terça-feira, 5 de agosto de 2014

Edição nº. 62





 PAPO NA CONFRARIA: Maria de Fátima Pavei



1-O que te motivou a escrever?

Lembro-me do Colégio Cristo Rei em Içara e as Irmãs me abraçando e me conduzindo até a biblioteca. Durante alguns anos eu criei histórias infantis para presentear meus familiares e amigos. Tempo feliz! Minha inspiração nasceu destes meus desejos de escrever tão bonito quanto as professoras freiras. Dos 12 aos 20 anos eu lia e decorava alguns poemas de Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu. Fui professora durante 20 anos e meus alunos liam as obras, transformando-as num belo teatro. Algumas delas:  Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto, Os Sertões de Euclides da Cunha, O Primo Basílio de Eça de Queirós.  Aos leitores digo, uma enorme motivação para a escrita são as obras de Pearl S. Buck, Ernest Hemingway, Enrique Vila-Matas e os escritores da Academia Catarinense de Letras.  Não é fácil ser forte e resistir o tempo. Todos os dias preciso escrever e  permanecer desafiadora e provocante até o fim.

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2-Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

"Os Miseráveis" de Victor Hugo," Uma Noite em Paris" de Ernest Hemingway e "A Borboleta de Prata" de Pearl Buck.

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3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)       Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
“Alice no País das Maravilhas” - Lewis Carroll.

b)       Alunos do Ensino Médio
“Memória de minhas Putas Tristes” -  Gabriel Garcia Márquez.

c)        Alunos do Ensino Superior
“Dom Quixote de La Mancha” - Miguel de Cervantes.
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4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Meus momentos de inspiração me conduzem independente de mim mesma. Procuro combater os inúteis, os rebeldes e os prisioneiros. A inspiração me domina completamente e amo a escrita com paixão.
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5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Penso que nós escritores estamos dormindo em nossas casas. Precisamos nos organizar e vencer. Ainda acredito! Somos todos iguais! Vamos criar nossos ritmos e contar histórias novas.
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6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à Língua e à Literatura

As Academias me fascinam e ninguém entrou lá sem amor pela literatura. Enquanto misturam todas as vozes transmitem os mesmos sonhos. Todas dominam versos e  lutam em favor da libertação. Gostaria que a Academia Catarinense de Letras proporcionasse recursos ao seu público. Assim disse Willa Cather “Nada está distante e nada está próximo, quando se deseja”. (The song of my Lark)


Maria de Fátima Silveira Pavei escreveu os livros:“Dois Olhares a Quatro Mãos Falam Daquilo que Ouvem” (coautor - Alexandre Moreira), cuja renda foi revertida a APAE. “Eco de Duas Vozes: Verso & Prosa – Guia da Nova Ortografia” (coautora - Elza de Mello Fernandes) e “Além dos Trilhos do Trem- 1961/2011- 50 Anos de Emancipação Política de Içara". Foi vencedora de dois concursos, de conto com o texto "Alucinada" e de crônica com o texto " A lagartixa e o gato”.  É graduada em Letras, pós-graduada em Linguística Aplicada a Língua Portuguesa, mestra em Ciências da Linguagem e pertence a AILA- Academia Içarense de Letras e Artes. Reside em Içara, Santa Catarina. Lecionou Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Produção Textual em escolas municipais, estaduais, no Colégio Cristo Rei de Içara e nas universidades: UNESC e UNISUL de Santa Catarina.Atualmente é cronista do Jornal Gazeta de Içara e escritora.



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                                            (Arte em café de Michele Espíndola/2014)




DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 4


RAIVA

          
A alma vazia
com falta de assunto.
Dói a solidão
quando nem a esperança
nos faz companhia
e o desalento compartilha
a tristeza em vão.

A loucura não responde
e nossos olhos não cumprem
seu destino de realidade.
Estamos entre
as quatro paredes do mundo,
mas se salvarmos o "eu" da prisão,
salvamos o mundo todo!

(Terezinka Pereira, EUA, emeio, 2014)


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PARA A HORA DO AMOR


Vem devagar, Jardim!
A boca desacostumada,
Ruborizada, bebe jasmim
Feito abelha embriagada,

Que a flor alcança tarde
Ao redor do quarto arde,
Néctar, néctar – roga.
Entra, e em bálsamo se afoga.


(EMILY DICKINSON, Um livro das horas, seleção, tradução e ilustração de Angela-Lago, Editora Scipione, 2007)


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ARRASTÃO

Teu toque, vara de condão,
Acende os meus sentidos
E eu vou num arrastão
Como se uma arpa vibrasse
Uma vela acendesse
E – pavio renitente –
Novamente brilhasse

Essa luz difusa
Oscilante e confusa
Desvairada faminta
E jamais extinta...

Porque tu és o mago
Em cujas mãos me embriago
E lampejante
Me acendo e me apago

(Leatrice Moellmann, Amor nos anos 90, Papa-Livro, 1999, pg. 101)

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BELA


Ela amuada,
não queria nada
nem sabia
Bela, vivendo
não é se partindo
acaba comendo
e não para de rir
acha que a vida é bela
como sempre a Bela que conheci
Então me diz:
o pior é engolir.


(VIVIANE ROUSSENQ, Baton, Shogum Arte, 1986, pg. 38)



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FRACTAL

matizes vermelhos
tecidos em flores
acesos de pecado

nas pétalas
nascem estrelas
invento de mil faces

tons violetas
pulsam nas veias
viram presas

fagulhas planam
nas gotas lilases

borbulham cálices
pingam teias
cheias de rubores

(SONINHA PORTO, doeu, Alcance, 2009, pg.43)



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ENCAIXES

Ando sem música
esvazio minha cabeça
e nela coloco um corpo

Acéfalo!

Busco
e deslizo entre mundos

e...
Se encontrarem um vagante cérebro,
feliz por cometer loucuras,
não me avisem!

Ele pode ser eu.

Carmen Silvia Presotto, Vidráguas, Porto Alegre, 2006.




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VINHO DO PORTO


Do camaleão afoito
parte o porto.
Vem ao cais
buscar sossego, afirmação.

Dançando na garganta
à borda do cálice,
eu respiro.
Tenho seu grito.


(Rita Raphael, Da sedução da intimidade do mundo, Ed. Cepec,1988, p. 15)



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LI E RECOMENDO (6)


O AZARADO TIBERINHO e outros contos


Escrever bem é um desafio. Escrever literatura é um desafio maior. Escrever literatura – prosa – tendo como objetivo o conto é desafio muito, muito maior.

A leitura dos originais do livro que me foi entregue por Antonio Manoel da Silva para apresentação, num primeiro contato, remete para dois momentos distintos.

Toda a primeira parte dedicada às peripércias do “azarado Tiberinho” prefiro considerar como uma “noveleta”, embora o autor tenha decidido caracterizar cada uma de suas partes ou capítulos, como contos.

Nela encontramos a história da personagem principal, Tiberinho, desde seu primeiro contato com o mundo do azar – ainda bebê, foi abandonado à porta da residência do casal que o acolheu – até o momento em que o estigma que o acompanha deixa o contexto rural e embrenha-se pelo mundo das coisas relativas à política social do país, caracterizado pelo trabalho que consegue junto ao IBGE.

São, portanto, onze histórias com a mesma personagem principal e sua trajetória cujos elementos da narrativa, trazem como amarração a sina que o acompanha, a falta de sorte.: Os pais adotivos, O cinto de segurança, O bife a cavalo, O motel, O caixa eletrônico, A prisão, O raio, A antena parabólica, A despedida de solteiro, O vale-gás e O contador de gente.

A segunda parte do livro .reúne seis contos, cada um com características, cenários e personagens próprios. São eles: A vida privada; A amnésia de Oscar; Natal temporal; A tara de Tereza,  Arroz, feijão e leite e O cordão da galinha assada.

Vou valer-me aqui das palavras de Lauro Junkes, ex-presidente da Academia Catarinense de Letras, “a narrativa se consolida quando um ato verbal apresenta um conjunto de ações, movimentos, ou mudanças nas personagens, o que faz com que, a partir duma situação inicial, se processem várias transformações (fatos, episódios, vivências, estados psicológicos, etc.), para chegar-se a uma situação final, que pode ou não oferecer uma solução conclusiva, ações que se desenrolam em determinados lugares e tempos, tudo organizado e apresentado por um narrador, que adota um determinado ponto de vista.”

Podemos vislumbrar neste livro, em cada um dos textos, a presença dos elementos básicos que compõem o corpo de uma narrativa: a) um conjunto de signos, no caso da narrativa literária, as palavras; b) fatos, acontecimentos, personagens que remetem a um mundo, um universo, uma sociedade; c) o escritor/narrador, além da preocupação de querer fazer chegar a narrativa a alguém, a um receptor, a um ouvinte, a um “narratário”.

O escritor/narrador utiliza-se da linguagem culta e do falar “manezês” na construção de cada texto. O registro da fala das personagens procura reproduzir fielmente esse falar, indo às vezes ao extremo no que toca ao registro fonêmico.


Por outro lado, a presença de ingredientes específicos descortina a não uniformidade da língua em cada história construída a partir de relações sociais demarcadas por fatores regionais, culturais, sociais e é claro contextuais, bem definidos. As personagens compartilham do cotidiano lingüístico utilizado por muitas comunidades do interior do Brasil, mormente no que diz respeito ao linguajar “caipira”, caracterizado tão somente pela falta de escolaridade e/ou de oportunidades.


Para justificar o exposto nos dois parágrafos acima,  utilizo-me  do que  o próprio autor coloca no prefácio: que  “foram selecionados 16 dentre os vários contos que já escreveu”;  que “as histórias são relatos de fatos do cotidiano”; que “tais fatos são mesclados com pequenas doses  de humor” e que “qualquer semelhança verificada nos textos e nas personagens com a vida real, seguramente, será mera coincidência”.

Parece-me um caminho muito interessante o escolhido pelo autor destes textos, Antonio Manoel da Silva. Ao lançar-se no mundo da prosa, mais especificamente do conto, optou pela abordagem que privilegia o viés da Sociolinguística utilizando-se de um dos fatores que exercem suas influências para comprovar a grande diversidade de termos típicos da região onde nasceu – o fator regional. VALE A PENA LER!


(Pinheiro Neto, apresentação, 2012)




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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”


“Entre eu e o presidente

Nossa língua não é difícil; os incautos é que a complicam. O caso que vamos ver agora é um exemplo típico desse fato.
Manda a língua portuguesa que usemos pronome oblíquo tônico (mim, ti, si, etc.) depois de preposição:

Ela não pode viver sem mim (e não: sem eu).
Eles quiseram saber tudo de ti (e não: de tu).
Ela só fala de si (e não: dela)

Uma das nossas principais preposições é esta: entre. Sendo assim, depois dela cabe o emprego do pronome oblíquo:

Ela não pode viver entre mim e ti (e não: entre eu e tu).
Eles quiseram saber tudo o que houve entre mim e você (e não: entre eu e você).
Ela só fala da amizade entre mim e o presidente ( e não: entre eu e o presidente).

Eis que um ministro está firmemente disposto a renunciar. O presidente não aceita o seu pedido de renúncia. Em não aceitando, ele fica... Aos repórteres, em seguida, vem a declaração (formidável):
Entre eu e o presidente sempre houve muita amizade. Eu pedi demissão do cargo porque quero ser uma solução, e não um problema.

Ministro, meu caro ministro!”

( Luiz Antonio Sacconi, Gafite, as gafes da atualidade, n. 1, Nossa Editora, abril/87)



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se você gostar de meus poemas...



se você gostar de meus poemas deixe-os
caminhar à tardinha, um pouco atrás de você

então as pessoas dirão
"vi nessa rua passar uma princesa
em seu caminho de encontro ao amado
(na direção do crepúsculo)
seguida por seus criados altos e ineptos."

           (E.E. Cummings, tradução de Silveira de Sousa, 2014, enviado especialmente para este blog)



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BELÔ POÉTICO DEIXA SAUDADES E LIÇÕES


 O Belô Poético deixa saudades e lições de que é possível empreender cultura e literatura com cooperação, mais calor humano que capital, mais positividades que poderes, no âmbito dos indivíduos e sociedade civil.

Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão, escreveu:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis

Durante um decênio, o Belô Poético contou com esses três tipos: houve aqueles que ajudaram num episódio e foram bons, houve aqueles que integraram comissão organizadora ao longo do ano, e esses foram melhores. Houve ainda aqueles que desde 2005, quando do 1º Belô, ajudam na organização, e esses foram muito bons. E há pessoas como Rogério Salgado e Virgilene Araújo, que lutam a vida inteira, esses são imprescindíveis. 

Muitos de nós, somos “carona”, usufruindo do esforço alheio, mas me consola saber que engajamento não se obriga e que todos somos seres em evolução moral. Em breve relato, o poeta Rogério Salgado nos contou sobre caso exemplar, que explicita bem a responsabilidade de cada um. Certa vez, foi organizado um sarau com o objetivo de arrecadar donativos, apareceu um ou dois poetas; mas quando se organizava um sarau convencional, com pompa e aplausos, abundavam.

O Belô passa uma lição que serve para todos os grupos literários, qual seja, de que por mais que haja uma injustificada competição, neste precário campo das letras, ela nunca será melhor que a cooperação, o congraçamento literário, afetivo, humano, que é besteira brigar por migalhas, que estamos no mesmo barco, e que é melhor matar saudades que favorecer disputas e desgastes, sem também forçar amizade.

Outra lição é que, de fato, há ciclos na vida, assim como há ciclos naturais, de forma que um fim nunca é um fim em si mesmo, mas o começo de algo novo. É isso o que quis transmitir o palestrante Paulo Pina, na abertura do 10º Belô Poético, em oratória impecável de linha humanista-cristã, que muito me agradou. Ao longo da vida, trocamos de pele, renovar é um movimento irresistível, a fim de manter a saúde.

O Belô serve de exemplo de que é possível empreender efemérides, publicações, solidariedade, através do cooperativismo artístico, onde todos saem sentindo-se engrandecidos e realizados. Dado o exemplo, agora, cada um de nós pode caminhar com as próprias pernas, sendo a autonomia do indivíduo outra lição do Belô. Ensinar a pescar e engravidar possibilidades, como diz o poeta Diovani Mendonça, homenageado na abertura do evento, assim como Severino Iabá, multiativista.  
Como se não bastasse, outra lição do Belô é da importância do intercâmbio cultural com movimentos, grupos e pessoas de outras cidades, fora do nosso espectro geográfico-mental. É uma forma de desengessar o olhar, arejar a cabeça, conhecer novas culturas, experiências, possibilidades, sendo o último dia de todos os dez episódios do evento, dedicado a um passeio fora de Belo Horizonte, com saber e sabor.

O aspecto humano também é importante ser ressaltado: o Belô Poético, geralmente chamado de “evento”, sempre foi mais do que isso, isto é, ele nunca foi efêmero propriamente, mas sempre uma continuidade de uma irmandade poética, um constante reencontro de poetas esperado todos os anos, algo que durava dentro de cada um. Também não era mais um evento fast-food (acabou, passou), estandardizado, espetacular, mas poroso às contingências e sensibilidades, mais humano. Os participantes, ao final, senão transformados, saíam sensibilizados, solidarizados, irmanados. Já os organizadores, cansados, mas cansaço bom, de quem travou o bom combate, que merece nosso apreço e compreensão.

A melhor forma de ser fiéis ao espírito emanado do Belô Poético, talvez seja aprendermos a caminhar com as próprias pernas como indivíduos e sociedade civil; cooperados, que isolados nada realizamos; arrefecer egotismos e cultivar virtudes; sair do comodismo atrofiador, obrar o bem. Tempo foge, vida passa, ‘vai a idade’, o Belô nos deixa sim saudades, mas também exemplo aos nossos empreendimentos e desdobramentos presentes e futuros.

 (Vinícius Fernandes Cardoso, Poeta, 28/07/2014, por emeio)




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DA SÉRIE  “REPASSANDO”


 DEVERIA SER LIDA EM TODAS AS SALAS DE AULA.

        

 Um aluno que teve seu celular tomado pelo professor não será indenizado.
 O juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, no interior do Sergipe, julgou improcedente um pedido de indenização que um aluno pleiteava contra o professor que tomou seu celular em sala de aula. De acordo com os autos, o educador tomou o celular do aluno, pois este estava ouvindo música com os fones de ouvido durante a aula. Segundo o site Migalhas, o estudante foi representado por sua mãe, que pleiteou reparação por danos morais diante do "sentimento de impotência, revolta, além de um enorme desgaste físico e emocional".

Na negativa, o juiz afirmou que "o professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe". O magistrado se solidarizou com o professor e disse que"ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma".

 Eliezer Siqueira ainda considerou que o aluno descumpriu uma norma do Conselho Municipal de Educação, que impede a utilização de celular durante o horário de aula, além de desobedecer, reiteradamente, o comando do professor. Ainda se considerou que não houve abalo moral, já que o estudante não utiliza o celular para trabalhar, estudar ou qualquer outra atividade. "Julgar procedente esta demanda é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os 'realitys shows', a ostentação, o 'bullying' intelectivo, o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira", declarou.

Por fim, o juiz ainda faz uma homenagem ao professor. "No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro herói nacional, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu 'múnus' com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor".

(Site Migalhas, 2014)



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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn





Não sonhes,
não sou herói
não abato moinhos
não conquisto cidades
não venço batalhas;
sou fraco
com [de]feitos.

Não te iludas,
vou pecar mais
a cada novo tempo;
vou ser covarde sempre,
vou negar Deus e tu
mais de três vezes.

Não sonhes,
procuro a segurança
nos ventos,
o amor na descrença,
a certeza no vazio.

Não te iludas,
sou apenas eu:
vícios, medos, perguntas.


(In [ser] teza, Pinheiro Neto, A rosa do verso, 1988, p. 20)







segunda-feira, 7 de julho de 2014

Edição nº. 61







PAPO NA CONFRARIA-pn: VINÍCIUS ALVES



     1 - O que te motivou a escrever?

Lá em casa sempre teve muito livro (o velho é escritor) então foi quase uma consequência. Mas tinha muito quadro também, e não sou de plástico. Desde muito cedo as palavras me impressionaram muito, então não teve jeito.

2        2-    Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

Ulisses, James Joyce
Grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa
O jogo de amarelinha, Julio Cortázar
Deixa mais um?
Catatau, Paulo Leminski

   3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:
   a)      Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
   b)      Alunos do Ensino Médio
   c)      Alunos do Ensino Superior


Para a), b) ou c) qualquer livro de Paulo Leminski

4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Não tenho processo. Posso estar lendo um jornal, um livro, escutando música, vendo tv, dormindo inclusive e algo pinta na cabeça: uma letra, uma palavra, uma frase, um treco qualquer que me faz correr pra caneta. Ainda sou desse tempo. Depois vai pro computador já bem diferente. Daí esqueço e às vezes volto pra ver como ficou. Então mexo e remexo. Se gostar, fica. Se não, jogo fora e começa tudo de novo.

4     -  Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Não entendo bulhufas disso, mas não confio muito nem em público nem em privado em se tratando de qualquer tipo de arte.

5     Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

Não confio em nenhuma sociedade que me aceite como sócio. Sou grouxomarxista de carteirinha.


( Vinícius Alves é escritor e editor em Florianópolis/SC.)



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DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 3





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 BICHO ESQUISITO

Sou bicho esquisito.
Tantas vezes, já
perdi o sono,
já perdi
o senso,
já perdi
o rumo.

Sou bicho esquisito.
Tantas vezes, já
afiei o bico,
já mordi a língua,
já troquei o couro.

Sou bicho
sou esquisito,
sou cobra, sou passarinho...
Na verdade,
sou só uma mulher.

(Telma Lúcia Faria/SC, junho 2014)


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METAMORFOSE

Quero sentir em ti
a espontaneidade emergente
das coisas puras e simples,
dos gestos perdidos na incompreensão dos dias.
Ver-te por alguns instantes,
nu do teu eu aprisionador,
do teu condicionamento,
liberto das amarras!
Para guardar-te como recordação perfeita,
na moldura de um quadro
que não se esquece jamais.

(Silvia Amélia /SC./ Poemas no tempo, Edições Sanfona, 1985)



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O QUE IMPORTA

O meu medroso hímen – oh que pena
não teres sido tu que o golpeaste

o que importa porém veio depois
o que importa foram as labaredas
que soubeste atear em meu pudor
       foram aquerlas noites desvairadas
       de carne e de alma conjugadas
       a vararem três lúbricos decênios

o que importa, amor, é este himeneu
- sem os ritos falazes do primeiro –
Que juntos celebramos tu e eu.

(Maura de Senna Pereira/ SC, 1904/1992. Sete poemas de amor, Edições Sanfona, 1985)


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SINGELO

Singelo
são os gestos
e o olhar

As mãos
que tocam
o copo

E vibram
no corpo

Como
as ondas

A dança
do mar

Singelo
são os
gestos

Das gotas
na areia

Do passo
da bruma

Que cobrem
os cabelos

(Indiara Nicoletti Ramos/SC/mimeo/2013)



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Todo mês

sangro.
todo mês
sinto a dor do terceiro filho.
aquele que ainda não pari.
há muito ele finge que vem,
mas é fingimento
que dura o tempo exato da próxima dor
no próximo mês.

(Mariza Lourenço, Face book, 19/06/2014)


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clima tropical
mãos escrevem com medo
sangue no jornal

tropicalismo
sons canções revoluções
papagaismo

Hemisfério Sul
Secasenchentesecas
carcará azul

sem as estações
como vou equilibrar
minhas emoções?

(Silvia Rocha, em Poesias “só pra dar bandeira”, 16/05/84, Oficinas da ‘de Cristofaro & cia. ltda.’, SP)
            


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SANGUE VERDE ─ ROMANCE SEM SIMILAR NA LITERATURA

                                                                                             

            O romance é uma espécie da ficção ou da narrativa que não dita regras rígidas para a sua composição. Entretanto, a maioria gira em torno de núcleos dramáticos limitados e de assuntos mais ou menos distintos, a fim de que a narrativa não se perca em emaranhados e peque por excesso de direções temáticas que dificultem a percepção do leitor. Mesmo romances extensos, tipo Grande sertão: veredas ou A montanha mágica, possuem personagens e assuntos que se desenrolam por toda a narrativa, mesmo que carregada de densidade metafísica. Não é essa, porém, característica de Sangue verde, romance de David Gonçalves, em que a narrativa, além de envolver um elevado número de núcleos dramáticos, não possui poucas personagens sobre que recaia a atenção do narrador, como vemos em Grande sertão: veredas. Em Sangue verde, os inúmeros núcleos dramáticos se devem à complexidade dos problemas abordados, uma vez que, grosso modo, toda a vida brasileira é devassada, pois toda ela está implicada com o sangue verde.

            Ao ambientar-se no cerrado e na Amazônia, o romance aborda problemas típicos dessas regiões, ressaltando o garimpo que, embora já explorado por outros ficcionistas, como Herberto Salles e Eli Brasiliense, apresenta-se inteiramente novo, à medida que o interliga com o desmatamento e a grilagem de terras indígenas. As personagens se multiplicam em consonância com os episódios que as envolvem, exigindo do narrador verdadeira ginástica mental, a fim de que as inter-relações entre eles se mantenham, sem que padeçam de continuidade. Para mais mostrar-se grandioso na arte de narrar, fatos e personagens também se interligam, com a finalidade de não se tornarem estanques. Em decorrência, determinados índices, como a transferência de Padre Miguel, a despeito de ser narrado em capítulos próprios, são entrevistos em diálogo entre o fazendeiro, Bambico, e sua esposa, Clarice, e entre ela e a filha Emanuela.
     
            Dos problemas peculiares às regiões amazônica e de cerrado desprendem-se, como uma espécie de epidemia que se alastra por todo território nacional, todas as mazelas típicas desse tempo, como corrupção, pedofilia, pederastia, tendências religiosas pautadas pela exploração da boa fé do povo, desmandos provenientes das diversas faces dos poderes legislativo, judiciário, executivo. Em decorrência da multiplicidade de aspectos abordados, a técnica narrativa também se desenvolve em células que se multiplicam e se interligam, em uma espécie de teia de aranha, em que os fios carregam a seiva, venosa e venenosa, por toda extensão do narrado. Desse modo, acontecimentos suspeitos, como o assassinato do senador Justino, são retomados, en passant, na eleição de Bambico, sem que o episódio se esclareça, como se fosse apenas uma gota do veneno que viesse à tona, a fim de obrigar o leitor a manter-se ligado ao fio da teia dos fatos. Trata-se, sem dúvida, de uma técnica inusitada de narrar, uma vez que os núcleos dramáticos se interconectam de forma sutil, proveniente de uma relação aparentemente tênue e, às vezes, até ocasional, como ocorre no episódio em que juiz e delegado vão ao quilombo, à procura do assassino do ribeirinho, que se parecia resolvida; mas que reaparece, a fim de mostrar a morosidade e, sobretudo, a ineficiência da justiça, e, notadamente, o fio narrativo, que se mantém ativo.

            A estética do romance, além de centrar-se sobre essa técnica singular de narrar, ainda se erige sobre todas as formas do riso, caminhando desde o sutil humor, que tem sua origem em Stern, e adotado e refinado por Machado de Assis, passando pela ironia, pela sátira, até chegar ao sarcasmo, verificado, por exemplo, na concepção que Rossmac tem dos chamados pesquisadores de gabinete, ou nas esperanças que Bambico deposita em Juquinha como homem e futuro administrador de sua fazenda. Assim, à semelhança do que ocorre na obra de Machado de Assis, tem-se a impressão de que o narrador, ao registrar os acontecimentos nas teias do discurso, está sempre rindo e, às vezes, até gargalhando, do fato narrado, mormente quando se refere ao desmatamento e ao sonho de enriquecimento fácil e, notadamente, quando se relaciona com os poderes legislativo, judiciário e executivo. A sutileza com que desvenda a vida de Justino, após seu assassinato, mediante a presença da Constituição, da Bíblia e de um crucifixo em sua bagagem, torna o relato verdadeiramente cruel, uma vez que a outra bagagem, composta de fotos que comprovam o seu lado depravado, pautado pela pedofilia, demonstra a sua completa devassidão e sua inteira hipocrisia. Quer ironia maior que a descoberta feita por Bambico de que o verdadeiro ouro se encontra em Brasília e, não, nos garimpos, o que o leva a aceitar candidatar-se, sem qualquer experiência política, a senador da república?

            Mas, há uma ironia intrigante, ao falar do judiciário e colocar como personagem o juiz Rodolfo, que, em meio a tantos desmandos e conluios, faz cumprir a lei. O cumprimento da lei, dadas as circunstâncias do espaço em que ele ocorre e, sobretudo, dados os acontecimentos nacionais, pode figurar como uma alegoria de um certo juiz do STF ou como refinada ironia, à medida que todos os fatos relacionados com a violência estampados no romance, inclusive a violência urbana, ocorrida com a família de Doca, deixam entrever que as leis existem apenas no papel e que fazê-las cumprirem-se é, muitas vezes, um suicídio. Esse é, sem dúvida, um dos golpes de mestre desse singular narrador que, inclusive, se duplica, ao ponto de se poder ler e ouvir sua voz conectada à voz de determinadas personagens, como ao narrar os sentimentos de Doca em relação a Matildes, à página 339. 

            Ademais, a narrativa de Sangue verde procede a uma inusitada união entre o real e o imaginário, a fim de que o imaginado se sobreponha à realidade, ou com ela se equilibre, objetivando a instauração do ficcional e do estético, cristalizados mediante o caráter metafísico da linguagem que, por mais próxima que esteja do real, transubstancia-o e converte-o em objeto de imaginário. É exatamente por isso que o narrador não se furta, quando necessário, ao uso de expressões populares, de modo especial as cristalizadas pela cultura, como provérbios e ditados. Esse procedimento visa a mostrar a verdadeira identidade das personagens, em sua maioria voltadas para a matéria, uma vez que pensam apenas o lucro, o enriquecimento ilícito, como se verifica pela exploração do garimpo por parte do Pastor e, nomeadamente, pelo fato de ele espoliar os garimpeiros que bamburram, ou pela verdadeira escravidão instalada por Bambico em sua fazenda.

            Portanto, segundo nossa leitura crítica de Sangue verde, podemos afirmar que se trata de um romance ímpar, que não encontra similar na literatura brasileira, uma vez que encerra, em sua construtura, um momento histórico da vida brasileira que, de outra forma, não seria devidamente cristalizada em linguagem e em discurso ficcional. Além disso, é um romance ímpar, inusitado em nossas letras, pela forma singular de narrar, em que os fios narrativos ramificam-se ao extremo, sem, entretanto, perderem-se no subsolo do discurso narrativo, uma vez que, ao final, todas as pontas se esclarecem, clara ou sutilmente, como o requer uma grande obra de arte narrativa.

            A grandiosidade estética de Sangue verde, todavia, só pode ser sorvida pelo leitor que proceder a uma leitura atenta, que se fará somente pela história ou que a aliará ao lado estético que ela encerra e que, certamente, será responsável pelo imensurável prazer do ler.   

(José Fernandes, doutor em Letras pela UFRJ e membro da Academia Goiana de Letras.)



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                                            (Arte em café de Michele Espíndola/junho/2014)




COMO NASCE UM BOATO (crônica)



Sempre gostei de saber  a origem dos fatos, seja de uma cidade, um bairro, enfim, como nascem as coisas que nos cercam. Acho fascinante o resultado de uma junção de elementos simples que acabam formando um final útil, aproveitável ou, até, romântico. Por outro lado nascem, também,  amontoados de maldade e inveja que podem destruir relacionamentos.

Numa mesa, com algumas cervejas a mais, um grupo de amigos cruzam conversas com os mais controversos assuntos: Copa, brincadeiras picantes, algumas piadas idem e cantorias marcam o clima de camaradagem. Em certo momento, um deles,  em off, inicia comigo um assunto muito delicado, onde insinua o envolvimento amoroso de uma bela mulher ( que nós dois conhecemos)  com um personagem de relativa projeção.

“ Dizem que o Fulano está apaixonado por ela e já está separado da mulher(mentira). Mas ela, a Beltrana, é muito linda e... Aquele tipinho angelical deixa qualquer homem fora de si” (olha o despeito explícito) - e por aí foi comentando sobre os dois ‘amantes’, pedindo minha opinião.

Meu confidente demonstrava, pelas observações que fazia a respeito dos dois supostos adúlteros, que esperava que eu desse uma opinião maldosa, para fortalecer seu trabalho sujo. Sua atuação, no entanto, não foi tão sutil como ele pretendia.

Mesmo seguindo o ditado que aconselha a “não botar a mão no fogo” por ninguém arrisquei queimar as minhas duas... Conheço razoavelmente o casal em questão e não quis alimentar a maldade, que estava quase que explícita. Fui sincera com o melífluo caluniador dizendo-lhe não acreditar e, inclusive, pedindo para que ele dissesse quem levantou o grave fato de adultério.

Sem respostas, obviamente a fofoca morreu no nascedouro, pelo menos no que me envolve, mas se eu souber que houve um comentário sobre esses dois, prometo desmanchar o boato e denunciar o caluniador...



(Ivonita di Concílio/SC, escritora, membro da Academia Desterrense de Letras,  08/06/2014)

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DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”




SENTAR NA MESA

“Existem várias maneiras de uma pessoa sentar-se (note: sentar-se – o pronome é obrigatório): uns preferem sentar-se na mesa (em cima dela), revelando, assim, falta de educação, de civilidade e de respeito; outros, seres humanos respeitáveis, preferem sentar-se à mesa (junto a ela), para poderem, então, almoçar, jantar, tomar café e, muitas vezes, - por que não? – discutir pactos (desculpe – entendimentos) sociais...

Vamos ler, então, para acostumar olhos e ouvidos:

Quando eu me sentei à mesa, logo de manhã, para tomar café, minha mulher já começou a reclamar.
Quando  nos sentamos à mesa para almoçar, minha mulher continuou a reclamar.
À hora do jantar, quando ela se sentou à mesa, eu me sentei na mesa, em cima da branca toalha, e, resoluto gritei: VIVA A NOVA REPÚBLICA!!! E, então, ela parou de reclamar...

Como se vê, o verbo é mesmo sentar-se, seja em, seja a algum lugar. Houve um dia, porém, que uma excelsa figura ocupa uma cadeia de rádio e televisão e dispara um convite:

Convido os trabalhadores para sentar na mesa, a fim de chegarmos a um entendimento.

Os trabalhadores atenderam ao convite, sentaram-se à mesa e – saíram decepcionados ...

Nunca é demais repetir: gente civilizada, educada, senta-se à mesa. Ou então, ainda não somos...”

(Luiz Antonio Sacconi, Gafite, nº. 1, Nossa Editora, São Paulo,abril, 1987)





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DA SÉRIE “PARA [SÓ]RIR”


CÓPIA DA CÓPIA MULTIPLICA O ERRO!


“Um jovem noviço chegou ao mosteiro e logo lhe deram a tarefa de ajudar os outros monges a transcrever os antigos cânones e regras da Igreja. Ele se surpreendeu ao ver que os monges faziam o seu trabalho, copiando a partir de cópias e não dos manuscritos originais.

Foi falar com o velho Abade e comentou que, se alguém cometesse um erro na primeira cópia, esse erro se propagaria em todas as cópias posteriores. O Abade lhe respondeu que sempre fizeram assim, há séculos copiavam da cópia anterior, na verdade desde o início da Igreja, para poupar os originais. Mas admitiu que achava interessante a observação do noviço.

Na manhã seguinte, o Abade desceu até às profundezas do porão do mosteiro, onde eram conservados os manuscritos e pergaminhos originais, intactos e com a poeira de muitos séculos...

Pois passou-se a manhã, a tarde e a noite, e ninguém mais vira o Abade. O último que o vira informou que ele estava indo em direção ao porão.

Preocupados, o jovem noviço e mais alguns monges decidiram procurá-lo. Nos labirintos do mais profundo e frio compartimento do porão, encontraram o velho Abade completamente descontrolado, tresloucado, olhos esbugalhados, espumando e com as vestes rasgadas, batendo com a cabeça já ensanguentada nos veneráveis muros do mosteiro.

Apavorado, o monge mais velho da turma de busca perguntou:
- Mas, Abade, pelo amor de Deus, o que aconteceu?
 - IMBECIL! IMBECIL! IMBECIL o primeiro copista!!! Desgraçado, que arda no Inferno! CARIDADE!!!!! ...
Eram votos de CARIDADE que tínhamos que fazer... e não de CASTIDADE!!!...”

(retirado do face book/autor desconhecido)



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CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn




Findo o ato
completador
tentamos dormir
[ex]tenuados
fingimos sonhar.

E te deixas
sonambular
e procuras teu sono
escasso,
rarefeito.

Tocando teu corpo
sentindo teu cheiro
tentando adentrar-te
pensamentos
sentidos
que és,
te olho, te penso, te grito
e volto a esconder-me
na noite
de mim mesmo.


(Tu [o não eu], Pinheiro Neto, A rosa do verso, p. 25,1988)