), tradicional reduto de cronistas catarinenses. Morriam, na ocasião, para os leitores do DC: Amilcar Neves, Fernanda Lago, Ivo Müller e Victor da Rosa. Como também não sobreviveram Urda Klüger, Flávio José Cardoso, Dennis Radunz, Fábio Brüggemann e tantos outros.

Em seguida, o brilhante jornalista Marcos Espíndola, catarinense de Itajaí, era despedido da Contracapa do DC, em marcante crônica de adeus. Em 20 de agosto, a pretensiosa jornalista Carol Macário, alegando jogar mX%$# no ventilador para arejar mentes e trazer frescor à produção intelectual de Santa Catarina, recomendava a leitura da revista Merda Magazine. Finalmente, no último dia 24, Rafael Martini anunciava com alegria o retorno ao time de colunistas do DC de Luis Fernando Veríssimo,o gênio das palavras, em suas próprias palavras. Substituía o talento de Juarez Machado.

Se não for guerra declarada aos catarinenses, aparenta ser! Xenofobia de nossa parte? Alguém ousaria imaginar algo semelhante no Zero Hora de Porto Alegre?

Cuidado! Catarina, a Santa, costuma se vingar daqueles que usam seu Santo Nome em vão.

Atenciosamente,

João Carlos Mosimann
Escritor e historiador



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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn


Meu jogo não é do riso
do tabuleiro ou das cartas.
Meu jogo é da emoção
que rompe a imagem (in-ação)
ultrapassa fronteiras
                   vontades.

É imprevisto
choro, verdade.

Meu jogo é vento
soprando o corte
marcando o ventre
parindo a dor!

(Pinheiro Neto, Jogo 10, A rosa do verso, 1988, p.67)   





terça-feira, 5 de agosto de 2014

Edição nº. 62





 PAPO NA CONFRARIA: Maria de Fátima Pavei



1-O que te motivou a escrever?

Lembro-me do Colégio Cristo Rei em Içara e as Irmãs me abraçando e me conduzindo até a biblioteca. Durante alguns anos eu criei histórias infantis para presentear meus familiares e amigos. Tempo feliz! Minha inspiração nasceu destes meus desejos de escrever tão bonito quanto as professoras freiras. Dos 12 aos 20 anos eu lia e decorava alguns poemas de Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu. Fui professora durante 20 anos e meus alunos liam as obras, transformando-as num belo teatro. Algumas delas:  Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, Os Sertões de Euclides da Cunha, O Primo Basílio de Eça de Queirós.  Aos leitores digo, uma enorme motivação para a escrita são as obras de Pearl S. Buck, Ernest Hemingway, Enrique Vila-Matas e os escritores da Academia Catarinense de Letras.  Não é fácil ser forte e resistir o tempo. Todos os dias preciso escrever e  permanecer desafiadora e provocante até o fim.

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2-Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

"Os Miseráveis" de Victor Hugo," Uma Noite em Paris" de Ernest Hemingway e "A Borboleta de Prata" de Pearl Buck.

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3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)       Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
“Alice no País das Maravilhas” - Lewis Carroll.

b)       Alunos do Ensino Médio
“Memória de minhas Putas Tristes” -  Gabriel Garcia Márquez.

c)        Alunos do Ensino Superior
“Dom Quixote de La Mancha” - Miguel de Cervantes.
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4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Meus momentos de inspiração me conduzem independente de mim mesma. Procuro combater os inúteis, os rebeldes e os prisioneiros. A inspiração me domina completamente e amo a escrita com paixão.
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5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Penso que nós escritores estamos dormindo em nossas casas. Precisamos nos organizar e vencer. Ainda acredito! Somos todos iguais! Vamos criar nossos ritmos e contar histórias novas.
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6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à Língua e à Literatura

As Academias me fascinam e ninguém entrou lá sem amor pela literatura. Enquanto misturam todas as vozes transmitem os mesmos sonhos. Todas dominam versos e  lutam em favor da libertação. Gostaria que a Academia Catarinense de Letras proporcionasse recursos ao seu público. Assim disse Willa Cather “Nada está distante e nada está próximo, quando se deseja”. (The song of my Lark)


Maria de Fátima Silveira Pavei escreveu os livros:“Dois Olhares a Quatro Mãos Falam Daquilo que Ouvem” (coautor - Alexandre Moreira), cuja renda foi revertida a APAE. “Eco de Duas Vozes: Verso & Prosa – Guia da Nova Ortografia” (coautora - Elza de Mello Fernandes) e “Além dos Trilhos do Trem- 1961/2011- 50 Anos de Emancipação Política de Içara". Foi vencedora de dois concursos, de conto com o texto "Alucinada" e de crônica com o texto " A lagartixa e o gato”.  É graduada em Letras, pós-graduada em Linguística Aplicada a Língua Portuguesa, mestra em Ciências da Linguagem e pertence a AILA- Academia Içarense de Letras e Artes. Reside em Içara, Santa Catarina. Lecionou Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Produção Textual em escolas municipais, estaduais, no Colégio Cristo Rei de Içara e nas universidades: UNESC e UNISUL de Santa Catarina.Atualmente é cronista do Jornal Gazeta de Içara e escritora.



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                                            (Arte em café de Michele Espíndola/2014)




DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 4


RAIVA

          
A alma vazia
com falta de assunto.
Dói a solidão
quando nem a esperança
nos faz companhia
e o desalento compartilha
a tristeza em vão.

A loucura não responde
e nossos olhos não cumprem
seu destino de realidade.
Estamos entre
as quatro paredes do mundo,
mas se salvarmos o "eu" da prisão,
salvamos o mundo todo!

(Terezinka Pereira, EUA, emeio, 2014)


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PARA A HORA DO AMOR


Vem devagar, Jardim!
A boca desacostumada,
Ruborizada, bebe jasmim
Feito abelha embriagada,

Que a flor alcança tarde
Ao redor do quarto arde,
Néctar, néctar – roga.
Entra, e em bálsamo se afoga.


(EMILY DICKINSON, Um livro das horas, seleção, tradução e ilustração de Angela-Lago, Editora Scipione, 2007)


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ARRASTÃO

Teu toque, vara de condão,
Acende os meus sentidos
E eu vou num arrastão
Como se uma arpa vibrasse
Uma vela acendesse
E – pavio renitente –
Novamente brilhasse

Essa luz difusa
Oscilante e confusa
Desvairada faminta
E jamais extinta...

Porque tu és o mago
Em cujas mãos me embriago
E lampejante
Me acendo e me apago

(Leatrice Moellmann, Amor nos anos 90, Papa-Livro, 1999, pg. 101)

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BELA


Ela amuada,
não queria nada
nem sabia
Bela, vivendo
não é se partindo
acaba comendo
e não para de rir
acha que a vida é bela
como sempre a Bela que conheci
Então me diz:
o pior é engolir.


(VIVIANE ROUSSENQ, Baton, Shogum Arte, 1986, pg. 38)



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FRACTAL

matizes vermelhos
tecidos em flores
acesos de pecado

nas pétalas
nascem estrelas
invento de mil faces

tons violetas
pulsam nas veias
viram presas

fagulhas planam
nas gotas lilases

borbulham cálices
pingam teias
cheias de rubores

(SONINHA PORTO, doeu, Alcance, 2009, pg.43)



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ENCAIXES

Ando sem música
esvazio minha cabeça
e nela coloco um corpo

Acéfalo!

Busco
e deslizo entre mundos

e...
Se encontrarem um vagante cérebro,
feliz por cometer loucuras,
não me avisem!

Ele pode ser eu.

Carmen Silvia Presotto, Vidráguas, Porto Alegre, 2006.




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VINHO DO PORTO


Do camaleão afoito
parte o porto.
Vem ao cais
buscar sossego, afirmação.

Dançando na garganta
à borda do cálice,
eu respiro.
Tenho seu grito.


(Rita Raphael, Da sedução da intimidade do mundo, Ed. Cepec,1988, p. 15)



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LI E RECOMENDO (6)


O AZARADO TIBERINHO e outros contos


Escrever bem é um desafio. Escrever literatura é um desafio maior. Escrever literatura – prosa – tendo como objetivo o conto é desafio muito, muito maior.

A leitura dos originais do livro que me foi entregue por Antonio Manoel da Silva para apresentação, num primeiro contato, remete para dois momentos distintos.

Toda a primeira parte dedicada às peripércias do “azarado Tiberinho” prefiro considerar como uma “noveleta”, embora o autor tenha decidido caracterizar cada uma de suas partes ou capítulos, como contos.

Nela encontramos a história da personagem principal, Tiberinho, desde seu primeiro contato com o mundo do azar – ainda bebê, foi abandonado à porta da residência do casal que o acolheu – até o momento em que o estigma que o acompanha deixa o contexto rural e embrenha-se pelo mundo das coisas relativas à política social do país, caracterizado pelo trabalho que consegue junto ao IBGE.

São, portanto, onze histórias com a mesma personagem principal e sua trajetória cujos elementos da narrativa, trazem como amarração a sina que o acompanha, a falta de sorte.: Os pais adotivos, O cinto de segurança, O bife a cavalo, O motel, O caixa eletrônico, A prisão, O raio, A antena parabólica, A despedida de solteiro, O vale-gás e O contador de gente.

A segunda parte do livro .reúne seis contos, cada um com características, cenários e personagens próprios. São eles: A vida privada; A amnésia de Oscar; Natal temporal; A tara de Tereza,  Arroz, feijão e leite e O cordão da galinha assada.

Vou valer-me aqui das palavras de Lauro Junkes, ex-presidente da Academia Catarinense de Letras, “a narrativa se consolida quando um ato verbal apresenta um conjunto de ações, movimentos, ou mudanças nas personagens, o que faz com que, a partir duma situação inicial, se processem várias transformações (fatos, episódios, vivências, estados psicológicos, etc.), para chegar-se a uma situação final, que pode ou não oferecer uma solução conclusiva, ações que se desenrolam em determinados lugares e tempos, tudo organizado e apresentado por um narrador, que adota um determinado ponto de vista.”

Podemos vislumbrar neste livro, em cada um dos textos, a presença dos elementos básicos que compõem o corpo de uma narrativa: a) um conjunto de signos, no caso da narrativa literária, as palavras; b) fatos, acontecimentos, personagens que remetem a um mundo, um universo, uma sociedade; c) o escritor/narrador, além da preocupação de querer fazer chegar a narrativa a alguém, a um receptor, a um ouvinte, a um “narratário”.

O escritor/narrador utiliza-se da linguagem culta e do falar “manezês” na construção de cada texto. O registro da fala das personagens procura reproduzir fielmente esse falar, indo às vezes ao extremo no que toca ao registro fonêmico.


Por outro lado, a presença de ingredientes específicos descortina a não uniformidade da língua em cada história construída a partir de relações sociais demarcadas por fatores regionais, culturais, sociais e é claro contextuais, bem definidos. As personagens compartilham do cotidiano lingüístico utilizado por muitas comunidades do interior do Brasil, mormente no que diz respeito ao linguajar “caipira”, caracterizado tão somente pela falta de escolaridade e/ou de oportunidades.


Para justificar o exposto nos dois parágrafos acima,  utilizo-me  do que  o próprio autor coloca no prefácio: que  “foram selecionados 16 dentre os vários contos que já escreveu”;  que “as histórias são relatos de fatos do cotidiano”; que “tais fatos são mesclados com pequenas doses  de humor” e que “qualquer semelhança verificada nos textos e nas personagens com a vida real, seguramente, será mera coincidência”.

Parece-me um caminho muito interessante o escolhido pelo autor destes textos, Antonio Manoel da Silva. Ao lançar-se no mundo da prosa, mais especificamente do conto, optou pela abordagem que privilegia o viés da Sociolinguística utilizando-se de um dos fatores que exercem suas influências para comprovar a grande diversidade de termos típicos da região onde nasceu – o fator regional. VALE A PENA LER!


(Pinheiro Neto, apresentação, 2012)




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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”


“Entre eu e o presidente

Nossa língua não é difícil; os incautos é que a complicam. O caso que vamos ver agora é um exemplo típico desse fato.
Manda a língua portuguesa que usemos pronome oblíquo tônico (mim, ti, si, etc.) depois de preposição:

Ela não pode viver sem mim (e não: sem eu).
Eles quiseram saber tudo de ti (e não: de tu).
Ela só fala de si (e não: dela)

Uma das nossas principais preposições é esta: entre. Sendo assim, depois dela cabe o emprego do pronome oblíquo:

Ela não pode viver entre mim e ti (e não: entre eu e tu).
Eles quiseram saber tudo o que houve entre mim e você (e não: entre eu e você).
Ela só fala da amizade entre mim e o presidente ( e não: entre eu e o presidente).

Eis que um ministro está firmemente disposto a renunciar. O presidente não aceita o seu pedido de renúncia. Em não aceitando, ele fica... Aos repórteres, em seguida, vem a declaração (formidável):
Entre eu e o presidente sempre houve muita amizade. Eu pedi demissão do cargo porque quero ser uma solução, e não um problema.

Ministro, meu caro ministro!”

( Luiz Antonio Sacconi, Gafite, as gafes da atualidade, n. 1, Nossa Editora, abril/87)



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se você gostar de meus poemas...



se você gostar de meus poemas deixe-os
caminhar à tardinha, um pouco atrás de você

então as pessoas dirão
"vi nessa rua passar uma princesa
em seu caminho de encontro ao amado
(na direção do crepúsculo)
seguida por seus criados altos e ineptos."

           (E.E. Cummings, tradução de Silveira de Sousa, 2014, enviado especialmente para este blog)



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BELÔ POÉTICO DEIXA SAUDADES E LIÇÕES


 O Belô Poético deixa saudades e lições de que é possível empreender cultura e literatura com cooperação, mais calor humano que capital, mais positividades que poderes, no âmbito dos indivíduos e sociedade civil.

Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão, escreveu:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis

Durante um decênio, o Belô Poético contou com esses três tipos: houve aqueles que ajudaram num episódio e foram bons, houve aqueles que integraram comissão organizadora ao longo do ano, e esses foram melhores. Houve ainda aqueles que desde 2005, quando do 1º Belô, ajudam na organização, e esses foram muito bons. E há pessoas como Rogério Salgado e Virgilene Araújo, que lutam a vida inteira, esses são imprescindíveis. 

Muitos de nós, somos “carona”, usufruindo do esforço alheio, mas me consola saber que engajamento não se obriga e que todos somos seres em evolução moral. Em breve relato, o poeta Rogério Salgado nos contou sobre caso exemplar, que explicita bem a responsabilidade de cada um. Certa vez, foi organizado um sarau com o objetivo de arrecadar donativos, apareceu um ou dois poetas; mas quando se organizava um sarau convencional, com pompa e aplausos, abundavam.

O Belô passa uma lição que serve para todos os grupos literários, qual seja, de que por mais que haja uma injustificada competição, neste precário campo das letras, ela nunca será melhor que a cooperação, o congraçamento literário, afetivo, humano, que é besteira brigar por migalhas, que estamos no mesmo barco, e que é melhor matar saudades que favorecer disputas e desgastes, sem também forçar amizade.

Outra lição é que, de fato, há ciclos na vida, assim como há ciclos naturais, de forma que um fim nunca é um fim em si mesmo, mas o começo de algo novo. É isso o que quis transmitir o palestrante Paulo Pina, na abertura do 10º Belô Poético, em oratória impecável de linha humanista-cristã, que muito me agradou. Ao longo da vida, trocamos de pele, renovar é um movimento irresistível, a fim de manter a saúde.

O Belô serve de exemplo de que é possível empreender efemérides, publicações, solidariedade, através do cooperativismo artístico, onde todos saem sentindo-se engrandecidos e realizados. Dado o exemplo, agora, cada um de nós pode caminhar com as próprias pernas, sendo a autonomia do indivíduo outra lição do Belô. Ensinar a pescar e engravidar possibilidades, como diz o poeta Diovani Mendonça, homenageado na abertura do evento, assim como Severino Iabá, multiativista.  
Como se não bastasse, outra lição do Belô é da importância do intercâmbio cultural com movimentos, grupos e pessoas de outras cidades, fora do nosso espectro geográfico-mental. É uma forma de desengessar o olhar, arejar a cabeça, conhecer novas culturas, experiências, possibilidades, sendo o último dia de todos os dez episódios do evento, dedicado a um passeio fora de Belo Horizonte, com saber e sabor.

O aspecto humano também é importante ser ressaltado: o Belô Poético, geralmente chamado de “evento”, sempre foi mais do que isso, isto é, ele nunca foi efêmero propriamente, mas sempre uma continuidade de uma irmandade poética, um constante reencontro de poetas esperado todos os anos, algo que durava dentro de cada um. Também não era mais um evento fast-food (acabou, passou), estandardizado, espetacular, mas poroso às contingências e sensibilidades, mais humano. Os participantes, ao final, senão transformados, saíam sensibilizados, solidarizados, irmanados. Já os organizadores, cansados, mas cansaço bom, de quem travou o bom combate, que merece nosso apreço e compreensão.

A melhor forma de ser fiéis ao espírito emanado do Belô Poético, talvez seja aprendermos a caminhar com as próprias pernas como indivíduos e sociedade civil; cooperados, que isolados nada realizamos; arrefecer egotismos e cultivar virtudes; sair do comodismo atrofiador, obrar o bem. Tempo foge, vida passa, ‘vai a idade’, o Belô nos deixa sim saudades, mas também exemplo aos nossos empreendimentos e desdobramentos presentes e futuros.

 (Vinícius Fernandes Cardoso, Poeta, 28/07/2014, por emeio)




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DA SÉRIE  “REPASSANDO”


 DEVERIA SER LIDA EM TODAS AS SALAS DE AULA.

        

 Um aluno que teve seu celular tomado pelo professor não será indenizado.
 O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, no interior do Sergipe, julgou improcedente um pedido de indenização que um aluno pleiteava contra o professor que tomou seu celular em sala de aula. De acordo com os autos, o educador tomou o celular do aluno, pois este estava ouvindo música com os fones de ouvido durante a aula. Segundo o site Migalhas, o estudante foi representado por sua mãe, que pleiteou reparação por danos morais diante do "sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional".

Na negativa, o juiz afirmou que "o professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe". O magistrado se solidarizou com o professor e disse que"ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma".

 Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno descumpriu uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de celular durante o horário de aula, além de desobedecer, reiteradamente, o comando do professor. Ainda se considerou que não houve abalo moral, já que o estudante não utiliza o celular para trabalhar, estudar ou qualquer outra atividade. "Julgar procedente esta demanda é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os 'realitys shows', a ostentação, o 'bullying' intelectivo, o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira", declarou.

Por fim, o juiz ainda faz uma homenagem ao professor. "No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro herói nacional, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu 'múnus' com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor".

(Site Migalhas, 2014)



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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn





Não sonhes,
não sou herói
não abato moinhos
não conquisto cidades
não venço batalhas;
sou fraco
com [de]feitos.

Não te iludas,
vou pecar mais
a cada novo tempo;
vou ser covarde sempre,
vou negar Deus e tu
mais de três vezes.

Não sonhes,
procuro a segurança
nos ventos,
o amor na descrença,
a certeza no vazio.

Não te iludas,
sou apenas eu:
vícios, medos, perguntas.


(In [ser] teza, Pinheiro Neto, A rosa do verso, 1988, p. 20)