sábado, 24 de abril de 2010

Pinheiro Neto (poetapinheironeto@gmail.com)


O QUE É LEITURA (3) – Ler é uma experiência linguística, um processo de comunicação de idéias, através dos símbolos escritos que, por sua vez, substituem os símbolos orais: as palavras.
As palavras não têm significação por si mesmas. Valem pelo que representam, numa referência permanente às coisas exteriores e aos fenômenos do nosso mundo interior, portadoras dos significados convencionalmente aceitos.
“A linguagem é criação humana, assim como o são outras criações culturais, tais como indumentária, direito, organização familiar, caça, pesca, etc., conforme afirma Câmara Jr. O sentido que lhe emprestamos depende de nossa experiência prévia, de um substrato cultural adquirido no intercâmbio com os demais membros de nosso contexto social.
Quando dizemos casa, jogo, liberdade, vida, bela, isto, aquilo, aceitamos algo puramente representativo, mero “conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social, a fim de permitir o exercício da linguagem, por parte do indivíduo”, ainda conforme Câmara Jr.
Sem o “substratum” lingüístico, não há leitura, porque os símbolos impressos nada significariam para o leitor.
Palavras são símbolos e não têm significação por si mesmas. O sentido que o leitor lhes empresta depende de sua experiência de vida. A iniciação da leitura, as palavras dos textos devem provir do próprio vocabulário infantil. Como verdadeiros estímulos que são, essas palavras evocam imagens de experiências anteriores.
O gosto pela leitura deve ser desenvolvido na infância. A criança que tem contato com livros, que em casa vê seu pai e/ou sua mãe lendo com freqüência, tem noventa por cento de chances de ser uma amante da leitura quando crescer. Assim sendo, a partir do próximo número passaremos a enfocar um pouco mais a relação criança/leitura.

A PALAVRA CRÔNICA
Este ano completam-se 40 anos da edição do livro Singradura, a primeira das tantas obras de Flávio José Cardozo, jornalista e escritor catarinense. São 20 contos que se unificam na temática homem-mar e no cotidiano da gente simples desta ilha de Santa Catarina. Figuras como o músico Mané Flor, Marinês, Marcelina e Marília, que protagoniza o conto que dá nome ao livro, passeiam pelas páginas e nos oferecem o drama e a alegria de viver aqui. Mas, ao mesmo tempo são histórias tão universais que poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo.
A pena certeira de Flávio ao narrar estas vidas catarinas tem simplicidade e profundidade em equilíbrio. E nesse olhar sobre o dia-a-dia das gentes, concretizado em contos e crônicas, se revela o olho do jornalista. Aquele que vê a vida em movimento e que percebe a história humana em cada fato aparentemente comum da vida que escorre pelos dias.

O Sindicato dos Jornalistas, no projeto Círculo da Palavra, no próximo dia 28, às 19 horas, no Plenarinho da Assembléia Legislativa, presta uma homenagem a esse importante cronista catarinense e ao mesmo tempo busca um diálogo com estudantes e jornalistas, na discussão da crônica, gênero literário, mas também jornalístico, que tão bem Flávio usa para narrar a vida.
Flávio José Cardozo nasceu dentro do círculo do carvão, na pequena Lauro Müller, em 1938. Cursou Jornalismo na PUC/RS. Durante vários anos ocupou o espaço da crônica no jornal Diário Catarinense. Em 1965 venceu o Concurso Universitário de Contos em Porto Alegre; em 1967 o Concurso Nacional de Contos em Florianópolis; em 1968 o I Concurso Nacional de Contos em Curitiba; e em 1977 o Concurso Remington de Literatura no Rio. Seu primeiro livro de contos publicado foi "Singradura" (1970). Em 1978 lançou "Zélica e Outros". Ambos são ambientados na ilha de Santa Catarina, num tempo "mais ingênuo", em que a ilha ainda não era um pólo turístico agitado. O autor retrato com profundidade a condição humana e suas paixões mais elementares. Seus outros livros publicados são "Água do pote" (1982 - crônicas), "Sobre sete viventes" (1985 - crônicas), "Longínquas baleias" (1986 – contos), "Beco da lamparina" (1985 – crônicas), "Sofá na rua" (1988 – crônicas), "Tiroteio depois do filme" (1989 – crônicas) e "Senhora do meu desterro" (1991 – crônicas). Publicou também um romance, “Guatá”, que abre-se para o mundo mineiro, de onde saiu. Flávio José Cardozo é membro da Academia Catarinense de Letras.

PARA LEMBRAR – O acento diferencial continua valendo: a) no verbo PÔR, para diferenciar da preposição POR. Exemplo: Maria vai PÔR um fim no namoro; b) no verbo PÔDE (passado), para diferenciar de PODE (presente). Exemplo: Kaká PÔDE jogar ontem.

CLÁUDIO MANOEL DA COSTA– (1729-1789) Nasceu em Mariana, Minas Gerais. Tomou o nome arcádico de Glauceste Satúrnio. Obra poética: Minúsculo Métrico, 1751; Epicédio e Labirinto de Amor; Números Harmônicos e Culto Métrico, 1753; Obras, 1768; Vila Rica, 1813. Suas Obras foram reeditadas por João Ribeiro em 1903.

PONTO DO POETA

As curvas da Enseada
desdobram teu todo
em curvas dos olhos,
da Ilha, dos medos.

As curvas do tempo
encontram nas alvas,
no mistério do ventre,
escorpiões sem garras.

As curvas da Enseada,
vistas por sobre o sonho
te desnudam, te orvalham,
te fazem Senhora minha
nesta Desterro alcova.

(Enseada, pg. 29, Minha Senhora do Desterro)

quarta-feira, 24 de março de 2010

CONFRARIA DA LEITURA-pn
Pinheiro Neto (poetapinheironeto@gmail.com)



O QUE É LEITURA (2) – Continuando a reflexão sobre leitura, iniciada na edição passada, vejamos cada um dos quatro distintos passos didáticos para seu entendimento: a) Percepção e Compreensão = São as duas fases intimamente ligadas para que se perceba cada palavra à nossa frente. Quando vemos escrito bola, sabemos que é bola e não barco ou banco. Temos uma resposta ao estímulo visual, à configuração do sinal impresso, e, ao mesmo tempo a interpretação do que significa. Se lemos num jornal: “Choveu forte a noite toda”, nossa experiência anterior surge simultaneamente, num sincronismo absoluto com a percepção dos símbolos escritos e entendemos tudo o que a mensagem quer dizer. b) Reação = Quem lê, associa as próprias experiências – suas ou de outrém – às da página impressa. Compara-as julga-as, rejeitando-as ou integrando-as ao seu comportamento. Reagimos ao que lemos aprovando ou não os juízos, os pontos de vista, as conclusões do autor que é lido naquele momento. c) Integração de Idéias = Nossa reação é a medida do que vamos aproveitar daquilo que lemos, das experiências vividas pelas personagens que vão se transformar em nossas experiências. Integrando-as teremos um conhecimento mais aprofundado sobre determinado tema, podendo ou não modificar nossa maneira de sentir ou agir. Com a leitura de livros científicos e técnicos o homem conseguirá aperfeiçoar suas técnicas. Com a leitura de obras literárias o homem alcançará o prazer estético, as emoções, o entusiasmo por aquilo que é belo e nobre.

A PALAVRA EM CANTARES – É o novo livro do escritor catarinense José Curi, nascido em Rio dos Cedros aos 15 de agosto de 1931. Professor da UFSC (Filologia Românica) aposentado, é formado em Letras Neolatinas e Filosofia, Doutor em Letras e Livre Docente em Lingüística. É membro da Academia Catarinense de Letras, da Academia de Filosofia de Santa Catarina e do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Escreveu vários livros nas áreas da pesquisa histórico-linguística, didática e literária.
Numa co-edição entre a Academia Catarinense de Letras e a Editora Garapuvu, o livro de poemas de José Curi “pretende ter nascido da alma, da liberdade, da honestidade, da fé em sendo a palavra princípio de toda ação, esquentando e fomentando idéias e pensamentos em cantares que amam, criticam, cantam, divertem e rezam”. Parabéns, meu mestre e colega de Academia!

BATUQUE BEM TEMPERADO – Livro de crônicas dos escritores Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms, co-edição da Academia Catarinense de Letras e da Editora Insular foi lançado no final do ano passado. Cada um participa com vinte crônicas.
Para Mário Pereira, na primeira orelha, os textos do livro são de “impecável talhe que fluem como água límpida de um regato a correr sobre leito de seixos. Eles nos proporcionam momentos de refrigério e de encantamento.”
E ainda: “ Deste dueto de virtuoses, emerge a crônica com saborosos temperos e perfumes da terra amada. Quem entrar neste batuque em tão boa companhia dele sairá gratificado e de alma lavada, pois terá convivido com dois escritores de proa que se inserem na melhor tradição da crônica brasileira.”
Com extensa produção literária, Flávio e Jair são membros da Academia Catarinense de Letras, residem em Florianópolis e publicaram crônicas em diversos jornais do Estado.

PARA LEMBRAR – O trema foi extinto. A única exceção é para nomes estrangeiros e seus derivados, como por exemplo: Müller, mülleriano; Hübner, hübneriano.

BLUMENAU – Paulo Roberto Bornhofen é o novo presidente da Associação de Escritores de Blumenau. Desejamos pleno sucesso à frente da entidade. Aliás, Paulo lançou recentemente o livro Epicentro de uma tragédia, relatos e dramas de policiais militares que estiveram no centro da catástrofe que atingiu Santa Catarina em novembro de 2008. O livro foi lançado em e-book e pode ser acessado pelo site: http://www.blumenau.sc.gov.br

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA – (1633-1696) Nasceu na Bahia. Suas obras, editadas por Afrânio Peixoto de 1923 a 1933, compreendem poesias sacra, lírica, satírica, erótica e “graciosa”. Até 1963 quando Manuel Bandeira editou “Poesia do Brasil”, as peças pornográficas de Gregório de Matos, como é mais conhecido, ainda não tinham sido editadas.



PONTO DO POETA

Meu verso
perde a força
a cada dia.

Meu corpo
cansado
volta à posição fetal.

Meu grito
inaudível
perde-se
no corredor branco
deste imenso manicômio.

(Ensaio 4, pg. 67, Minha Senhora do Desterro)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CONFRARIA DA LEITURA-pn
Pinheiro Neto (poetapinheironeto@gmail.com)



RESTAURANTE MARIA & MARIA (a história)


Em 1974, Maria Benta Vieira, natural da Costa da Lagoa e casada com Raimundo Bernardo Vieira, pescador e barrense, montava sobre as areias do aterro do Canal da Barra da Lagoa, aqui, neste mesmo local, uma pequena barraca de madeira para vender peixe frito, camarão ao bafo, frito e ao alho e óleo, acompanhados de uma cervejinha bem gelada ou uma cachacinha da boa.

Duas mesinhas e bancos de madeira reaproveitada, fixos no chão de areia fina e branca. Um fogão de duas bocas, uma geladeira com bastante tempo de uso e “quatro garrafas vazias” permitiram durante um bom tempo que dona Maria pudesse complementar a renda familiar conseguida pelo marido com a pesca.

Dez anos depois dona Maria conseguia abrir seu pequeno restaurante. Trabalharam com ela, durante muito tempo, duas das três filhas que também levam como suporte intermediário do nome MARIA, herança das duas avós – a materna, da Costa da Lagoa (viva até esta data), e a paterna, barrense, já falecida.

O toque simples, a mão firme e o tempero único sempre foi o atrativo para todos aqueles que procuravam uma comidinha caseira, bem feita e com sabor.

Cansados do tempero sofisticado dos restaurantes maiores, passaram pelo restaurante da dona Maria muitas pessoas da ilha, do estado, de vários estados brasileiros e de muitos países. Mesmo depois do fechamento, em 1996, vários deles continuaram a procurar por ela até em sua casa, lamentando o fato e na tentativa de serem convidados para “fazer uma boquinha”. Alguns até conseguiram.

Lembro bem, freqüentador assíduo que era, de ter compartilhado o mesmo espaço por inúmeras vezes com o Maurício Amorim, o Aldírio Simões e o Irê, todos nos deliciando com o pirãozinho de caldo, o peixe frito e o camarão pescados ali mesmo, no “rio da Barra”.

Lembro que o ator global Tony Ferreira, de inúmeros filmes, como “Noite em Chamas”, cá na terrinha nascido, não perdia uma. Sempre que vinha a Floripa dava um jeito de chegar até à Barra da Lagoa, ao restaurante da dona Maria para matar a saudade da comidinha caseira, principalmente do pirão d’água com peixe frito “da hora”.

Oito anos depois, no mesmo espaço ainda pertencente à dona Maria, reabre um restaurante com as mesmas características daquela época. Um espaço agora sob a responsabilidade de um dos seus filhos, o Nisso, que procura manter viva a tradição familiar.

E a dona Maria? Ainda pode ser encontrada na cozinha trabalhando com a mesma vontade e dedicação, agora auxiliada por outras nativas da Barra da Lagoa. (Pinheiro Neto-verão/2004)

O QUE É LEITURA? – Mais uma vez iniciam-se as aulas nos quatro cantos do Brasil. Como esta coluna é direcionada a leitores, assim como todo o jornal, vamos trazer uma reflexão sobre a questão que nos afeta a todos, principalmente aos estudantes.
Muitos pesquisadores procuraram e ainda procuram analisar o que seja leitura. Para uns, ler é extrais sentido de um texto impresso, enquanto para outros é enquadrar a própria experiência ao simbolismo das palavras, sinais, idéias, etc.
Ler é tudo isso e muito mais, é um processo complexo devido aos diferentes aspectos que apresenta. Didaticamente podemos distinguir quatro passos distintos para sua operacionalização: percepção das palavras, compreensão, reação e integração. No próximo número estaremos detalhando cada uma delas.

PONTO DO POETA

E sou
O teu corpo
Já que és
O meu.

A cama
- às pressas arrumada -
Nos espreita:
Medos
Perguntas
Vontades...

Por que
Não viver
(in)sana/mente
Se estamos
Juntos
Aqui, agora?

(Questionamento I, pg. 44, Ciclo dos Olhos)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

CONFRARIA DA LEITURA-pn
Pinheiro Neto (poetapinheironeto@gmail.com)


EL SOMBRERO DE TRES PICOS – Trata-se de uma novela humorística de enredo muito divertido, escrita em 1874 pelo poeta, jornalista, crítico e, antes de tudo, autor de romances e contos, o espanhol Pedro Antonio Alarcón, natural da romântica cidade de Granada.
Traduzida para inúmeras línguas, “O chapéu de três bicos” a obra foi musicada em 1919 por De Falla, com cenografia de Picasso, numa feliz adaptação para brilhar nos palcos. A narrativa de Alarcón é considerada um clássico da literatura picaresca, que dá continuidade à tradição da arte novelística de Cervantes.
Em síntese, “O chapéu de três bicos” conta a história de Lucas, o moleiro que adora sua bela mulher Frasquita. Ele não ignora que ela é o magneto que atrai para sua casa as personalidades notáveis da cidade – entre elas o Corregedor de Justiça, Don Eugênio, homem vaidoso e conquistador. Don Eugênio imagina uma intriga para atrair Frasquita, mas sua armadilha é descoberta e ele, além de não conseguir seduzir a bela moleira, ainda passa pelo constrangimento de ver seu estratagema revelado.
Com tradução de A. Rolmes Barbosa, introdução de Otto Maria Carpeux e ilustrações de Manuel de Macedo, a leitura de “O chapéu de três bicos” desse excelente escritor espanhol proporcionou-me além do prazer estético uma viagem à época do rei Carlos IV, último rei da Espanha antiga, mecenas de Goya que criou para ele as tapeçarias do Escorial; da velha Espanha antes da invasão francesa que a europeizará, do país separado do mundo pelos Pirineus e pela tradição antiga; e numa província remota, ingênua, onde tudo foi possível como num conto de fadas.
Obrigado, Michelle, pelo ótimo presente.

CLAUDIR SILVEIRA – No dia 07 deste mês deixou o convívio literário o escritor e historiador Claudir Silveira. Nascido no vizinho município de Palhoça estudou a história e a gente de seu município, publicando inúmeros trabalhos e abrigando o maior acervo sobre a colonização, habitação, fundação e emancipação daquela cidade.
Dele li e guardo com carinho “Balaio de caranguejo”.
Por certo Claudir já está integrando a Academia dos Artistas do Universo para onde vão todos os intelectuais, artistas, literatos e muitos outros que deixam de produzir suas obras de arte neste nosso mundo.

BLEFO E BAMBURRO – Recebi, li e gostei. Trata-se de um romance que narra a história de seres humanos vivendo no complexo, estranho e desumano mundo do garimpo, escrito por Álvaro Castro, escritor, jornalista, presidente da Academia de Letras de Itajaí e editor da revista “Sopa de siri”.
Valho-me das palavras de Nair Therezinha da Silva que escreve na segunda orelha do livro: “Ficção e realidade misturam-se, instaurando todo um universo onde o autor transita livremente, só ele sabendo quem é quem. Ao final da leitura fica a vontade de conhecer o garimpo e a cultura toda que ele traz subjacente.
Outra sensação que a narrativa provoca é a consciência de que existem dois brasis: um conhecido, aceito e criticado; outro, velado, misterioso, esperando ser revelado.
O Brasil misterioso manifesta-se com outros valores, mas mesmo assim não deixa de mostrar o avesso do estado endêmico a que estamos acostumados”.

DELMINDA SILVEIRA – Em meados do ano passado a Academia Catarinense de Letras, através de sua Coleção ACL publicou “Obra Completa” da poetisa catarinense Delminda Silveira. São 592 páginas onde desfilam poemas cuja característica mais constante, segundo Lauro Junkes, “é a tonalidade melancólica, triste, desiludida, própria da corrente romântica do ‘mal do século’, embora Delminda supere qualquer atitude derrotista e de desespero, pela sua fé religiosa.”
Nascida na Prainha, em 1854, viveu toda sua vida em Florianópolis, onde morreu em 1932, aos 72 anos. No ensaio publicado às páginas 593 a 609 e intitulado “Delminda Silveira - uma poética da intimidade recolhida”, o escritor Lauro Junkes, Presidente da Academia Catarinense de Letras esclarece que “apesar de desiludir-se amargamente com a vida social, tornar-se arredia à mesma e enclausurar-se no seu universo intimista místico-melancólico, Delminda assumiu com rara audácia, para a época, a condição de mulher-escritora, capacitada para atividades intelectuais, embora não transpareça de sua sóbria e delicada postura nenhuma intenção de desafiar os preconceitos machistas reinantes em seu tempo. Felizmente soube ela superar estreitezas preconceituosas para dar vazão ao seu rico mundo interior, permitindo que a criação poética brotada de seu sentimento povoasse o mundo de mais ternura.”

PONTO DO POETA



Meu jogo não é do riso
Do tabuleiro ou das cartas.
Meu jogo é da emoção
Que rompe a imagem(in-ação)
Ultrapassa fronteiras
Sacia vontades.

É imprevisto
Choro, verdade.

Meu jogo é vento
Soprando o corte
Marcando o ventre
Parindo a dor.

( Jogo 10, Pinheiro Neto, pág. 67 - A rosa do verso)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

CONFRARIA DA LEITURA-pn
Pinheiro Neto (poetapinheironeto@gmail.com)

NATAL 2009-pn

Natal é tempo de festa
De amor e confraternização
Tempo de demonstrar ternura
De viver em completa união.

Natal é tempo de doces
De presentes e lembranças
É tempo dar brinquedos
Mas de augurar esperanças.

Natal é tempo de compras
De gastos e endividamento
Época de severo egoísmo
Esquecer alheio sofrimento.

Natal tempo de montar presépios
Erguer árvores de luzes coloridas
Esquecendo que na manjedoura
Alguém zelará por nossas vidas.

Mas para que serve o Natal?
Que respostas podemos dar?
Qual o sentido para os humanos?
Que reflexões pode ainda suscitar?

Natal tem que servir para lembrar
Que muitos não tem o que comer
Que muitos não tem onde morar
Que muitos não param de sofrer.


JOEL PACHECO – No último dia 15, na Livraria Catarinense do Beiramar Shopping, foi lançado o livro “A canoa baleeira dos Açores e da Ilha de Santa Catarina”, onde Joel mais uma vez nos brinda com sua perspicácia de observador do cotidiano. Mestre na ciência da fotografia, artista sensível (além de centro avante goleador do Pesadema) Joel Pacheco aprofunda sua pesquisa sobre as semelhanças entre as coisas e as pessoas dos Açores e da nossa Ilha da Magia, desta feita explorando a questão da “canoa baleeira”. Parabéns, amigo.


SOPA DE SIRI – Quem não experimentou ainda uma boa sopa de siri? É um prato delicioso quando bem preparado. Exige cuidado, esmero, tempero suave e, de preferência sirias ovadas. Eu mesmo preparo muito bem essa iguaria. Mas não é sobre essa sopa que quero falar hoje, mesmo porque esta coluna não é de culinária. Quero falar sobre a revista editada pelo meu amigo Álvaro Castro, que também é presidente da Academia de Letras de Itajaí. Leve, dinâmica, colorida e com edição mensal, a revista apresenta assuntos variados ligados às áreas da cultura, do turismo e do humor. E pasmem, sempre com informações atualizadas a revista dedica páginas à poesia e à literatura. Parabéns ao Álvaro e a sua equipe pelo trabalho que vem desenvolvendo. Contatos com sopadesiri@uol.com.br ou site www.sopadesiri.com.br

BARCA DOS LIVROS – Um lembrete a todos os escritores, leitores, empresários, governantes, simpatizantes, amantes da literatura: “NÃO ESQUEÇAM DA BARCA”; ela não pode continuar à deriva. Trata-se de um projeto magnífico que não pode ir à pique. É NATAL! DÊ UM PRESENTE À BARCA DOS LIVROS (FAÇA UMA DOAÇÃO EM DINHEIRO, POR MENOR QUE SEJA. A BARCA ESTÁ PRECISANDO DE TODOS)!!! Para contato: www.amantesdaleitura.org ou e-mail biblioteca@amantesdaleitura.org

BALNEÁRIO CAMBORIÚ – Numa promoção da Fundação Cultural de Balneário Camboriú e da Academia de Letras daquele município, estive no dia 4 último participando de uma noite de autógrafos de meu livro de contos “Histórias de (a)mar e outras”. Na mesma noite foi aberta a exposição “Fragmentos”, do artista plástico Walmir Binhotti. Dentre as várias presenças destaque-se a Presidente da Academia de Letras de Balneário Camboriú, Marah Guedes, do Presidente da Academia de Letras de Itajaí, Álvaro Castro.

BULHA D’ARROIO – A Academia Catarinense de Letras e a Editora Movimento acabam de lançar a edição comemorativa dos 70 anos do livro de contos do escritor catarinense Tito Carvalho intitulado “Bulha d’arroio (paginas serrano-catarinenses”. Nesse livro o autor “realizou a sua primeira tentativa de trabalhar literariamente o material linguístico da região serrana. Naquelas páginas, de um realismo às vezes chocante, mostrou os seus dons de artista e um talento singularmente dotado para um gênero que, infelizmente, tem atraído poucos cultores, aqui como em outros estados, pela dificuldade que oferece.” (Nereu Correa, 1979)

PRÊMIOS DA ACADEMIA – A Academia Catarinense de Letras entregou no último dia 3 os prêmios e diplomas às personalidades que se destacaram nas diversas áreas culturais durante o período agosto/2008 a julho/2009. Foram homenageados: na categoria CONTO, este colunista com o livro “Histórias de (a)mar e outras”; em POESIA, Semy Braga, com o livro “Mandrágora”; em ROMANCE, Harry Wiese, com “A sétima caverna”; em CRÔNICA, Mauro Júlio Amorim, com “Tanto de memória, tanto de história”; em ENSAIO, Valter Manoel Gomes, com “Pesquisa de historiador”; em HISTÓRIA, Saulo Adami e Tina Rosa, com “Histórias e lendas da cidade de Schneeburg”. Foram entregues na ocasião o diploma de DESTAQUE CULTURAL para o Caderno do Programa NA Escola, rede municipal, do jornal A Notícia de Joinville e o PRÊMIO OTHON GAMA D’EÇA ao escritor Hoyêdo de Gouvêa Lins, pelo conjunto de sua obra literária.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

SOBRE POEMAS E LEMBRANÇAS(pinheiro neto/nov/09)



doEU demais deixar Porto Alegre no dia 06 de novembro passado. Embora trouxesse comigo os rostos, as lembranças, as conversas, os planos, as risadas e os muitos chopes, além das duas caixas da coletânea “Poemas à Flor da Pele”, a sensação de “quero mais” permanecia.

Foram dois dias intensos de convívio literário e artístico. Novos amigos, novos projetos, novas promessas. Amigos de outras Feiras e de outras épocas e o revisitar de novas perspectivas e parcerias.

Rever, conversar e novamente fazer planos com o meu amigo e emérito professor Francisco Camargo Neto. Conhecer pessoalmente Soninha Porto, coordenadora do movimento da “Poemas”, batalhadora cultural e autora do livro de poemas doEU; Raphael Pacheco, promessa de boa poesia; Claudete Silveira, com toda sua sensualidade poética, dentre outros e outras, além da performance maravilhosa de Maria Flor da Pele, personagem criada pelo ator Marcos Bahrone, com declamações de textos de vários poetas brasileiros.

Já havia participado da Feira do Livro de Porto Alegre em várias edições anteriores. Três dos meus sete livros, além de algumas coletâneas, tive o prazer de lançá-los através dela. Escritores gaúchos de renome tive o prazer de conhecer através dela: Moacir Scliar, Lia Luft, Antonio Hohlfeldt. O grande poeta gaúcho Mário Quintana tive o prazer conhecê-lo após passar boa parte de uma tarde conversando com ele num banco da praça da Alfândega na Feira do livro de 1988 ou 89, não lembro bem.

Esta 55ª edição da Feira, entretanto, teve outro sabor: um sabor anunciado pelo perfume que misturou poemas, flor, pele, amizade, confraternização, identificação e chope: o sabor de Poemas à Flor da Pele.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009


PINHEIRO NETO
poetapinheironeto@gmail.com


POEMAS À FLOR DA PELE

A Antologia “Poemas à Flor da Pele”, que teve seu pré-lançamento em Bento Gonçalves, em 8 de outubro, com a presença de diversos Poetas do Rio Grande do Sul e outros estados brasileiros, foi lançada em Porto Alegre, no dia 5 de novembro, no Memorial do Rio Grande do Sul, na 55ª Feira do Livro, prestigiados por familiares, amigos e fãs dos escritores que fazem já fazem parte da Associação Cultural da “Poemas”, que emerge no mundo da arte e da poesia.
Dia 19 de novembro, mais um lançamento foi realizado para divulgar a belissima obra, dessa vez pelos poetas do Rio de Janeiro, no Bar e Restaurante Severina da Glória, num evento que agitou a cidade carioca.
No dia 21, a Associação Cultural foi convidada a reunir-se no Encontro Anual dos Poetas del Mundo, organizado pelo Movimento de São Paulo, na Casa das Rosas, às 18h30min, na Avenida Paulista, 37, Bairro Boa Vista, onde esse ícone da cultura brasileira, que é a Casa das Rosas, abriu-se para os escritores da Poemas que apresentaram sua obra ao público.
Em formato pocket (10,7 cm por 15,2 cm), que é mais fácil de manusear e foi um sucesso na edição de 2008, o livro compila poemas dos integrantes da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, originada no Orkut, em 2006, hoje com mais de dois mil membros.
Para Soninha Porto, editora da coletânea e responsável pela Associação Cultural, os poetas de todos os cantos do País, nas páginas da antologia, “compartilham generosos suas criações, onde se vê a paixão à flor da pele dos laboriosos”.
Nas 387 folhas do livro de capa colorida, o leitor encontrará poemas para crianças, adultos e adolescentes. O grande poeta contemporâneo, Afonso Estebanez Stael, membro da Academia Brasileira de Poesias e incentivador dessa Associação, fez o prefácio da obra, disse que “Poemas à Flor da Pele constitui registro literário de inestimável valor cultural no âmbito da poesia atual. “A poesia de ‘Poemas à Flor da Pele’ é uma forma universal de reinvenção da vida”, escreveu.



TEMPOS PASSADOS (Mickin)

Em tempos passados, acelerava os passos, gastava quase o dobro do tempo acreditando numa saborosa ingenuidade.
Mas nada era verdade!
O tempo foi passando e meus dias foram se arrastando, mas ainda podia sentir que algo no âmago ia se transmutando.
Ainda podia querer!
Sentia que a vida dilacerava minhas visões, não conseguia encontrar vias na dita dilaceração.
Em tempos passados, acreditava ter encontrado a base de tudo que se me fazia amargo.
Acordava em desespero danado!
Buscava conforto na crença de algo intocável, algum sentido favorável, mas era em tempos já passados.
Já não podia mais saber!
Não sabia do que precisava, não sabia dizer, gritar, pedir, objetivar nem ao menos queria crer.
Mirava a foto de alguém que podia me entender, mas isso também não era verdade. Não queria mais crer.
Agora, passo pelo tempo com o mesmo prazer de outrora, já não corro nem grito, agora sei o que fazer:
Esquecer!


DEGUSTAÇÃO DE POEMAS – Sem dúvida alguma: a Feira do Livro de Porto Alegre, mais uma vez “deu um banho”. Organização, segurança, criatividade, rigor, pontualidade, etc. É sempre gratificante participar daquele evento. São 55 anos perseguindo esses e inúmeros outros objetivos.
Ressalto, entretanto, uma novidade além de criativa, muito saborosa: em frente a uma das barracas da feira, moças com luvas e avental serviam, em saladeiras, poemas impressos em papel arroz comestível. O visitante era convidado a ler o poema e depois degustá-lo.




PONTO DO POETA

Quero nunca
Perder de vista
Teus olhos verde-jade,
Tua alma, teu corpo
Tua verdade.

Quero não ser peso
Para o teu coração
Para tuas vontades
Para tua canção

Ofereço em troca:
Meus espectros
Minha demência
Meus monstros
Minha impotência. (Poema Ro I, Pinheiro Neto, pg.276-Poemas à flor da pele)