sábado, 7 de junho de 2014

Edição nº. 60










PAPO NA CONFRARIA: JOÃO CARLOS MOSIMANN



1 - O que te motivou a escrever?
A prática da leitura na juventude é que acabou me motivando a escrever, inicialmente ensaios em jornais acadêmicos e, posteriormente, em revistas especializadas. Os livros vieram depois, normalmente fruto do trabalho de garimpo de arquivos e documentos históricos. Meu primeiro livro tratou de um caso criminal célebre que me intrigava desde minha adolescência e que implicou numa profunda pesquisa sobre os fatos – Tragédia e mistério na Villa Renaux.

2- Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?
Demian, de Hermann Hesse, que influenciou toda minha geração, ambientado em lugares da Alemanha e da Suiça que fiz questão de conhecer pessoalmente. Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, uma viagem sentimental aos anos vinte, quando todos os caminhos levavam à capital francesa e O Processo de Franz Kafka, o humanismo do autor diante dos absurdos do aparelho judicial.

3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)      Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries) - Os meus fantasmas de Eglê Malheiros;
b)      Alunos do Ensino Médio - Mares e Campos de Virgílio Várzea;
c)      Alunos do Ensino Superior - Rocamaranha de Almiro Caldeira


4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

É natural e espontâneo, faz parte da rotina de vida, ativado pela memória ou pela observação dos fatos. Anota-se em qualquer papel e posteriormente desenvolve-se a ideia ou aprofunda-se a pesquisa. Complementa-se com informações através das novas mídias, utilizadas também na aquisição de obras, antes inacessíveis. Compro livros e garimpo documentos na Espanha, em Portugal, na França, na Austrália, sem sair de casa.

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.
O setor público faz o que pode, mas nem sempre é criterioso. Embora tenha evoluído com a criação de alguns prêmios e editais, não há regularidade e depende sempre do caixa do Tesouro. Já o setor privado oferece oportunidades que, pelo que observo, não têm sido muito exploradas. Felizmente não tenho tido problemas no patrocínio de minhas pesquisas e livros.

6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?
Cultivar a língua vernácula é seu papel primordial. Defender os valores da cultura, especialmente no campo literário, é sua missão estatutária e não menos importante. Resta exercê-los.

  
Engenheiro, professor e historiador, nascido em Brusque (SC), dedica seu tempo à pesquisa histórica, exercitando-a através da crônica, do ensaio e da crítica cultural e historiográfica. Colabora em jornais diários e em revistas especializadas. Autor do livro Tragédia e mistério na Villa Renaux, publicado em 2.000 pela Editora Insular, reeditado em 2.006. Concentrou esforços na pesquisa das incursões de navegadores europeus à Ilha de Santa Catarina no século 16, compondo a obra intitulada Porto dos Patos – A fantástica e verdadeira história da Ilha de Santa Catarina na era dos descobrimentos, editada em 2.002, em coedição com a Fundação Franklin Cascaes e reeditada em 2.004 (Ed. Autor). Em 2.003 publicou o livro Ilha de Santa Catarina - 1777-1778 – A invasão espanhola, com o apoio cultural da Tractebel, garimpando pioneiramente toda a documentação espanhola e portuguesa sobre aquele importante evento histórico. A mais recente obra, Catarinenses – Gênese e História, foi agraciada com o Prêmio Elisabete Anderle da Fundação Catarinense de Cultura, o prêmio de Personalidade Literária do Ano de 2.010 da Academia Catarinense de Letras e Artes e o Diploma de Mérito – Categoria História de 2.010 da Academia Catarinense de Letras. Sua última obra, Os aviadores franceses, a América do Sul e o Campeche, foi editada em 2012.



x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x


HOMENAGEM AOS NAMORADOS: 12/06/2014






MARAVILHOSO POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA



A minha melhor lembrança é este instante no qual
pela primeira vez me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e é quase banal.
Agora que te tenho em minhas mãos e sei
que teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
E teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei.
Agora que não mais me és inédita, agora
que compreendo que tal como te vira outrora
eu nunca te verei.
Agora que de ti por muito que me dês
já não me podes dar a impressão que me deste
a primeira impressão que me fizeste
louco talvez.
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
e cedo ou tarde te verá pálida e linda
pela primeira vez.


(Guilherme de Andrade e Almeida, nasceu em Campinas em 1890. Seus principais livros de poesia são Nós, 1917; A dança das horas, 1919; A frauta que eu perdi, 1924; Meu, 1925; Raça, 1925; Acaso, 1938; Poesia vária, 1947. Toda a poesia, em seis volumes, foi publicada em 1952.)




X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X




POEMA: ESCRITA E LEITURA


" Na prática poética, use o seu ouvido. Para os poemas sem versos, use também o olho. Sinta as pulsações. Leia poemas em voz alta. Poema seus. E de outros. Grave no gravador. Ouça. Ouça. Torne a gravar. Ouça. Compare. Se precisar de mais de uma voz, chame os amigos.
O ritmo é uma sucessão ou agrupamento de acentos fracos e fortes, longos e breves. Esses acentos não são absolutos, mas relativos ou relacionais - variam de um caso para outro. O ritmo tece uma teia de coesão.
O ritmo pressupõe um jogo fundo/figura. No caso do som, o fundo é o silêncio. O contra-acento é a pausa. Trata-se de um silêncio ativo, não passivo e neutro. O silêncio é parte integrante da música e poesia. "

(PIGNATARI, Décio. In: O que é comunicação poética, 9. Ed. Ateliê Editorial - 2005. p.22.)




X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X


DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 2








SUPLEMENTO DOMINICAL

Jornal de Domingo
O "mengo" jogou
O Sol fez um gol
A cidade se derreteu
Que pena você sozinha
Chorando lá na quarta geração.
Nasceu um menino
A mãe passa bem
Do pai não se fala
Nasceu um destino
Tem tinta e tem sangue
Na cara de mau
Ferida de bala de um marginal.
Mil barracas de feira, barracas de praia
Mil barricas de chopp, mil pernas pro ar,
Mil e um predicados nos classificados
E biquinis milhares correndo pro mar.
No segundo caderno alguém se entrevista
Entre a crista do dia
E a vida real.
Mostra a moça que mostra
O produto do meio
Um sorriso gigante de creme dental.
Amanhã o comércio vai abrir as portas
Liquidação, oferta de temporada.
Vai o mar de Domingo 
Invadir a semana
E outra vez a cidade
Será liquidada!

(Valeska Cabral/RJ/ poema premiado, Concurso Poesia na Escola 2013, CIEP Posseiro Mário Vaz)

*************************************************


CACHORRA


Modelos impossíveis
Eu correndo atrás do vento
Eu dando volta em torno
Do meu próprio rabo

Uma cachorra louca
Em alta dose
Sem remédio
Homeopático

As visitas assustadas
Com tanto latido
Com tanto pulo
Com essa alegria órfã

Que sem retorno
Arranha pernas
E tem o sangue
Dos carrapatos.

(Adriane Garcia/BH, Face book, maio/2014)

***************************************************


BALSÂMICO



o aroma que vem com você
___ artemísia
alecrim

reino que é pimenta picante
coentro
poró

raiz forte
_ quando a noite cair

e se o sal escorrer da retina
e a névoa 
o olfato alterar

< salvianis >




(Cláudia Gonçalves/RS,  Face book, 10/05/2014)




************************************************



DESAFORO

no outono
destoo
do todo


perco o tino
adquiro tutano
saio do tom


desafio
o destino


:


se for homem
vem comigo
ser flor

(Valéria Tarelho, SP/Face book, 23/05/2014)

****************************************************

REPETIÇÃO 

              
A vida leva tudo
para o passado.
Embora a repetição
pareça com o que já vivemos,
o presente carrega
uma experiência de valor.
A coragem para ver o futuro
 é pura questão de vontade.
Quando a vida está suja,
limpamos outra vez.
O amor é volúvel,
até mesmo na recuperação.
Mas a química do amor próprio
deve ser o maior tesouro
na vitória da vida toda!

(Terezinka Pereira/EUA, Emeio, 31/03/2014)


*************************************************************



ESCRITURAS NO CORPO


Vem passear em mim
escreve teus versos 
letras versais 
na tua língua 
justificado no corpo
recua, apaga
percorre o espaço
saboreia o caminho das estruturas
o alinhamento
leia a primeira sílaba, 
mas ao ler a segunda
faz devagar 
prova o gosto da textualidade
leia em mim


(Cristina Martins Branco/RS/Face book, maio/2014)

******************************************************

RECADO

Devolva-me aos poucos,
as poucas coisas do além-portão:

o vermelho do antúrio que me corava,
a canção do pássaro detetive na varanda,

os cinquenta por cento da manta que nos cobria
e também minha atlética alegria.

Ah... e desta matemática tola.

(Damáris Lopes, Poemas à flor da pele, vol. 7, 2013, Somar)



******************************************************




 SEIVA 
                 
         
             Caminho na larga avenida
     
             nessas horas de maio
   
              com restos de verão

           
              A natureza derrama
      
              tanta cor
              
              tanta graça

            ( Apesar das desgraças ! )

             
            que tenho a ilusão
    
            de que os desacertos
            
            do mundo 
            acertaram-se aqui .
             
           (Tânia Francalacci Shambeck/SC, abril/2014) 
            
            



X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X




HUMILHADO E OFENDIDO (crônica)


Esquece o Dostoiévski...
Vários fatores me fizeram vir para a cidade onde estou. Todos os meus ancestrais saíram daqui e voltei. Sou apegado à família. Basta dizer que tudo o que faço gira em torno deste núcleo sem o que, acredito, pouco faz sentido.
Aluguei uma casa (até construir a minha do meu jeito) e logo pedi para o proprietário por grades nas janelas. Ele afirmou que aqui não havia problemas, jamais no tempo em que habitou o lugar houve sequer um indício de violação de domicílio.

Consegui com muito custo incluir uma grade em uma das laterais da casa para nivelar com o conjunto que dava no portão eletrônico.

Talvez ele estivesse certo, nos 26 meses anteriores parecia o paraíso.
Eis que depois de uma semana ausente chego em casa num domingo, 17h30min na expectativa de ver o meu clube jogar e terminar um período que tinha sido muito bom junto com a família.
 
Para surpresa minha, encontro uma das portas lateral escancarada e luzes acesas, a janela da cozinha arrombada... Tenha calma, penso... Todas as gavetas da residência estavam abertas, colchões revirados, roupas amontoadas em cima das camas, do chão... Um caos... Uma vistoria breve, a constatação das perdas e aquela sensação de impotência. 

Esqueço o jogo e vou atrás da polícia. Eles são rápidos e prestativos. Fizemos o Boletim da Ocorrência, o de praxe...
 
Depois, aquele vazio... Nunca me senti tão desgraçado na vida... Não é pelo que me furtaram, televisão, celular... Matéria, enfim... É pela invasão do meu mundo, do meu canto... Pela sordidez da ação... E quando me perguntam do que sinto falta, digo logo, meus amigos, é da esperança... Nada mais infeliz do que perder a esperança... A crença em nosso semelhante...

No dia seguinte me surpreendo pondo uma corrente e um cadeado em todas as janelas da casa... Não contente, contrato uma empresa de segurança e incluo um sensor em cada dependência interna e também um monitoramento na parte externa...

Ontem pela manhã enquanto tomava o café observei com olhar vago, aquela corrente na abertura em frente, em situação normal a janela estaria aberta, e fui tomado por um desespero doentio... Como então, eu estava me acorrentando em meu próprio domicílio? Estava preso, amedrontado, cético, descrente, tentando dominar uma energia interior que me poderia converter em um ser violento semelhante a tudo o que sempre combati em vida... Que sensação era aquela? 

Acordo de madrugada com a solidão dos malditos, dos desesperados... Sinto todo o absurdo da existência... Observo no criado mudo, os três volumes dos Cadernos do Camus, o intérprete do que estou sentindo na carne... Forço o riso, a histeria do filho que perde a mãe e tem vontade de urrar em seu velório... Estou na cama onde o assaltante da véspera, buscando recursos para coroar-lhe o vício, espalhou uma caixa de fotografias de família e lembro-me de uma, um instantâneo de minha mãe sorrindo, jogada ali em cima, afastada das outras... E ainda resistindo à insanidade, apanho aquele retrato e já não tenho mais ternura na voz, apenas uma vontade de confessar (quando me lembro dos meus pais): como estamos piorando o mundo que vocês nos deixaram!


 (Olsen Jr./SC, Diário da Província, 25/maio/2014)







X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X



LI E RECOMENDO (6)




A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS  (Yasunari Kawabata)

Sucesso de público e crítica no mundo inteiro, A casa das belas adormecidas, é um marco da literatura japonesa e mundial. Publicado pela Editora Estação Liberdade, de São Paulo, em 2004, com tradução do japonês Meiko Shimon, com 124 páginas, “foi citado na epígrafe de Memória de minhas putas tristes” do recém falecido e recomendado por duas vezes por mim, neste espaço, Gabriel Garcia Marques, “ e fornecido o mote a partir do qual Gabriel pôs fim a um período de dez anos longe dos romances”. Foi exatamente por isso, e por não conhecer a obra de Kawabata é que saí como um louco atrás de tal “Casa”. Encontrei-o apenas num sebo. Livraria alguma de Floripa possui um único exemplar.
É objeto de consenso na crítica literária mundial que Yasunari Kawabata descreveu com meticulosa concisão as profundezas da alma feminina e revelou o corpo da mulher em seu mais sutil esplendor. Dono de uma capacidade de observação única, nenhum detalhe, nenhuma verdade escapam de seu olhar incomum. Especificamente nesse romance, Kawabatta dedicou-se obsessivamente a esta marca de sua literatura. Imbuído do matsugo no me, que talvez pudéssemos traduzir por “o olhar derradeiro”, ele nos dá a impressão de pintar em cores vivas as últimas imagens de quem vai deixar este mundo.

A sexualidade na idade madura aflora nua e crua num cenário composto para o deleite de quem não mais pode procura-lo por conta própria. Contrapartida mais fantasiosa e ao mesmo tempo mais radical, apresenta um inegável parentesco com Diário de um velho louco, de Jun’ichiro Tanizaki, outro grande mestre da literatura japonesa moderna. Se este último tata da sensualidade a priori contida que acomete um idoso no cotidiano, Kawabata nos leva aqui em singela exploração sensorial do corpo feminino oferecido em estado de torpor controlado. Os meandros da sexualidade – assim como a inexistência dela – em situações limite, da repressão do desejo e do autocontrole exacerbado compõem um jogo perverso que assume todo seu significado quando o protagonista tem de lidar com a noção de virgindade em seu sentido mais amplo. Temos aqui um indício de até que ponto Kawabata, sempre fiel a si mesmo, foi deliberadamente aos alicerces das estruturas mentais. Yukio Mishima, que louvava Kawabata, escreveu de forma reveladora em seu prefácio à edição norte americana desta obra: “ E será que a impossibilidade de obtenção não coloca definitivamente o erotismo e a morte no mesmo nível? E se nós romancistas não estamos do lado da ‘vida’ (se estamos confinados a uma abstração de certo tipo de neutralidade perpétua), então ‘a radiação da vida’ somente pode aparecer onde morte e erotismo caminham juntos”.

Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, que viriam a ser uma de suas grandes inspirações.
Estudou literatura na Universidade Imperial de Toquio e foi um dos fundadores da Bungei Jidai, revista literária influenciada pelo movimento modernista ocidental, em particular o surrealismo francês.
Ao contrastar o ritmo harmônico da natureza e o turbilhão da avalanche sensorial, Kawabata forjou insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano, numa composição surrealista de elementos da cultura e filosofia orientais, personagens acuados e cenários inóspitos.

Um pequeno trecho do romance: “Completamente fora de si, o velho Eguchi esquecera que a garota era a oferenda ao sacrifício, e procurou com o pé as pontas dos pés dela. Somente ali ele ainda não havia tocado. Os dedos eram longos e moviam-se graciosos. As articulações, de modo semelhante às dos dedos das mãos, ora se dobravam ora se desdobravam, o que já bastava para exercer em Eguchi a forte sedução de mulher misteriosa.”




X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X









CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn


Não há tempo.

O hoje precisa ser sorvido
já, sem perguntas,
     sem cobranças.

Vê a história do homem. 

O instante é fa[e]tal
morte e vida sempre juntas
                     [des]caminham.

Não há tempo.

O espaço da ânsia é agora.
Não há tempo.
A dialética dos corpos
                     limpos, nus,
precisa ser provada
                  (com sabor)
pelo menos uma vez.


(Mo[vi]mento 2, Pinheiro Neto, A rosa do verso, 1988)







sexta-feira, 9 de maio de 2014

Edição nº. 59






PAPO NA CONFRARIA: PÉRICLES PRADE

1 - O que te motivou a escrever?

 Escrevi o primeiro poema aos 9 anos, no dia do aniversário de minha querida mãe, motivado pelo amor a ela dedicado. Foi algo natural, já que não tinha formação literária à época. A partir daquele evento, escrevi outros, esporadicamente, consolidando a vocação poética apenas aos 16, quando iniciei a redação do livro Este Interior de Serpentes Alegres, publicado e revisto em 1963. Cristalizou-se a ficção, nascida aos 15 anos, mais tarde, entre 1965 e 1970, quando veio a lume Os Milagres do Cão Jerônimo. A grande motivadora foi, sempre, a leitura constante das obras universais de repercussão canônica.  

2- Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

A Bíblia (O Apocalipse de São João), Don Quijote de La Mancha (Miguel de Cervantes Saavedra) e O Livro das Mil e uma Noites (anônimos, ramo Sírio).

3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:
a) Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries):
Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol)
b) Alunos do Ensino Médio:
Robinson Crusué (Daniel Defoe)
c) Alunos do Ensino Superior:
O Processo (Franz Kafka)

4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Primeiro, construo os poemas, mentalmente, para em seguida repassá-los ao papel, trabalhando-os até atingir o nível (forma/fundo) considerado ideal. Quanto à ficção, o processo é assemelhado, no plano da construção, mas quando escrevo as narrativas à mão, a exemplo daqueles, interfiro às vezes de tal modo que nada têm a ver com o prévio esboço mental.

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.
            
O apoio dispensado é mínimo. No setor privado, não mais existem mecenas como havia na Renascença. No setor público, prevalece o interesse político. A área da Cultura é sempre posta à margem. Santa Catarina é um exemplo marcante do abandono.

6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à Língua e à Literatura?
            
As Academias (ao lado das Universidades) constituem os poucos redutos onde a Língua e a Literatura ainda são estudadas. Contudo, em geral prevalece um certo narcisismo intelectual, preocupando-se os membros mais com a divulgação de suas obras do que a finalidade precípua das instituições.  Malgrado essa realidade, seu papel contínua indispensável ao aprimoramento/desenvolvimento da Cultura, devendo, no entanto, cada qual descer da Torre de Marfim para abrir-se mais às comunidades carentes de sua efetiva influência. 

(Membro da cadeira nº. 28 da Academia Catarinense de Letras)








X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X







GABRIEL GARCIA MARQUES (1927 – 2014) – HOMENAGEM


Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez (Prêmio nobel de literatura de 1982), editado pela Record em 2008, com tradução de Eric Nepomuceno é uma inesperada e surpreendente história de amor entre um ancião e uma ninfeta e se insere numa tradição da qual fazem parte Vladimir Nabokov de Lolita, o Thomas Mann de Morte em Veneza e Yasunari Kauabata de A casa das belas adormecidas.

Um leitor mais atento vai encontrar nessa obra as principais referências e motivações desse hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário de Márquez. Apesar de parecer estranho, uma dessas chaves está no conto de fadas A bela adormecida, que, não por acaso, é citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginária, numa época que de tão remota parece imemorial.

A semelhança com a famosa fábula do escritor francês Charles Perrault fica mais explícita na adolescente, que aqui surge dormindo, como se estivesse à espera do seu príncipe encantado. Mas ela também está presente no velho jornalista, narrador dessas memórias, que vai viver cerca de cem anos de solidão embotado e embrutecido, escrevendo crônicas e resenhas maçantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramática para alunos tão sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartáveis.

Só quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadinha é que este personagem vai ganhar a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrás de si um dos generais que se revezaram no poder da mítica Colômbia de Gabriel Garcia Márquez. O medo do amor é tão superlativo que o anti-herói dessas memórias vai preferir conviver com a mais terrível ameaça para o macho latino: o fantasma da impotência. E enquanto tivesse forças, resistiria ao poder do amor.

Parte desse medo se deve aos ridículos a que o amor nos expõe, aqui elevado à última potência em cenas como a que o ancião anda numa bicicleta cantando “com ares do grande Caruso”, ou aquela em que destrói um quarto de bordel. E por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um paletó dois números acima do nosso, apenas ele e tão somente ele, o amor, nos faz humanos, como desde tempos imemoriais a arte vem tentando provar. Seja nos boleros mais sentimentais, que ressoam nas paixões evocadas pelos grandes mestres da ficção, ou em obras-primas, como esta. Vale a pena ler!

(Este texto foi publicado na última edição 58 deste Blog, na Série “Li e Recomendo”)



X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X





DA SÉRIE “POETAS MULHERES” - 1




RELVA


Cai a cabeça
       No peito
       Sem jeito.

Busco esperança
            No fundo
            Do mundo.

Onde te achar,
            Céu perdido
            Rio corrido?

Onde te ouvir,
           Brisa fina
           Eu menina,
A caminhar
Sobre a relva do tempo?

(Mila Ramos, Sete rumos, Edições Sanfona, Florianópolis, 1985)


*****************************

HIPER-REALISMO

para o homem
         de morte
         a mulher
         de mente

para a mulher
        de veneta
        o homem
        de vagar

em marte vênus
mesmo endereço
cama closet sofá

homens versus mulheres
                                            :
                             so close
                             so far

(Valéria Tarelho, livro da tribo, São Paulo, 2012, p.15)


*****************************************

LEMBRANÇAS

Que presença é essa
que permanece intacta 
feito parede
solicitante
precipitando imagens 
vultos desfragmentados e ocos
colada ao corpo
arruaceira
galopante 
espreita meu cansaço

(Cristina Martins Branco , Facebook, 21/04/2014, Porto Alegre)

**********************************************

HÁ UMA LUA LÁ FORA...

Atrevem-se os amantes
a galopar impunes
pelos precipícios da paixão.
Sentidos iluminados,
simbióticos e extasiados
viajantes em aflição.
Benditos, à luz dos aflitos,
sufocam apelos e gritos
em penitente confissão.

(Rosangela S. Goldoni, São Paulo, 18 03 2014)

********************************************


ZOOM

[sg]

por baixo de
esparsos fios brancos
pequenas rugas amargas
mágoas disfarçadas
dores mudas
discreta flacidez
delicadas estrias
intensas indignações
palpita meu coração de 1983


(Adelaide do Julinho, Facebook, 23, 04, 2014 Belo Horizonte)


*******************************************************



" ... Mato meu modo de ser
Quando tento em palavras
Transformar o que sinto...
É tudo tão sem dimensão,
Tão sem razão de ser
Que sinto o quanto não sou...
E quando em mim tento
Reter o meu modo de ser,
Transbordo o que não me cabe
E assim é o 'quando' e 'onde' Vivo... "

(Dú♥Karmona® Facebook, abril,2014)


X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X



LI E RECOMENDO (5)








FAZES-ME FALTA (Inês Pedrosa)

Sucesso de público e crítica em Portugal e no Brasil, Fazes-me falta é um marco na obra de Inês Pedrosa, uma das mais importantes escritoras portuguesas da atualidade. Com uma linguagem sutil, envolvente, Inês compõe uma narrativa com duas vozes distintas – um homem e uma mulher – que se entrecruzam em breves monólogos e, gradualmente, nos apresentam sua intensa relação, num estado indefinível entre paixão e amizade.

Mas esses são personagens que dialogam num contato partido insólito. Pois a mulher, cuja voz inicia esse romance surpreendente, morreu ainda jovem. É ela, no entanto, quem ampara seu companheiro da perda e da solidão. Entre as lembranças de encontros e desencontros, caberá a ambos dizer o que nunca puderam pronunciar em vida, e curar antigas cicatrizes do passado.

Inês Pedrosa nasceu em Coimbra, Portugal. Trabalhou no rádio e na televisão, é colunista do semanário português Expresso e diretora da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. É autora de contos, crônicas, ensaios biográficos e antologias, e dos romances A instrução dos amantes (1992), Nas tuas mãos (1997) – vencedor do Premio Máximo de Literatura – e A eternidade e o desejo (2007), publicado no Brasil pela Alfaguara.

“Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio – nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua pala lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência”.

Editado pela primeira vez em 2002, pela Publicações Dom Quixote. Li a edição publicada pela Alfaguara de 2010.



X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X




(Arte de Michele, do Café do Mineiro - Lagoa da Conceição - Floripa - 07/05/14)


DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”

Pleonasmos que devem ser evitados

  • Subir para cima
  • Descer para baixo
  • Elo de ligação
  • Acabamento final
  • Certeza absoluta
  • Juntamente com
  • Em duas metades iguais
  • Há anos atrás
  • Vereador da cidade
  • Outra alternativa
  • Anexo junto à carta
  • Recuar para trás
  • Todos foram unânimes
  • Conviver junto
  • Encarar de frente
  • Fato real
  • Multidão de pessoas
  • Cardume de peixes
  • Amanhecer o dia
  • Retornar de novo
  • Surpresa inesperada
  • Gritar bem alto
  • Entrar para dentro
  • Sair para fora
  • Protagonista principal
  • Voltar a repetir
X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X

DA SÉRIE “PARA [SÓ] RIR”

A morte do Marcão (autor desconhecido)

Marcão era um antigo funcionário de uma cervejaria no interior de São Paulo.
Ele era feliz no trabalho, embora seu sonho fosse ser degustador de cerveja, bebida que tanto adorava.
Certa vez, trabalhando no turno da noite, ele caiu dentro de um tonel de cerveja.
Pela manhã, o vigia deu a triste notícia:
- É com profundo sofrimento que informo que o Marcão se desequilibrou,
caiu no tonel de cerveja e infelizmente morreu afogado.
Um grande amigo de Marcão com a voz muito triste pergunta:
- Meu Deus!!! Será que ele sofreu???
O vigia então responde:
- Acredito que não, porque, segundo as imagens da câmera de segurança,
ele chegou a sair três vezes do tonel para urinar...


X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X


CONFRARIA DO [meu] POEMA-pn





POEMA ÀS MÃES


                             

Mãe,
eis-me aqui mais uma vez
enfrentando meu espelho.
A cada novo ano,
desde que brotei do teu útero,
me confronto com teu rosto.

E me questiono:
O que fiz com teus conselhos?
              com teus exemplos?
              com a minha vida?

Mãe,
teu tempo é de contemplação
o meu tempo é de inquirições
e hoje só restam inquietações.

Aceite mãe
meus reparos.
Perdoe-me as falhas
as folhas ao vento.
Me embale,mãe.
me deixe voltar

para a proteção do teu ventre.

( Pinheiro Neto, homenagem às mães em Maio/2014)







domingo, 9 de março de 2014

Edição nº. 58







 PAPO NA CONFRARIA : MÁRIO PEREIRA


1-O que te motivou a escrever?

Sempre fui um leitor voraz. Do ler ao escrever é um pulo. No colégio dos jesuítas, o Anchieta, em Porto Alegre, tive um professor, o saudoso Godofredo Fay de Macedo, que nos estimulava a escrever e a publicar no jornal do nosso Grêmio Literário Liberato Vieira da Cunha.


2-Cite três livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida.

“O velho e o mar”, Ernest Hemingway, “Guerra e paz”, Leon Tolstoi, “O apanhador no campo de centeio”, J. D. Salinger.



3-Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de: Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior.

A) “O sítio do pica-pau amarelo”, Monteiro Lobato.
B) “O encontro marcado”, Fernando Sabino.
C) “Memórias póstumas de Braz Cubas”, Machado de Assis.


4-Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Geralmente, escrevo à noite. Primeiro, faço um resumo do que pretendo colocar no papel. Se ficção, planejo primeiro o final da história. Depois, cortar, cortar e cortar. E revisar, revisar, revisar.



5-Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

O melhor apoio que poderia ser dado à literatura e sua renovação seria disponibilizar um ensino de qualidade, com especial atenção para a língua pátria, hoje humilhada e ofendida. A desgraça começa no ensino fundamental, continua no ensino médio, passa invicta pelo “vestibular das quotas”, e estende-se pelo ensino superior. É assustador o índice de analfabetismo funcional no país.


6- Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à Língua e à Literatura.

As academias deveriam ter uma participação mais ativa na defesa do padrão culto da língua e como incentivadoras do surgimento de novos talentos literários. Deveriam também abrir suas portas para o público sempre que possível, promovendo cursos, simpósios, palestras etc. E cobrar da mídia mais correção e mais respeito em relação à nossa “última flor do Lácio”.


(*) Ocupante da Cadeira 08 da Academia Catarinense de Letras.



X-X-X-X-X-X-X-X-X-X



SAUDADE

Quando chegares, saudade,
No desdobrar da vida,
- nem vivida –
Eu te divisarei, lá longe,
No barco parado, sem vela,
Boiando no mar sem verão
– nem procela –
Parado em ti.

Quando chegares, saudade,
Na noite amanhecida,
- nem dormida –
Eu te avistarei, de longe,
E abrirei os braços, no abraço
Da coisa conhecida
- e já perdida –
No meu entardecer.

(MILA RAMOS, Sete rumos, Edições Sanfona, 1985)



x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x





A POESIA E A POEMAS À FLOR DA PELE


Afirmar que a poesia não tem mais lugar na vida das pessoas neste nosso mundo nanociberfacebloglobalizado é, no mínimo, uma sandice! Que a falta de tempo, a luta por sobrevivência, conflitos sócio-político-ideológicos, mobilidade urbana, violência, insegurança, drogas, educação, saúde e inúmeros outros problemas tornam o homem diuturnamente insensível, inapto para captar a beleza que está posta ao seu redor, é pior ainda.

Nunca se escreveu tanto, se leu tanto, se declamou tanto, se debateu tanto, se compartilhou tanto poesia como nos dias de hoje. De norte a sul de todos os países e principalmente do nosso, proliferam grupos, associações, academias, confrarias, cujo objeto de ação é a poesia. Nas esquinas e nos sinaleiros inúmeros divulgadores anônimos de seus escritos poéticos os distribuem na ânsia muito mais da leitura de quem os recebe do que das poucas moedas que lhes são oferecidas.

Poetas iniciantes com ou sem livros publicados, poetas consagrados, poetas de coletâneas, poetas de blogs ou do facebook, todos de alguma maneira vêm contribuindo para provar que o poema é e sempre será o gênero literário mais leve e ao mesmo tempo mais sério e preciso de levar poesia à alma das pessoas.

E o que a “Poemas à Flor da Pele” tem a ver com esse cenário? Tudo!

Criado em 2006 enquanto movimento de divulgação poética através do Orkut, “Poemas à Flor da Pele” vem se consolidando como um dos mais sólidos e dinâmicos espaços de agregação de poetas e de promoção de atividades culturais, artísticas e sociais, reconhecido em todos os continentes. Foram tantas as participações em eventos, feiras e bienais, promoções e co-promoções, edições de livros e e-books, que o grupo houve por bem oficializar o movimento, transformando-o em uma Associação Cultural.

À frente de todo esse processo está sua idealizadora e Coordenadora, a dinâmica escritora e promotora cultural Sonia Ferrarezi, mais conhecida como Soninha Porto. Seu trabalho hercúleo vem projetando nacional e internacionalmente não apenas o objeto de trabalho da Poemas, a nova poesia, mas e principalmente os poetas que integram o movimento e a Associação e que são o alicerce de tudo o que a Poemas planeja e executa. A garra e a competência de Soninha à frente da Associação tem contribuído para uma diminuição da (ainda) enorme distância entre escritor/poeta e aluno/leitor, uma vez que as atividades programadas e realizadas pela Poemas sempre tem levado em consideração a aproximação com escolas, professores e alunos.

Sabemos que nossas escolas toleram o que chamo de “livres incursões imaginárias” apenas no período da pré-escola ao trabalhar a educação sensorial. Após essa fase, a tendência é reprimir qualquer manifestação que esteja fora da linguagem articulada. Sabemos também que os cursos de formação de professores de Língua e Literatura no Brasil não “perdem tempo” com o ensino da poesia. Isto posto, como esperar que os alunos que se formarão professores aprendam a gostar e a trabalhar a Língua através desse gênero literário?

É preciso iniciar um processo sistematizado de desmistificação da poesia, quer no âmbito da formação dos professores, quer na formação dos alunos, principalmente no primeiro e no segundo grau.

De uma maneira geral, acredito ser necessário pensar em um ensino da poesia nas escolas que traga como alvo: o desenvolvimento do poder criador da criança; o desenvolvimento da imaginação e da sensibilidade; a iniciação da criança no contexto da arte em geral, além da formação do sentido estético dessa criança.

Acredito também que a escola não poderá dar conta disso sozinha. Será preciso aliar-se, aparceirar-se com instituições que congregam poetas e estudiosos da poesia especificamente e da literatura como um todo, a fim de romper o academicismo intransigente e ultrapassado e deixar a criança, o estudante aprender a “escutar o ritmo do mar”, o que hoje só é permitido aos Poetas.

E é aí que entra o trabalho que vem sendo desenvolvido com competência e perseverança pela Associação Cultural Poemas à Flor da Pele durante todos esses belos anos de existência. Trabalho que é coroado a cada nova produção da Editora Somar.


Pinheiro Neto, Barra da Lagoa/SC, verão de 2014.


X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X






CLASSIFICADO - VENDO CORAÇÃO

Vendo coração.
R$ BEI.J00.00S,00.
Aceito cartas de amor.
Melhor localização.
Lado esquerdo do peito.
Bater silencioso.
Não safenado.
Ampla aorta.
Sangue arterial.
Aurículos perfeitos.
Ventrículos decorados.
Coronárias desentupidas.
Dono sentimental.
Muito por viver.
Única oportunidade.
Melhor investimento.
Nova paixão assegurada.
Garanta já sua felicidade.

(JL Semeador de Poesias, Lapa, em 07/04/2012)




X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X

  
LI E RECOMENDO (5)






Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez (Prêmio nobel de literatura de 1982), editado pela Record em 2008, com tradução de Eric Nepomuceno é uma inesperada e surpreendente história de amor entre um ancião e uma ninfeta e se insere numa tradição da qual fazem parte Vladimir Nabokov de Lolita, Thomas Mann de Morte em Veneza e Yasunari Kauabata de A casa das belas adormecidas.

Um leitor mais atento vai encontrar nessa obra as principais referências e motivações desse hino de louvor à vida e, por extensão, ao amor, já que um não existe sem o outro no imaginário de Márquez. Apesar de parecer estranho, uma dessas chaves está no conto de fadas A bela adormecida, que, não por acaso, é citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginária, numa época que de tão remota parece imemorial.

A semelhança com a famosa fábula do escritor francês Charles Perrault fica mais explícita na adolescente, que aqui surge dormindo, como se estivesse à espera do seu príncipe encantado. Mas ela também está presente no velho jornalista, narrador dessas memórias, que vai viver cerca de cem anos de solidão embotado e embrutecido, escrevendo crônicas e resenhas maçantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramática para alunos tão sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartáveis.

Só quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadinha é que este personagem vai ganhar a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrás de si um dos generais que se revezaram no poder da mítica Colômbia de Gabriel Garcia Márquez. O medo do amor é tão superlativo que o anti-herói dessas memórias vai preferir conviver com a mais terrível ameaça para o macho latino: o fantasma da impotência. E enquanto tivesse forças, resistiria ao poder do amor.

Parte desse medo se deve aos ridículos a que o amor nos expõe, aqui elevado à última potência em cenas como a que o ancião anda numa bicicleta cantando “com ares do grande Caruso”, ou aquela em que destrói um quarto de bordel. E por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um paletó dois números acima do nosso, apenas ele e tão somente ele, o amor, nos faz humanos, como desde tempos imemoriais a arte vem tentando provar. Seja nos boleros mais sentimentais, que ressoam nas paixões evocadas pelos grandes mestres da ficção, ou em obras-primas, como esta. Vale a pena ler! (Orelhas do livro)

X-X-X-X-X-X-X-X-X-X


DA SÉRIE “NOSSA LÍNGUA”

Verbos na primeira pessoa do singular:

EU MEÇO             (medir)
EU CAIBO            (caber)
EU VALHO           (valer)
EU PULO              (polir)
EU COMPITO       (competir)
EU ADIRO            (aderir)
EU FREIO             (frear)
EU DIGIRO           (digerir)
EU SUO                (suar)
EU SOO                (soar)
EU ARGUO          (arguir)
EU EQUIVALHO  (equivaler)
EU ANSEIO          (ansiar)
EU RIO                 (rir)
EU OUÇO            (ouvir)


X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X


ITAPEMA (02-08-1947)


Em Itapema não há senão praia e mar; rolos gelatinosos de algas, ríspidos galhos cor de bronze, repelidos pela vaga.

No inverno, após as pesadas chuvas e as longas ventanias, às vezes, se veem, ao comprido das areias, cadáveres de pinguins e velhos corvos de pescoço vermelho batendo as asas e grasnando em torno da carcaça de um golfim.

Mas é sempre a mesma paisagem: ondulações de matos batidos de vento ao lado da terra e que sobem para o alto de outeiros redondos e ramalhudos, onde as palmeiras, como enormes aranhas espetadas há ponta de paus, agitam as longas pernas esfiapadas e verdes.

E longe, muito longe, nos confins do oceano, entre o farol das Cabeçudas e a ponta de Porto Belo, um longo risco azul de ultramar parece arder como uma sarça, por que dele sobem, trêmulos e violáceos, fumos e névoas que se derretem na luz.


(Othon D’Eça, Sete Marinhas, Edições Sanfona, Floripa, 1985)



X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X-X


CONFRARIA DO POEMA-pn

HÁ UMA CRATERA
NA BOCA
DO [MEU] ESTÔMAGO.
SOLTO O GRITO
DE PAVOR
DE TORPOR.

A CRATERA
QUE HÁ
NA BOCA
DO [MEU] ESTÔMAGO
SÓ AUMENTA –
ME [O] NSTRU [O].


(Pinheiro Neto, Nano poema, 07/11/2013)