quinta-feira, 30 de maio de 2013

Edição 47

  


PAPO NA CONFRARIA: Celestino Sachet(*)


1 – O que te motivou a escrever?
Não sei! A vontade de escrever veio vindo, veio vindo, e se instalou em mim sem dar a mínima explicação desde os primeiros anos da escolaridade formal.

2- Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?
Dos três livros mais significativos em minha formação cultural, o primeiro, não li: prestei atenção, com muito interesse, na leitura que a professora Lucinda Machado Vieira, lá na terceira série do ensino primário, 1938, lia uma vez por semana para toda a turma. E como ficávamos grudados nas palavras do texto. Era uma adaptação do Pinóquio, a história daquele boneco de madeira que, quando mentia, crescia-lhe o nariz que já estava desse tamanho. O livro foi escrito pelo italiano Carlo Lorenzini Collodi, 1826-1890. A história, em mãos da professora, levava o título Zé Pinho, publicado na revista O Eco, dos padres jesuítas de Porto Alegre. O segundo, que descobri no Colégio Catarinense, entre 1945-1948, quando estava frequentando o curso ginasial, foi Vidas Secas, de Graciliano Ramos, 1892-1931. O terceiro, já na Faculdade Catarinense de Filosofia, Ciências e Letras, 1955-1958, levava o título Grande sertão: veredas, de Guimarães Roas, 1908-1967.

3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de: a) Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries), b) Alunos do Ensino Médio, c) Alunos do Ensino Superior:

Para leitura dos alunos de ensino fundamental – se é que nós madurões ainda conseguimos convencer crianças em processo de alfabetização e de  primeiras letras – eu indicaria O menino maluquinho, do Ziraldo.
Para os níveis posteriores, vão os mesmos livros que me compraram a simpatia no Colégio Catarinense e na Faculdade de Filosofia. Para repetir: Vidas secas e Grande sertão: veredas.


4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Como se dá o processo da escrita em minha vida cotidiana, é outro mistério. De repente me dá ganas de escrever, sempre à mão, porque, para mim, a palavra é como se fosse barro ao qual devo dar forma de objeto estético. Escrevo e risco, risco, até que a palavra, me olhando, diga:
            - Pára de te intrometer na minha vida. Já está bem assim! E não tenta mais porque estou cansada com tantas mudanças dentro do meu corpo e do meu espírito.

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Sobre o apoio dispensado pelo setor público e pelo setor privado à literatura não me parece que ele seja tão necessário. Acho que os dois não devem meter-se na criatividade do escritor. O melhor que eles fazem é ficarem fora do processo. Ou, então, que se metam a estimular leitores ... e compradores de obra publicada!

6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

             Das Academias de Letras, escritores e leitores precisam receber, de maneira prática, pistas sobre os melhores caminhos para escrever bem e de ler com mais proveito pessoal até o ponto em que o leitor consiga atravessar o livro com criatividade e com prazer.
           
(*) Ocupante da Cadeira 15 da Academia Catarinense de Letras.

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VIAGENS 

Já nem consigo lembrar
quantas vezes te busquei
com nomes e fomes
criados ao acaso,
de meus cansaços ocasionais
restam marcas na parede
escondidas discretamente
por cartazes de eventos e ideologias

e mal consigo reter-te
para o sono ligeiro
da lassidão do corpo
e a exaustão do braço

(Alfredo Roberto Bessow, Edições Sanfona, Floripa, 1985)

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POR UM NOVO MUNDO (*)

Quando o jornalista Ademir Arnon, presidente da Associação Catarinense de Imprensa, convidou-me para apresentar este livro  em nome daquela entidade, confesso que fiquei  um tanto apreensivo. Afinal, é uma responsabilidade muito grande apresentar um livro destinado a crianças. Acredito que o cuidado deve ser bem maior do que o necessário para a apresentação de um livro que tenha como alvo o público adulto. A criança é um ouvinte/leitor extremamente exigente, nada lhe passa despercebido. Seu senso de observação é muito aguçado e perspicaz. Nessa idade – entre dois e seis anos – a criança está moldando seu caráter, sua personalidade. Alie-se a isso o fato de que todo o livro infantil precisa considerar a criança – alfabetizada ou não – como um ser inteligente.
Pedi um tempo para examinar o material e fui para casa. Estava deveras curioso. Li uma, duas, três vezes. Comecei a gostar da história, da linguagem e da utilização da língua padrão culta, da mensagem, da objetividade do texto. Senti que precisava de elementos mais concretos, mais palpáveis  e que me dessem segurança. Foi aí que  resolvi fazer uma pequena experiência para verificar qual poderia ser a reação do público alvo, isto é,  crianças e professores. Entreguei o livro a uma professora de Séries Iniciais e pedi que o lesse para algumas crianças não alfabetizadas e fiquei observando. Como ela não havia feito nenhuma análise preliminar do livro, agrupou as crianças e iniciou a leitura. A cada frase lida a professora mostrava os desenhos correspondentes e as crianças formulavam muitas perguntas: sobre as características físicas ( as anteninhas, as orelhinhas, os olhinhos) e psicológicas  (os bons, os maus, os alegres, os tristes) das personagens; sobre as diversas cores utilizadas; sobre  palavras e expressões não entendidas; sobre as semelhanças e diferenças dos personagens.  Ao final a professora trabalhou diversas questões a partir das perguntas das crianças e das mensagens que a história tenta passar, tais como: as diferenças, exclusão e inclusão, preconceitos, cores, espaço e tempo, planetas diferentes do nosso e seus possíveis habitantes, fábulas, folclore e outros. As crianças, sempre envolvidas, sorriam, brincavam, interagiam durante todo o processo.
Teste feito, livro aceito, ou melhor, apto para ser recomendado. Agradeci a professora e as crianças e considerei minha tarefa concluída.  Afinal, minha contribuição ultrapassou o simples compromisso de uma apresentação formal  e ainda permitirá aos autores – Augusto de Abreu, do texto e Rael Dionísio, das imagens – algo que não é muito comum no mundo da editoração, isto é, ver seu livro testado antes de ser publicado. Está certo que não se tratou aqui de uma experiência científica mas empática, de aceitação e, por isto mesmo, não menos válida.
                             

(*) Apresentação que fiz para o livro Novo Mundo, de Augusto de Abreu, membro da Academia Desterrense de Letras, editado pela Associação dos Cronistas, Poetas e Contistas Catarinenses. O lançamento do livro está agendado para o dia 7 de agosto, às 19:30 na Livraria Catarinense do Beira Mar Shoping.

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LI E RECOMENDO (1)

Realidade: história da revista que virou lenda, escrito por  Mylton Severiano, com apresentação de Paulo Henrique Amorim foi editado pela Insular este ano. Apresenta a trajetória de um grupo de jornalistas “sem diploma” que, de 1964 a 1969 colocaram nas bancas 33 números da revista (Realidade) que revolucionou a maneira de “fazer revista” no Brasil. Seu autor utiliza uma linguagem simples e ao mesmo tempo elaborada e contagiante que faz com que o leitor não queira desgrudar do livro um só minuto. Quiçá a fórmula trazida da época da revista.

Segundo Paco Maluco (Paulo Henrique Amorim), um dos metais da grande banda Loucos de 64, “Realidade captou aquela ânsia de entender o mundo desorganizado dos anos 60, os costumes, os novos personagens, a miséria que São Paulo desconhecia: uma realidade que soltava um cheiro parecido com o dos mictórios dos bares que nós frequentávamos. Tudo misturado à intervenção militar.”

Mylton Severiano, paulista de Marília, onde concluiu o ensino médio e um curso de música de seis anos, hoje mora em Florianópolis. Passou por inúmeras redações de jornais, revistas e telejornais, antes de se tornar free-lancer e dedicar-se a criar peças para campanhas eleitorais e a escrever livros. Publicou, entre outros, Se liga! O livro das drogas (Record), a biografia Paixão de João Antônio (Casa Amarela) e Nascidos para perder – história do Estadão (Insular).

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REGISTRO

LANÇAMENTO

O romance de Miro Morais, O reino dos esquecidos, editado pela Insular, será lançado no dia 7 de junho próximo, a partir das 19:30 na Lindacap, em Florianópolis.

VAIA

Recebi o número 33 de do jornal Vaia, de Porto Alegre que tem como Editor Fernando Ramos e Diagramação de Marcos Marques. Destaque para a programação da 6ª. Festa Literária de Porto Alegre – FestiPoa, para a entrevista com Cristóvão Tezza e para o Concurso Literário Contista Estreante. www.jornalvaia.com.br – jornalvaia@gmail.com

O NHEÇUANO

O número 14 do jornal de Roque Gonzales, referente a abril e maio deste ano e editado por Marcos Marques chega às minhas mãos juntamente com Vaia. Um jornal cultural que dá conta das questões do povo Guarani, de livros, de literatura, de poemas e de notícias. Um jornal que sempre mantém aberto um canal para a divulgação de escritores catarinenses, principalmente através dos escritores Inês e Nelson Hoffmann (o primeiro, um amigo que guardo do lado esquerdo do peito).  (...) Nheçu, líder indígena Guarani, defensor de seu povo, sua cultura e sua terra, pioneiro na resistência aos conquistadores, no século XVII, na atual região das Missões, RS(...)

O TRINTA RÉIS

Recebi e agradeço o Boletim Informativo nº. 68, referente aos meses de abril e maio, da Academia São José de Letras, entidade presidida pelo escritor Artêmio Zanon.

POEMAS À FLOR DA PELE

A dinâmica escritora Soninha Porto (de Porto Alegre), presidente da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele prepara uma festa ímpar para a comemoração dos 7 anos de existência do movimento. A programação contará com edição de nova coletânea reunindo escritores do Brasil e do exterior, passando pela estruturação da entidade, por lançamentos na Feira do Livro de Porto Alegre, em São Paulo e em outras cidades e culminando com um evento lítero-artístico-cultural na capital gaúcha.


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CONFRARIA DO POEMA-pn

A palavra chega rápido.
Não a domino.

Fogem as imagens
              as figuras
              as idéias.

Animal xucro
fêmea insaciável.

Ah... palavra!
(prostituída)?
Sem substituta –
A cada dia mais potra!

(Palavra, Pinheiro Neto, A rosa do verso,1988)






terça-feira, 23 de abril de 2013

Edição nº. 46





PAPO NA CONFRARIA: JALI MEIRINHO (*)
       
1- O que te motivou a escrever?
    
 Na casa do meu avô, Emilio. Os livros andavam por lá.  Livros, jornais, revistas ilustradas, almanaques e, também, o rádio; lembro-me bem do Tico-Tico, o gibi nacional. Antes de frequentar o primário, eu já soletrava e desenhava letras. Depois, no ginásio, veio a ideia de um jornal manuscrito e, daí para Jornalismo e a História foi como água corrente no Itajaí-Açu.


2 - Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

- A trilogia O Tempo e o Vento (O Continente -O Retrato – O Arquipélago)de Erico Veríssimo.
- Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre.
- Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão, de Paul Veyne.


3 - Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a) Para alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries):  Qualquer  título da obra infanto-juvenil de Maria  de Lourdes  Ramos Krieger.

b) Para alunos do ensino Médio:  A Realidade Catarinense do Século XX - Coletânea do IHGSC, organizada por Carlos Humberto Corrêa.

c) Para alunos do Ensino Superior: Bichos Procuram Buracos em Paredes Brancas, de C. Ronald.



4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Na ficção, o escritor visualiza o branco da tela e cinzela o que flui da imaginação. Escrever História requer pesquisa, busca de dados, confronto de valores; abstrai-se o processo criativo. Após reunir o grosso das informações,o historiador tem que desemburrá-las, fazer escolhas sobre o que interessa ao leitor que busca conhecimento histórico.  É um dever, abstrair  o fictício da narrativa histórica. Tarefa difícil, porque depois que o mito contamina a verdade histórica, esta verdade torna-se, quase sempre, irrecuperável.
5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

     O apoio do Governo a literatura e, no sentido mais ampliado, as manifestações culturais, sempre foi e sempre será questionado. É notório o descaso das autoridades para com os valores culturais.  Ocorre que alguns governantes são mais competentes, cientes de sua responsabilidade; outros são omissos ou delegam atribuições a incompetentes. Já tivemos governo disposto acabar com a Biblioteca Pública do Estado. Importante é que as instituições, não vinculadas ao Poder Público,mantenham alerta para evitar ações demolidoras. E mais, que estas instituições implodam rochas na busca de diálogo vivo com o Governo de plantão.  Não se negará aplauso a quem usar vara de marmelo para disciplinar ação inteligente, nesta seara.


6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

Cumprir o preceito estatutário que reza: “Cultivar a língua vernácula e defender os valores da cultura nacional e estadual, principalmente no campo literário”.


(*) Ocupante da Cadeira 30 da Academia Catarinense de Letras.


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MIRO MORAIS NO REINO DA ACADEMIA DE LETRAS

Na edição de agosto de 2012 dei em primeira mão a notícia sobre o novo romance de Miro Morais, anunciando também sua candidatura à cadeira 20 da Academia Catarinense de Letras, cujo último ocupante foi Osvaldo Ferreira de Melo, eminente historiador, escritor e músico catarinense.

No dia 22 de abril último, passadas três disputas sem que nenhum dos concorrentes alcançasse o número de votos necessários, eis que Miro é eleito, para alegria daqueles acadêmicos que nele votaram justo por sabê-lo um dos melhores e mais consistentes romancistas de nosso estado.

Sociólogo, professor universitário, pesquisador, Altamiro Morais de Matos foi fundador e reitor de universidade no oeste de Santa Catarina, professor e Diretor da Faculdade de Educação, Superintendente da Fundação Catarinense de Cultura dentre outras funções públicas.

Como escritor, é autor de dois sucessos de mídia e de venda no país e no exterior, A coroa no reino das possibilidades e Cândido assassino. Seu novo romance, O reino dos esquecidos, será lançado em maio pela editora Insular.

Não tenham dúvidas, meus caros confrades da ACL, o Miro chega disposto a ajudar, quer contribuir, quer mostrar presença e serviço em favor da Literatura e de nossa entidade, que vive um período muito difícil, esquecida pelo Governo do Estado.

E é isso: na minha opinião, qualquer um que pretenda ser um membro da Academia Catarinense de Letras necessita: 1) conhecer o que diz todo o Estatuto daquela Casa;  2) incorporar seu objetivo maior,  “...cultivar a Língua Vernácula e defender os valores da cultura nacional e estadual, especialmente no campo literário...”; 3) ter a consciência de que para tanto é preciso antes de qualquer coisa ser escritor (escrever e publicar literatura – romance, novela, conto, crônica, poemas; produzir pesquisas,  ensaios, estudos, críticas sobre artes plásticas, literatura, folclore, cinema, história, cotidiano,  cultura enfim).

Eleito e empossado, todo acadêmico precisa assumir compromisso com a instituição participando cotidianamente de suas atividades, conhecendo e cumprindo seus direitos e deveres (artigos 14 e 15 do Estatuto). Destaque para “presença às sessões e pagamento das contribuições ou outros encargos fixados pela Assembléia”. Necessita também ter clareza: a) que é prudente menos empáfia e mais humildade e companheirismo; b) que não basta apenas ostentar o título e a medalha e marcar presença nos eventos mais solenes e “pomposos”, deixando nos ombros de poucos a responsabilidade de resolver sozinhos todos os problemas. c) que é preciso ter consciência da imortalidade acadêmica, não esquecendo em nenhum momento a mortalidade do acadêmico.

Parabéns meu caro, para ti e para aqueles, como eu, que acreditamos sempre! Valeu pela persistência e pelo destemor. E sejas bem vindo ao convívio de teus novos confrades!

Sobre o novo romance de Miro

O reino dos esquecidos, está estruturado em oito capítulos que sobrevivem por si só mas são costurados pela história do Barão de Vinhedo, Dom Manoel Manso, personagem central. São eles: Início da aventura; Rumo ao desconhecido; A construção dos sonhos; Um novo olhar; Origem de Mariano Paixão; O amor de Fábio Paixão; O reino ameaçado e Início final.
Dom Manoel manso, um fidalgo muito próximo ao Imperador, por razões misteriosas, abandona a corte no Rio de Janeiro e se lança à aventura de criar no Sul do Brasil um povoado onde as pessoas possam ser felizes. Para realizar o seu sonho não lhe basta dominar a natureza hostil e fascinante e aprender a conviver com ela. O seu projeto entra em conflito com as crenças e as regras, a ordem e a desordem e o Poder que reina sobre tudo e todos. E isso se transforma em mais uma ameaça para o seu plano e a sua vida.
Mas a determinação de Manoel Manso não tem fronteiras. Aos poucos ele atrai para sua idéia, vista como visionária, sobretudo, os que nada tinham. Nem bens materiais nem esperanças. E, logo, também os ambiciosos de riqueza e poder. E tudo vai se transformando em um universo com alma própria.
Pequenos e grandes heróis expõem suas paixões, seus ódios, seus amores, a traição e a solidão, suas esperanças, tristezas e alegrias. As suas múltiplas histórias se entrelaçam – em capítulos que se auto justificam – dentro de um enredo maior, onde convivem os aventureiros e os acomodados; os santos e os assassinos.
Para Dom Manoel Manso o ser humano é o seu santo e o seu demônio. E, dentro dele, perde o que ele conseguir mais fragilizar. E é esse desafio da liberdade que ele próprio, cada um dos moradores do lugar que fundou e o país se deparam todos os dias, todos os momentos, que o desencanta e fascina.

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SETE ANOS DA POEMAS À FLOR DA PELE

A qualidade das criações levou-nos a buscar cada vez mais o registro da palavra. Invadimos, assim, a internet com concursos, festivais de poemetos, e-books, onde fizemos brotar o desejo em promover e divulgá-la em todas as suas manifestações. 

Com este intuito, abrimos nossos trabalhos de antologias e coletâneas em 2008, pelo Congresso Brasileiro de Poesia de Bento Gonçalves/RS, para escritores iniciantes e consagrados do Brasil e de outros países, num processo que mais lembrava a música: afinando-se palavras.
 
Em 2010, criamos a Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, com integrantes do Rio Grande do Sul e de outros estados e a Editora Somar para, nós mesmos organizarmos as publicações. 

São 7 anos de eventos memoráveis e livros marcantes, e neste volume 6, homenageamos a força da palavra, com destaque a 7 escritores: 
Doroty Dimolitsas, de São Paulo, Gladis Deble, de Bagé/RS, Pinheiro Neto, de Barra da Lagoa/SC, Sonia Maria Grillo, a B@by , de Vitória/ES, Sonia Medeiros Imamura, de Búzios/RJ, Telma Moreira, do Rio de Janeiro e Vany Campos de Porto Alegre/RS, que tiveram atuações poéticas e presenciais junto ao grupo que fizeram toda a diferença no processo de interação e crescimento do grupo Poemas à Flor da Pele. Estes sete integrantes significam apenas a simbologia dos 7 anos porque, na verdade teríamos 70 vezes 7 a homenagear.

Convidei meus amigos, adoráveis poetas Ana Luiza Conceição para fazer a orelha do livro, Iara Pacini para elaborar a capa e a orelha e Jorge D Barbosa para revisar o trabalho, ficou maravilhoso!

Poemas à Flor da Pele pode-se dizer que reflete a essência de viver, a poesia.
Clarice em seus devaneios fala o que Poemas pensa: 

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser... Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!! Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso? 

(Soninha Porto, Editora Somar, Poemas à Flor da Pele, abril 2013)

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MOSTRA NUEVA MIRADA É EXIBIDA PARA ESTUDANTES 

Desde o dia 8 de abril, a Fundação Cultural Badesc recebe escolas de Florianópolis para exibição de filmes da Mostra Itinerante do Festival Internacional de Cinema Nueva Mirada para Infância e a Juventude. Ao todo, são dez programas disponíveis, que incluem curtas-metragens e longas de animação e ficção. As sessões para o público escolar ocorrem às 9h30 e às 15h30 e podem ser agendadas pelo emailarte.e.publico@gmail.com ou pelo telefone (48) 3224-8846, das13h às 18h. 

Os filmes são protagonizados por personagens de culturas e hábitos diversos, desde a América até a Europa. “Trata-se de longas e curtas-metragens de animação e ficção criados para que crianças, jovens e toda a família possam encontrar nos filmes um espaço de encontro e de comunicação que, além de divertir,motive a reflexão, a curiosidade e o prazer da descoberta”, diz a diretora do Festival Internacional de Cinema “Nueva Mirada” Suzana Vellegia.

O festival ocorre anualmente em Buenos Aires, na Argentina, é um dos mais importantes eventos do gênero no mundo e pela primeira vez vem ao Brasil através de uma parceria com o Sesc. De acordo com o presidente do Conselho Nacional do Sesc, Antonio Oliveira Santos, a Mostra possibilita que crianças e jovens, além de pais, professores e produtores culturais tenham acesso a uma cinematografia de qualidade, abordando questões relativas ao universo infanto-juvenil em diversos países. A partir de maio, a Mostra Nueva Mirada será apresentada por outras cidades de Santa Catarina. Contatos: Helena Stürmer (47) 9127-8113 e Fifo Lima (48) 9146-0251.

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ERRATA
Na edição anterior faltou a legenda da foto na entrevista Flávio José Cardozo. O escritor, aparece acompanhado pela bibliotecária Michelle Pinheiro, após palestra ministrada a alunos na cidade de Criciúma.
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CONFRARIA DO POEMA-pn
I
A pele das mãos
enrugada.
Nevos melanocíticos
cortam e cantam:
passado sem paixões.

II

Reúnem-se espectros
no pátio da vida.
Planejam o seqüestro
do tempo que resta.

(Nano poemas , Pinheiro Neto/2011)








segunda-feira, 1 de abril de 2013

Edição 45



PAPO NA CONFRARIA: FLÁVIO JOSÉ CARDOZO(*)











(O escritor, após palestra em Criciúma, em companhia da Bibliotecária Michelle Pinheiro)
       
1- O que te motivou a escrever?
    
 Acho isso meio misterioso. Claro que nada teria acontecido se eu não tivesse adquirido bem cedo o gosto pela leitura. Na origem de tudo, penso que está a curiosidade por aquele mundo de fantasia oferecido nos livros e, em certo momento, o impulso de também querer fazer. Foi algo espontâneo e inexplicável que surgiu não sei de onde e para ficar. Aí veio o aprendizado (se é que tenho aprendido) - um processo lento, sem fim.

2 - Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

Por justiça, deveria citar os livrinhos fundamentais da escola primária que me revelaram o poder e a beleza da palavra escrita. Quanta leitura importante foi acontecendo a partir deles, quantos livros e autores podiam ser citados! Mas a pergunta pede três, só três livros que me marcaram de um modo especial no correr da vida. Então são eles, em três escalas: na literatura universal, o Dom Quixote (Cervantes); na literatura brasileira, Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa) e, na literatura catarinense, Homens e algas (Othon d´Eça).

     
3 - Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)      Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
b)      Alunos do Ensino Médio
c)      Alunos do Ensino Superior

Aproveito a oportunidade para ressaltar a necessidade de se divulgar nas nossas escolas a literatura que se faz em Santa Catarina. Minha escolha vai ser restrita a ela.
Assim, para os alunos do Ensino Fundamental, indico um dos livros de Maria de Lourdes Krieger – digamos Vovó quer namorar.
Para os alunos do Ensino Médio, o romance São Miguel, de Guido Wilmar Sassi.
Para os do Ensino Superior, Ecos do porão, de Silveira de Souza.



4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

     Conheço gente que traça um roteiro de trabalho e não se afasta dele, aconteça o que acontecer. Me falta disciplina, eu gostaria de ser mais trabalhador. Meu processo é vagaroso e sofrido. Adquiri, por exemplo, o péssimo costume de escrever e já ir querendo que cada página fique acabada. Creio que se eu fosse um profissional, com metas e compromissos a cumprir, seria bem mais ágil. Os quase dez anos de crônica diária me fizeram trabalhar sob pressão – e funcionou. Bem que podia ser assim nos outros gêneros...

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

     O grande apoio à literatura está certamente no apoio que o poder público, as instituições, as empresas etc. podem dar ao fomento da leitura nas escolas. A criação de bibliotecas escolares e públicas, a implantação de programas de difusão do livro, a capacitação de professores, o acesso de escritores aos estabelecimentos de ensino, a promoção de eventos escolares centrados no livro – tudo isso, que não é mais caro  do que tantas inutilidades patrocinadas por aí, conquistará crianças e jovens para a palavra escrita, vale dizer para o exercício da imaginação, para a agilização da mente, para o desafio a pensamentos próprios, para a revelação e a observação crítica do mundo e de seus valores. Todas as outras formas de apoio oficial e privado são importantíssimas, mas criar lá na base, de verdade, um lugar para a leitura na vida dos estudantes é o que mais pode interessar à literatura e aos seus autores.

6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

     Está nos objetivos das academias de letras divulgar a literatura e zelar pela língua nacional. Nesse sentido, elas podem atuar como efetivos instrumentos de informação e de formação. A Academia Catarinense de Letras tem sido, nos últimos anos, bastante ativa nesse sentido, seja reeditando obras importantes que estavam esgotadas, seja facilitando a edição de obras atuais, seja promovendo oficinas literárias e intercâmbio com academias e escritores do interior. A lamentar, no caso da ACL, as tantas dificuldades que ela tem encontrado para receber o apoio financeiro a que, por lei, tem direito. Bem mais ela faria se melhor fosse entendido o seu papel cultural.

(*) Ocupante da Cadeira 23 da Academia Catarinense de Letras.

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BALNEÁRIO RINCÃO E SEU BERÇO DE OURO, O MAR... (*)                           


É neste Berço de Ouro, Balneário Rincão que tudo acontece com ternura. A vovó de mão enlaçada com o amado caminha lentamente, buscando as ondas e o encontro com o mar. Debruço-me sobre o muro e sinto um perfume de “mãe” e eles desenlaçam suas mãos, ao perceberem meu olhar querendo trazê-los para perto de mim. Abaixo-me disfarçadamente e colho algumas rosas imaginárias que há no jardim. Como se eles tivessem nascido outra vez, seus passos lentamente se afastam, a vovó com seu vestido de chita, despede-se com um sorriso feliz. O momento é suavizado, e afastam-se em direção as ondas...O mar mora próximo ao meu lar, as pessoas me enviam carinhos com seus olhares e as ondas se abraçam, enquanto durmo. Os atletas (Jogadores do Criciúma) treinam defendendo o nosso amado Tigrão. As moças desfilam com beleza, nas mãos os celulares. De repente uma cavalgada à beira-mar e mais de 200 cavaleiros e amazonas, nobres paladinos, e penso: “São de onde e para onde vão?” Incrível é que um deles grita alto: “Escritora, que livro está lendo? Não sei como percebeu, e lhe respondo: O livro do escritor Pinheiro Neto “Poemas Reunidos,” e solto no ar alguns versos – As águas se abrem, a lua se enfeita, as estrelas descem – se achegam- é noite de pesca, pesca de dor, de frio, de sofrimento. Pesca da dor, pesca do amor”. Lá longe, os pescadores com suas redes de pesca, querendo ser presenteados pelos deuses do mar. De adultos se transformam em crianças, quando um peixe desfila do seu habitat até suas mãos. Os pequenos correm, aproximam-se do mar, e os pais andam silenciosamente querendo alcançar os seus bebês.Quando estou só reconheço e me esqueço. É a liberdade que me abraça, mas sem sorrir, talvez porque me encontra assim: livre e esquecendo tudo o que existe, importa os livros envaidecidos na biblioteca fantástica olhando para o mar? Não sou triste e nem feliz (neste momento), sou Poeta? Alguém escreveu assim um dia, deveria estar vivendo no segundo andar, de onde se abraça as ondas do mar? Creio que a vida será sempre entendida pelos meninos e meninas que vivem próximo ao mar, aqui a felicidade não toma conta de ninguém e nada é entendido por completo. Na praia, algumas árvores, aves e flores se beijam de verdade. Toda a realidade olha para mim como uma máquina de costura com a imagem dela no meio, minha mãe que já partiu. Sei que sua arte alegrava a sua vida, os bordados e os vestidos belíssimos nasciam de sua inspiração e ágeis mãos delicadas, deixavam os príncipes e princesas se sentirem felizes nas festas e bailes do Clube Ipiranga. Anoitece, os visitantes da praia estão saído do Berço de Ouro. Anoiteceu e minha poesia fugiu de mim, talvez foi até as águas cristalinas, inclinou-se tão natural sobre as ondas em desfile e adormeceu. A alma poeta tem uma necessidade vital de articular a vida, ressuscitá-la, sensibilizar e transformar. Mesmo que cante tantos desencantos, nunca deixará de acreditar na humanidade e de reformar o que está imperfeito. Se alguém confundir a palavra de um Poeta, saiba que seu impulso é o mais verdadeiro e de fé, sonhador sim ...

(*) Crônica de Maria de Fátima Pavei, escritora, autora de “Além dos trilhos do trem – Içara, 50 anos de emancipação política 1961-2011.

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SILÊNCIO IV (*)

O silêncio se fez!
E no peito uma pedra barulhenta pertétua...
O amor intenso esquecido
e a jura secreta revelada...
Silêncio!
Virou pedra dolorida...

(*) Dú Karmona, poeta paulista. Este poema foi publicado na página 65, no volume 5 da Poemas à Flor da Pele, 2012, pela Somar.

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AS LUTAS (*)

São os golpes que mantém vivo
O corpo, aquele que ainda está em pé
São olhares por todos os lados
Alguns reprovadores, outros admirados
Eu vejo as faces horrorizadas
Com certas carnificinas
O mais forte sempre tenta me derrubar!

(*) Blimer – entre massacres, 2010. Nas sinaleiras de Floripa entregando seus poemas fotocopiados.


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DOIS POEMAS DE TÁBATA BELBUTE(*)

1-    Quando te vi

Quando te vi
pela primeira vez
com tua luz me ceguei.
Com teu brilho
do céu ao chão
achou meu coração.

2-    Sentimentos

O amor mexe com a gente
por fora e por dentro.
E isso para mim
é o maior sentimento.

(*) De Porto Alegre, tem 12 anos, artesã, filha do também escritor Silvio Belbute. Publicados na coletânea “Poemas à Flor da Pele 5, volume 2, 2012.

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REGISTRO

1-    A Academia de Letras de Biguaçu convida para a Sessão Solene de abertura dos trabalhos acadêmicos de 2013 e lançamento dos seguintes livros: “Auto da Imigração Alemã”, de Adauto Beckäuser; “Ganchos – pesca, maricultura e turisno”, de Miguel Simão; “No apagar das luzes”, de Dalvina de Jesus Siqueira; “7 contos da resistência”, de Willian Wollinger Brenuvida; e “A literatura dos catarinenses – espaços e caminhos de uma identidade”, de Celestino Sachet. Contatos através do emeio: academia@academiadeletrasdebiguacu.com.br

2-    Sinfonia poética e prosa - volume 8 - publicado em dezembro de 2012 pela Academia São José de Letras, entidade fundada em 24 de abril de 1996 que tem como objetivo maior cultivar e divulgar a língua vernácula e os valores da cultura, especialmente através do fazer literário e como presidente o escritor Artêmio Zanon.
A produção literária que integra a coletânea representa apenas, segundo seu presidente, pequena parte do universo literário dado à lume nos anos de 2011 e 2012.
“Esta é, então, a maneira eficaz como a Academia São José de Letras contribui para cultivo e divulgação da Última flor do Lácio, inculta e bela, no cantar de Olavo Bilac...”


3-    Desterríada é o título do primeiro volume da coletânea editado no final do ano de 2012 pela Academia Desterrense de Letras, divulgando trinta panegíricos apresentados em sessões solenes específicas, ao longo dos anos de existência daquela entidade.
Apresentado por sua presidente, Hiamar Polli e seu Diretor Geral, Artêmio Zanon, membro daquela entidade e organizador da obra, o volume nos brinda com trinta textos escritos “de maneira pessoal, havendo neles dados biobibliográficos”  onde cada orador segue seu próprio estilo sem uma orientação específica.


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CONFRARIA DO POEMA-pn
I
A pele das mãos
enrugadas.
Nevos melanocíticos
cortam e cantam:
passado sem paixões.

II

Reúnem-se espectros
no pátio da vida.
Planejam o seqüestro
do tempo que resta.

(Nano poemas , Pinheiro Neto/2011)








quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Edição 44








PAPO NA CONFRARIA: SILVEIRA DE SOUZA(*)
           

1-    O que te motivou a escrever?

--  O interesse pela literatura e a motivação para escrever foi insuflada por meu pai. Lembro que lá pelos meus 7 ou 8 anos de idade, quando eu já havia aprendido a ler com minha mãe, ele, meu pai, ao receber o seu salário de funcionário público, trazia mensalmente braçadas de livros e revistas para todo o pessoal da casa, ou seja, para ele próprio, minha mãe , minhas duas irmãs e para mim.  Narrativas e contos de gente como, por exemplo, Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen tiveram grande influência na minha formação literária.

2-    Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

 -- Vou citar somente os de escritores brasileiros:
       a) Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis;
       b) Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa;
       c) Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:
a)    Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
 -- Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato;
b)   Alunos do Ensino Médio
--  Zélica e outros, de Flávio José Cardozo
c)    Alunos do Ensino Superior
--  A superfície, de Ricardo Hoffmann

3-    Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

No início surge, na mente, algo que nem é uma estória. É um evento, ou uma figura humana. Não sei o que eles significam, mas sei que eles incomodam, vão e veem, na mente. Chega um momento em que acho que essas coisas precisam ser jogadas pra fora da mente. É quando eu tento recriá-las sobre uma folha de papel, ou na tela de um computador. Essa é a parte pior. É a pendenga da racionalidade com as forças do inconsciente. É o embate do Dragão da Maldade contra o Anjo Guerreiro.



4-    Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

--  Acho que todo apoio dispensado à literatura ou às atividades culturais da comunidade deveria ser prioritário em qualquer administração publica inteligente. Mas também acho que alguém que realmente deseja fazer literatura ou arte não deve preocupar-se com isso. Arte e literatura são coisas vitais. Você não pode deixar de fazê-las somente porque, por acaso, está cercado por uma classe política formada de burocratas despreparados.

5. Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à língua e à literatura.

 Se as Academias de Letras pudessem funcionar como fontes de consulta organizadas e confiáveis a propósito de livros e documentos fundamentais da história cultural de seus respectivos estados, creio que já estariam prestando um serviço inestimável às comunidades as quais pertencem.

(*) João Paulo Silveira de Souza é Membro da Academia Catarinense de Letras, Cadeira nº. 33

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LITERATURA INFANTO JUVENIL  EM SANTA CATARINA

Em dezembro do ano passado, Terezinha Kuh Junks, esposa do saudoso professor e escritor Lauro Junkes, ex presidente da Academia Catarinense de Letras, organizou e lançou um dos vários trabalhos deixados por esse incansável estudioso de nossa literatura, com sua  morte.
Trata-se do primeiro de cinco volumes de pesquisa deixada por Lauro, praticamente concluída, que trará ainda: contos e crônicas, novela, romance e poesia.
Segundo Júlio de Queiroz, no texto O afã incansável, que acredito esteja no livro à guisa de prefácio, “À medida que, no decorrer das últimas décadas, a literatura infantil ampliava-se em facetados aspectos, Lauro Junkes, como um colecionador reunindo seus achados, lia a obra, elaborava suas considerações e as entregava ao seu riquíssimo baú eletrônico.
Legítimo herdeiro intelectual dos copistas medievais, como aqueles, não o fustigava a necessidade premente de trazer a público seu nome como crítico de também essa especialidade.”
Para Maria de Lourdes Ramos Krieger, escritora e colega de Lauro na UFSC, enquanto professores, e que apresenta o volume, “a literatura infantojuvenil também mereceu de Lauro Junkes uma reflexão crítica. Ele mostrou que a identidade catarinense se encontra não apenas na literatura dita para adultos, mas igualmente na linguagem e no estilo dos textos voltados – por sua extensão e tema – para criança e jovens.”
“Ele sabia da importância da leitura para a formação do leitor, a partir do ambiente escolar, razão por que visitava escolas, geralmente acompanhado de outros membros da Academia: conversava, dialogava com professores e alunos, a respeito da necessidade do livro, da literatura na e para a sociedade e para o próprio indivíduo. (Ele sabia também que, infelizmente, por questões financeiras ou descaso, no ambiente doméstico o acesso aos livros nem sempre é facilitado). Abordava as obras dos autores nascidos em Santa Catarina ou aqui estabelecidos, lembrando que um livro é bom por suas qualidades literárias – quando, aliado a isso, for de autor da terra, merecia/merece maior apoio e divulgação.”
São mais de trezentas páginas de pesquisa, trabalho árduo e resultado significativo para o conhecimento e divulgação dessa área (infantojuvenil) que torna a produção literária de Santa Catarina ainda mais consistente e importante, na totalidade da literatura de nosso país.   



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CICATRIZES (Clau Assi **)



Ferido peito
sangra a alma
restam apenas cicatrizes
desenhadas na alma
efeito concreto da dor
estilhaço,
lamento,
algoz que relembra
tecido marcado
carne infligida,
tatuagem inacabada.
intrépida passagem do tempo
que a tudo leva
e à face traz lágrimas
envidraça o sorriso
feito faca de fino corte
abre ferida no peito.



(**direto de sua página no face, fev.2013)


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NEM SEMPRE FREUD EXPLICA (Olsen Jr.)


   Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)... Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.
   Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho... Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção... Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”... Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério... “Não, meu filho, não doeu”...
   Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais... A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo... Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua...”
   A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato... Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo... E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor... Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”...
   Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos...
   Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa... Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo... Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto... Algum tempo atrás fui provar uma roupa... Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine... Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado... Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa... Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”...
   Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista... A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso... Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete... Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!” 
   Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

  

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CONFRARIA DO POEMA-pn
I
Entre os dedos
Reconduzo versos
Do fundo d’alma
Garimpo poemas.

II

Vejo poemas
Sem olhos teus
Teço poemas
Com os de outrem.

(Nano ensaios poéticos, Pinheiro Neto/2012)