segunda-feira, 1 de abril de 2013

Edição 45



PAPO NA CONFRARIA: FLÁVIO JOSÉ CARDOZO(*)











(O escritor, após palestra em Criciúma, em companhia da Bibliotecária Michelle Pinheiro)
       
1- O que te motivou a escrever?
    
 Acho isso meio misterioso. Claro que nada teria acontecido se eu não tivesse adquirido bem cedo o gosto pela leitura. Na origem de tudo, penso que está a curiosidade por aquele mundo de fantasia oferecido nos livros e, em certo momento, o impulso de também querer fazer. Foi algo espontâneo e inexplicável que surgiu não sei de onde e para ficar. Aí veio o aprendizado (se é que tenho aprendido) - um processo lento, sem fim.

2 - Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

Por justiça, deveria citar os livrinhos fundamentais da escola primária que me revelaram o poder e a beleza da palavra escrita. Quanta leitura importante foi acontecendo a partir deles, quantos livros e autores podiam ser citados! Mas a pergunta pede três, só três livros que me marcaram de um modo especial no correr da vida. Então são eles, em três escalas: na literatura universal, o Dom Quixote (Cervantes); na literatura brasileira, Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa) e, na literatura catarinense, Homens e algas (Othon d´Eça).

     
3 - Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:

a)      Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
b)      Alunos do Ensino Médio
c)      Alunos do Ensino Superior

Aproveito a oportunidade para ressaltar a necessidade de se divulgar nas nossas escolas a literatura que se faz em Santa Catarina. Minha escolha vai ser restrita a ela.
Assim, para os alunos do Ensino Fundamental, indico um dos livros de Maria de Lourdes Krieger – digamos Vovó quer namorar.
Para os alunos do Ensino Médio, o romance São Miguel, de Guido Wilmar Sassi.
Para os do Ensino Superior, Ecos do porão, de Silveira de Souza.



4- Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

     Conheço gente que traça um roteiro de trabalho e não se afasta dele, aconteça o que acontecer. Me falta disciplina, eu gostaria de ser mais trabalhador. Meu processo é vagaroso e sofrido. Adquiri, por exemplo, o péssimo costume de escrever e já ir querendo que cada página fique acabada. Creio que se eu fosse um profissional, com metas e compromissos a cumprir, seria bem mais ágil. Os quase dez anos de crônica diária me fizeram trabalhar sob pressão – e funcionou. Bem que podia ser assim nos outros gêneros...

5- Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

     O grande apoio à literatura está certamente no apoio que o poder público, as instituições, as empresas etc. podem dar ao fomento da leitura nas escolas. A criação de bibliotecas escolares e públicas, a implantação de programas de difusão do livro, a capacitação de professores, o acesso de escritores aos estabelecimentos de ensino, a promoção de eventos escolares centrados no livro – tudo isso, que não é mais caro  do que tantas inutilidades patrocinadas por aí, conquistará crianças e jovens para a palavra escrita, vale dizer para o exercício da imaginação, para a agilização da mente, para o desafio a pensamentos próprios, para a revelação e a observação crítica do mundo e de seus valores. Todas as outras formas de apoio oficial e privado são importantíssimas, mas criar lá na base, de verdade, um lugar para a leitura na vida dos estudantes é o que mais pode interessar à literatura e aos seus autores.

6- Fale sobre o papel das Academias  de Letras em relação à Língua e à Literatura?

     Está nos objetivos das academias de letras divulgar a literatura e zelar pela língua nacional. Nesse sentido, elas podem atuar como efetivos instrumentos de informação e de formação. A Academia Catarinense de Letras tem sido, nos últimos anos, bastante ativa nesse sentido, seja reeditando obras importantes que estavam esgotadas, seja facilitando a edição de obras atuais, seja promovendo oficinas literárias e intercâmbio com academias e escritores do interior. A lamentar, no caso da ACL, as tantas dificuldades que ela tem encontrado para receber o apoio financeiro a que, por lei, tem direito. Bem mais ela faria se melhor fosse entendido o seu papel cultural.

(*) Ocupante da Cadeira 23 da Academia Catarinense de Letras.

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BALNEÁRIO RINCÃO E SEU BERÇO DE OURO, O MAR... (*)                           


É neste Berço de Ouro, Balneário Rincão que tudo acontece com ternura. A vovó de mão enlaçada com o amado caminha lentamente, buscando as ondas e o encontro com o mar. Debruço-me sobre o muro e sinto um perfume de “mãe” e eles desenlaçam suas mãos, ao perceberem meu olhar querendo trazê-los para perto de mim. Abaixo-me disfarçadamente e colho algumas rosas imaginárias que há no jardim. Como se eles tivessem nascido outra vez, seus passos lentamente se afastam, a vovó com seu vestido de chita, despede-se com um sorriso feliz. O momento é suavizado, e afastam-se em direção as ondas...O mar mora próximo ao meu lar, as pessoas me enviam carinhos com seus olhares e as ondas se abraçam, enquanto durmo. Os atletas (Jogadores do Criciúma) treinam defendendo o nosso amado Tigrão. As moças desfilam com beleza, nas mãos os celulares. De repente uma cavalgada à beira-mar e mais de 200 cavaleiros e amazonas, nobres paladinos, e penso: “São de onde e para onde vão?” Incrível é que um deles grita alto: “Escritora, que livro está lendo? Não sei como percebeu, e lhe respondo: O livro do escritor Pinheiro Neto “Poemas Reunidos,” e solto no ar alguns versos – As águas se abrem, a lua se enfeita, as estrelas descem – se achegam- é noite de pesca, pesca de dor, de frio, de sofrimento. Pesca da dor, pesca do amor”. Lá longe, os pescadores com suas redes de pesca, querendo ser presenteados pelos deuses do mar. De adultos se transformam em crianças, quando um peixe desfila do seu habitat até suas mãos. Os pequenos correm, aproximam-se do mar, e os pais andam silenciosamente querendo alcançar os seus bebês.Quando estou só reconheço e me esqueço. É a liberdade que me abraça, mas sem sorrir, talvez porque me encontra assim: livre e esquecendo tudo o que existe, importa os livros envaidecidos na biblioteca fantástica olhando para o mar? Não sou triste e nem feliz (neste momento), sou Poeta? Alguém escreveu assim um dia, deveria estar vivendo no segundo andar, de onde se abraça as ondas do mar? Creio que a vida será sempre entendida pelos meninos e meninas que vivem próximo ao mar, aqui a felicidade não toma conta de ninguém e nada é entendido por completo. Na praia, algumas árvores, aves e flores se beijam de verdade. Toda a realidade olha para mim como uma máquina de costura com a imagem dela no meio, minha mãe que já partiu. Sei que sua arte alegrava a sua vida, os bordados e os vestidos belíssimos nasciam de sua inspiração e ágeis mãos delicadas, deixavam os príncipes e princesas se sentirem felizes nas festas e bailes do Clube Ipiranga. Anoitece, os visitantes da praia estão saído do Berço de Ouro. Anoiteceu e minha poesia fugiu de mim, talvez foi até as águas cristalinas, inclinou-se tão natural sobre as ondas em desfile e adormeceu. A alma poeta tem uma necessidade vital de articular a vida, ressuscitá-la, sensibilizar e transformar. Mesmo que cante tantos desencantos, nunca deixará de acreditar na humanidade e de reformar o que está imperfeito. Se alguém confundir a palavra de um Poeta, saiba que seu impulso é o mais verdadeiro e de fé, sonhador sim ...

(*) Crônica de Maria de Fátima Pavei, escritora, autora de “Além dos trilhos do trem – Içara, 50 anos de emancipação política 1961-2011.

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SILÊNCIO IV (*)

O silêncio se fez!
E no peito uma pedra barulhenta pertétua...
O amor intenso esquecido
e a jura secreta revelada...
Silêncio!
Virou pedra dolorida...

(*) Dú Karmona, poeta paulista. Este poema foi publicado na página 65, no volume 5 da Poemas à Flor da Pele, 2012, pela Somar.

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AS LUTAS (*)

São os golpes que mantém vivo
O corpo, aquele que ainda está em pé
São olhares por todos os lados
Alguns reprovadores, outros admirados
Eu vejo as faces horrorizadas
Com certas carnificinas
O mais forte sempre tenta me derrubar!

(*) Blimer – entre massacres, 2010. Nas sinaleiras de Floripa entregando seus poemas fotocopiados.


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DOIS POEMAS DE TÁBATA BELBUTE(*)

1-    Quando te vi

Quando te vi
pela primeira vez
com tua luz me ceguei.
Com teu brilho
do céu ao chão
achou meu coração.

2-    Sentimentos

O amor mexe com a gente
por fora e por dentro.
E isso para mim
é o maior sentimento.

(*) De Porto Alegre, tem 12 anos, artesã, filha do também escritor Silvio Belbute. Publicados na coletânea “Poemas à Flor da Pele 5, volume 2, 2012.

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REGISTRO

1-    A Academia de Letras de Biguaçu convida para a Sessão Solene de abertura dos trabalhos acadêmicos de 2013 e lançamento dos seguintes livros: “Auto da Imigração Alemã”, de Adauto Beckäuser; “Ganchos – pesca, maricultura e turisno”, de Miguel Simão; “No apagar das luzes”, de Dalvina de Jesus Siqueira; “7 contos da resistência”, de Willian Wollinger Brenuvida; e “A literatura dos catarinenses – espaços e caminhos de uma identidade”, de Celestino Sachet. Contatos através do emeio: academia@academiadeletrasdebiguacu.com.br

2-    Sinfonia poética e prosa - volume 8 - publicado em dezembro de 2012 pela Academia São José de Letras, entidade fundada em 24 de abril de 1996 que tem como objetivo maior cultivar e divulgar a língua vernácula e os valores da cultura, especialmente através do fazer literário e como presidente o escritor Artêmio Zanon.
A produção literária que integra a coletânea representa apenas, segundo seu presidente, pequena parte do universo literário dado à lume nos anos de 2011 e 2012.
“Esta é, então, a maneira eficaz como a Academia São José de Letras contribui para cultivo e divulgação da Última flor do Lácio, inculta e bela, no cantar de Olavo Bilac...”


3-    Desterríada é o título do primeiro volume da coletânea editado no final do ano de 2012 pela Academia Desterrense de Letras, divulgando trinta panegíricos apresentados em sessões solenes específicas, ao longo dos anos de existência daquela entidade.
Apresentado por sua presidente, Hiamar Polli e seu Diretor Geral, Artêmio Zanon, membro daquela entidade e organizador da obra, o volume nos brinda com trinta textos escritos “de maneira pessoal, havendo neles dados biobibliográficos”  onde cada orador segue seu próprio estilo sem uma orientação específica.


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CONFRARIA DO POEMA-pn
I
A pele das mãos
enrugadas.
Nevos melanocíticos
cortam e cantam:
passado sem paixões.

II

Reúnem-se espectros
no pátio da vida.
Planejam o seqüestro
do tempo que resta.

(Nano poemas , Pinheiro Neto/2011)








quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Edição 44








PAPO NA CONFRARIA: SILVEIRA DE SOUZA(*)
           

1-    O que te motivou a escrever?

--  O interesse pela literatura e a motivação para escrever foi insuflada por meu pai. Lembro que lá pelos meus 7 ou 8 anos de idade, quando eu já havia aprendido a ler com minha mãe, ele, meu pai, ao receber o seu salário de funcionário público, trazia mensalmente braçadas de livros e revistas para todo o pessoal da casa, ou seja, para ele próprio, minha mãe , minhas duas irmãs e para mim.  Narrativas e contos de gente como, por exemplo, Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen tiveram grande influência na minha formação literária.

2-    Cite os TRÊS livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

 -- Vou citar somente os de escritores brasileiros:
       a) Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis;
       b) Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa;
       c) Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

3- Indique um livro (Literatura Brasileira) para leitura de:
a)    Alunos do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries)
 -- Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato;
b)   Alunos do Ensino Médio
--  Zélica e outros, de Flávio José Cardozo
c)    Alunos do Ensino Superior
--  A superfície, de Ricardo Hoffmann

3-    Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

No início surge, na mente, algo que nem é uma estória. É um evento, ou uma figura humana. Não sei o que eles significam, mas sei que eles incomodam, vão e veem, na mente. Chega um momento em que acho que essas coisas precisam ser jogadas pra fora da mente. É quando eu tento recriá-las sobre uma folha de papel, ou na tela de um computador. Essa é a parte pior. É a pendenga da racionalidade com as forças do inconsciente. É o embate do Dragão da Maldade contra o Anjo Guerreiro.



4-    Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

--  Acho que todo apoio dispensado à literatura ou às atividades culturais da comunidade deveria ser prioritário em qualquer administração publica inteligente. Mas também acho que alguém que realmente deseja fazer literatura ou arte não deve preocupar-se com isso. Arte e literatura são coisas vitais. Você não pode deixar de fazê-las somente porque, por acaso, está cercado por uma classe política formada de burocratas despreparados.

5. Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à língua e à literatura.

 Se as Academias de Letras pudessem funcionar como fontes de consulta organizadas e confiáveis a propósito de livros e documentos fundamentais da história cultural de seus respectivos estados, creio que já estariam prestando um serviço inestimável às comunidades as quais pertencem.

(*) João Paulo Silveira de Souza é Membro da Academia Catarinense de Letras, Cadeira nº. 33

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LITERATURA INFANTO JUVENIL  EM SANTA CATARINA

Em dezembro do ano passado, Terezinha Kuh Junks, esposa do saudoso professor e escritor Lauro Junkes, ex presidente da Academia Catarinense de Letras, organizou e lançou um dos vários trabalhos deixados por esse incansável estudioso de nossa literatura, com sua  morte.
Trata-se do primeiro de cinco volumes de pesquisa deixada por Lauro, praticamente concluída, que trará ainda: contos e crônicas, novela, romance e poesia.
Segundo Júlio de Queiroz, no texto O afã incansável, que acredito esteja no livro à guisa de prefácio, “À medida que, no decorrer das últimas décadas, a literatura infantil ampliava-se em facetados aspectos, Lauro Junkes, como um colecionador reunindo seus achados, lia a obra, elaborava suas considerações e as entregava ao seu riquíssimo baú eletrônico.
Legítimo herdeiro intelectual dos copistas medievais, como aqueles, não o fustigava a necessidade premente de trazer a público seu nome como crítico de também essa especialidade.”
Para Maria de Lourdes Ramos Krieger, escritora e colega de Lauro na UFSC, enquanto professores, e que apresenta o volume, “a literatura infantojuvenil também mereceu de Lauro Junkes uma reflexão crítica. Ele mostrou que a identidade catarinense se encontra não apenas na literatura dita para adultos, mas igualmente na linguagem e no estilo dos textos voltados – por sua extensão e tema – para criança e jovens.”
“Ele sabia da importância da leitura para a formação do leitor, a partir do ambiente escolar, razão por que visitava escolas, geralmente acompanhado de outros membros da Academia: conversava, dialogava com professores e alunos, a respeito da necessidade do livro, da literatura na e para a sociedade e para o próprio indivíduo. (Ele sabia também que, infelizmente, por questões financeiras ou descaso, no ambiente doméstico o acesso aos livros nem sempre é facilitado). Abordava as obras dos autores nascidos em Santa Catarina ou aqui estabelecidos, lembrando que um livro é bom por suas qualidades literárias – quando, aliado a isso, for de autor da terra, merecia/merece maior apoio e divulgação.”
São mais de trezentas páginas de pesquisa, trabalho árduo e resultado significativo para o conhecimento e divulgação dessa área (infantojuvenil) que torna a produção literária de Santa Catarina ainda mais consistente e importante, na totalidade da literatura de nosso país.   



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CICATRIZES (Clau Assi **)



Ferido peito
sangra a alma
restam apenas cicatrizes
desenhadas na alma
efeito concreto da dor
estilhaço,
lamento,
algoz que relembra
tecido marcado
carne infligida,
tatuagem inacabada.
intrépida passagem do tempo
que a tudo leva
e à face traz lágrimas
envidraça o sorriso
feito faca de fino corte
abre ferida no peito.



(**direto de sua página no face, fev.2013)


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NEM SEMPRE FREUD EXPLICA (Olsen Jr.)


   Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)... Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.
   Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho... Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção... Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”... Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério... “Não, meu filho, não doeu”...
   Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais... A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo... Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua...”
   A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato... Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo... E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor... Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”...
   Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos...
   Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa... Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo... Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto... Algum tempo atrás fui provar uma roupa... Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine... Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado... Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa... Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”...
   Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista... A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso... Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete... Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!” 
   Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

  

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CONFRARIA DO POEMA-pn
I
Entre os dedos
Reconduzo versos
Do fundo d’alma
Garimpo poemas.

II

Vejo poemas
Sem olhos teus
Teço poemas
Com os de outrem.

(Nano ensaios poéticos, Pinheiro Neto/2012)








sábado, 22 de dezembro de 2012

Edição 43


                        

PAPO NA CONFRARIA: EDY LEOPOLDO TREMEL(*)
       

1.   O que te motivou a escrever?

Uma espécie de compulsão levou-me a dar o impulso inicial, quando escrevi meu primeiro livro de contos “A Hospedaria”. Fui bafejado mais pela inspiração do que propriamente por uma necessidade natural de escrever. O assunto fluía mais nos momentos de repouso, e eis que lá estava eu munindo-me de caneta e papel para manifestar meus devaneios, o que sobremodo se transformou simplesmente numa agradável necessidade.

2.   Cite os três livros ( e respectivos autores) mais significativos em tua vida.

“Os Caçadores de Búfalos” romance de Carl May
“A Importância de Viver” de LinYutang
“O homem Medíocre” de José Ingenieros.

3.   Com se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

  O cabedal de conhecimentos adquiridos durante minha existência tem me proporcionado os elementos necessários ao desenvolvimento de meu trabalho literário, porém, se não sou movido pela emoção, pelos sentimentos e pelo prazer de escrever, o que escrevo torna-se estéril, desprovido da carga emotivatão necessária e que dá vida à obra literária.
4.   Fale sobre o apoio dispensado pelos setores público e privado à literatura.

Não posso afirmar que haja o apoio tão desejado pelo escritor, é uma ponte que ainda não foi concluída e que aproximaria a cultura do setor público. Trata-se de um velho e, pelo histórico, difícil relacionamento. Apesar de ser prioritária para o desenvolvimento sociocultural, está longe de ser estabelecida de modo definitivo.
5.   Fale sobre o papel da Academia de Letras em relação à Língua e à Literatura?

A Academia de Letras tem a importante função de preservar o bom vernáculo e colocar à disposição do público a sua obra bibliográfica com a qualidade necessária e austeridade  para que faça por merecer o respeito e a admiração no meio cultural literário.

(*) O escritor Edy Leopoldo Tremel ocupa a Cadeira nº. O1 da Academia Catarinense de Letras
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NATAL NA CONFRARIA

Outro Natal que chega
outro Natal que vai
homens confraternizam
mulheres rezam e compram.

Esquecem por instantes
as chagas do mundo
as dores do século;
dividem por um momento
as migalhas do pão
as xepas da fuga.

Ufa, o pesadelo Maia se foi!
Outros natais viveremos
Outros natais passarão.
E em nós ainda, o agridoce sabor
de esperança, de promessa, de saudade.

(Pinheiro Neto, Natal, 2012)




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SONHOS ANTIGOS



Este é o primeiro romance de Basilina Pereira. Poeta e contista integrante do movimento e da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, é uma escritora que vem deixando sua marca indelével por onde passa. Seus trabalhos sempre densos e contagiantes, nos trazem paz e tranqüilidade.
Este romance conta a história de uma menina do interior, cuja infância solitária na fazenda, de repente, é transformada completamente: seu pai resolve levá-la para estudar num colégio interno. Ao ver-se arrancada da segurança do lar, a protagonista tem de enfrentar um mundo desconhecido, cheio de regras e tradições bem rígidas que lhe causam grandes conflitos e lhe provocam sentimentos até então desconhecidos. Fatos interessantes e grandes emoções se alternam e acompanham a narrativa até o seu desfecho.

Basilina nasceu em Ituiutaba-MG, mas reside em Brasília desde 1983. É professora aposentada, advogada, poeta e escritora. Tem 3 filhas e 3 netos e, embora a Literatura sempre tinha feito parte de sua vida, só em 2006 voltou a escrever, após aposentar-se do Magistério. Desde então, divulga seus poemas em espaços virtuais, onde já obteve êxito em vários concursos.Em sua recente jornada literária já publicou 3 livros de poesia e outros 9 do mesmo gênero esperam a vez de sair das sombras. Também participou de 14 coletâneas. Sonhos Antigos é seu primeiro romance que brotou no imaginário da autora, enquanto algum poema dormia.
Faz parte da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras; é membro da Academia Momento Lítero-Cultural, cadeira 19; membro correspondente da Academia Rio-Grandina de Letras e da Academia de Letras e Artes Buziana.

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DUAS MENINAS
Flávio José Cardozo

Ele pega o ônibus das sete e meia, apinhado. Vai pedindo licença, transpõe a roleta do cobrador, anda mais, ajeita-se. Gosta de ficar assim na frente, sair fácil na hora da chegada no Terminal, tem umas tantas quadras para andar até poder sentar-se diante de sua quieta mesinha de escriturário.
Já  houve dias melhores nesse trajeto, hoje ele tem o sabor de uma viagem forçada. Quando escapo para um cantinho sem gente e sem barulho ? - vive se perguntando inutilmente, sabedor que é dos anos de idas e vindas que ainda tem de cumprir. É homem moço, dos que a gente, olhando na superfície, define como com um vidão pela frente.
Ele aprendeu a se distrair na diária travessia examinando os que vão sentados. Estuda rostos, investiga em quais há sinais de felicidade, em quais há sinais de sofrimento, exercita a memória guardando-os para ulteriores observações, cria às vezes passatempos tolos e que logo o cansam, como ver quem tem a boca mais larga, o nariz mais comprido. Que vida!
Mas hoje a viagem é outra. Mais dolorosa, mais feliz, quem que sabe? Bem à frente, sentadinha à janela, vai a menina nunca vista, oito anos, os cabelos claros presos num laço. Os cabelos também claros, os cabelos também num laço... Procura outras semelhanças, são vagas as semelhanças além dos cabelos e da idade, e da pastinha escolar, mas isso já  não é pouco.
Por que o rapaz que está  ao lado dela não salta para ele sentar-se e perguntar-lhe o nome, quais os seus gostos, se vai bem na aula, se a professora é boazinha.  E daí ouvir várias vezes a voz que ela tem e também compará-la. E depois... Sim, depois não se cansar de recomendar-lhe o maior cuidado ao sair do ônibus e atravessar a rua.
Mas o rapaz não salta e ele se resigna a contemplar o rostinho que vai, curioso, olhando o mundo (soubesse ela) cruel que ruge lá  fora. Como reagiria se lhe dirigisse a palavra? As mães, com toda razão, vivem advertindo as crianças para não conversarem com desconhecidos, com que habilidade teria então de vencer essa barreira, que palavras ia ter de usar para convencê-la de que não é nenhum homem mau, que entre os dois há  uma certa familiaridade, a linguagem dos mesmos cabelos claros, dos cabelos claros presos daquele jeito?
Quem se movimenta para sair não é o rapaz, é a menina. Vai descer no primeiro ponto, é a escola.
- Com licença - diz, numa vozinha que ele jura ser igual, igual, meu Deus do céu, igual. Ele a deixa passar e hesita por um segundo entre pegar ou não o assento vago.
Não pega, anda. Anda e desce atrás - e, na calçada, a acompanha. Ao lado dela, em silêncio, atravessa a rua agitada, assim que era pra ter sido sempre. Sempre, sempre, repete, amargo.
Só quando a vê no pátio, sem perigo, retorna para tomar outro ônibus. De hoje em diante, se passar a chegar um pouco atrasado no serviço, que mal tem isso na ordem das coisas? - fica pensando.















quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Edição 42




PAPO NA CONFRARIA: COM OLSEN JR.


O que te motivou a escrever?

Num primeiro momento foram as leituras... Mais tarde, aos 13 anos a vontade de escrever as minhas próprias histórias.

Cite os três livros (e respectivos autores) mais significativos em tua vida?

Melhor citar logo os autores: Hans-Christian Andersen (obra em cinco volumes) mesmo considerando que algumas metáforas de suas narrativas (O Patinho Feio, por exemplo) só foram percebidas mais tarde; José Bento Monteiro Lobato (todos os 17 volumes da obra infantil que originou a série “O Sítio do Pica pau Amarelo”) e Karl May (os 30 volumes traduzidos e publicados pela Editora Globo de Porto Alegre) em especial os três primeiros volumes da saga “Winnetou”...

Indique um livro (literatura brasileira) para leitura de: a) alunos do Ensino Fundamental – quinta a oitava séries; b) alunos do Ensino Médio e c) Alunos do Ensino Superior.

Ensino Fundamental, o Monteiro Lobato continua dando o recado, qualquer um dos livros, talvez escolhesse  “Reinações de Narizinho”; no Ensino Médio, Lima Barreto e “Os Bruzundangas”; no Ensino Superior “Abraçado ao meu Rancor”, do amigo João Antônio...  Citei estas obras, mas poderia escolher outras destes mesmos autores.

Como se dá o processo da escrita em tua prática cotidiana?

Primeiro quero dizer que escrevo porque não sei fazer outra coisa. Se for (é) uma necessidade então, o método pode ajudar a sistematizar o trabalho. Sou sartriano, isso significa que não abro mão de um Projeto que é anterior a qualquer outra iniciativa. Após definir o que pretendo, então sim, mãos à obra, trabalho e mais trabalho... Não quer dizer que este “Projeto” inicial não seja alterado, sempre é, mas dentro de uma meta definida antes, isso inclui um começo, meio e fim... Não há “pontas soltas” no que escrevo...

Fale sobre o apoio dispensado pelos setores públicos e privado à literatura.

Falando sério, tenho piedade destes indivíduos (a categoria é sartriana) que se atrelam ao Estado ou qualquer outra espécie de poder para realizar sua arte. Escrevo porque é impossível não fazê-lo e isso independe da ingerência de qualquer instância seja ela pública ou privada. Evidentemente que se houvesse uma política cultural para as letras, o trabalho seria melhor distribuído em decorrência mais conhecido e isso facilitaria...  Nunca é demais acrescentar que uma arte que se submete a qualquer espécie de poder (o econômico é apenas um deles) não vale a tinta que se gasta para falar dela... Em SC bastaria cumprir as Leis que já existem, para citar duas, a “Lei Grando” como ficou conhecida, que estipula a aquisição pelo governo do estado de 300 exemplares das obras de autores (selecionados por uma comissão, a Cocali – Comissão Catarinense do Livro, vinculada à Fundação Catarinense de Cultura) para serem distribuídos nas escolas... Também a exigência (está na Lei) de se fazer um Jornal Cultural (dez edições por ano) e distribuído/encartado no Diário Oficial para todo o estado, deveria ser “O Catarina”, mas não é...

Fale sobre o papel das Academias de Letras em relação à língua e à literatura.

Vamos falar da nossa Academia, a ACL... Vivemos novos tempos, não cabe mais uma Instituição que exista apenas para a satisfação de seus associados em nela ingressar, enriquecer currículos e outras buscas de fruições passageiras... A Academia poderia funcionar como um órgão consultivo para assuntos ligados a sua própria natureza, ou seja, às letras... Sugerindo que se criasse uma disciplina de caráter obrigatório de literatura catarinense para os alunos do Ensino Fundamental, por exemplo... Ou oferecendo as bases para a existência de um Instituto Estadual do Livro, nos moldes que se faz no vizinho estado do Rio Grande do Sul, para se pensar o livro, as feiras, a publicação, distribuição e fruição do que se produz literariamente aqui em Santa Catarina... Mas para isso precisamos primeiro organizar a Casa para depois fazer sugestões... Não é verdade?

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ALÉM DO FUTURO

Vou te procurar
além do futuro
deslizando entre estrelas
ou em caminhos bifurcais

Se te encontrar e quando
nas estrelas estiveres voando
te falarei desta procura
és a paixão desta loucura

Falaremos das serás que vivemos
das metempsicoses que sofremos
mãos dadas, vagaremos pelos tempos.
Nas surdas asas do vento...

(Vany Campos in Poemas à flor da pele, vol. 5, Ed. Somar, p. 183, 2012)

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UMA CONFRARIA DE TOLOS

Por indicação do amigo Roberto Telles Ferreira  li recentemente “Uma confraria de tolos”, o único romance escrito por  John Kennedy Toole.

Nascido em Nova Orleans em 1937 e falecido em 1969, formou-se em inglês na Columbia University e lecionou no Hunter College e na University of Southwestern Louisiana.

O romance foi escrito no início dos anos 1960, mas Toole não obteve sucesso nas diversas tentativas de publicá-lo. Deprimido, cometeu suicídio. Foi por insistência da mãe, que acreditava no talento do filho, que esse livro alcançou o sucesso merecido. Ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção, em 1981.

O livro é apresentado por Walker Percy que, na verdade, resolve relatar como, em 1976, quando era professor em Loyola,  se deu o primeiro contato com os originais do romance.  É muito interessante. Naquela ocasião, conta ele, comecei a receber telefonemas de uma senhora que não conhecia. Ela queria algo absurdo. Não era que tivesse escrito alguns capítulos de um livro e quisesse assistir às minhas aulas. Era que o filho, já falecido, havia escrito um romance no início dos anos 1960 – segundo ela, excelente – e queria que eu o lesse. “Por que deveria lê-lo?”, perguntei. “Porque é um grande romance”, respondeu-me.

Com o passar dos anos, eu havia me tornado muito bom em evitar tarefas indesejáveis. E se havia algo que eu definitivamente não desejava fazer era isto: lidar com a mãe de um romancista morto e, pior de tudo, ter que ler o original do que ela dizia ser um grande romance e que, como logo descobri , consistia em uma cópia a carbono tão borrada que era quase ilegível.

Mas a senhora era persistente e, não sei como, acabou conseguindo chegar ao meu escritório para entregar o volumoso manuscrito,. Não havia mais escapatória, mas ainda me restava a esperança de que ao ler as primeiras páginas, elas fossem tão ruins que, com a consciência tranquila, não me sentiria obrigado a prosseguir a leitura. Em geral é o que faço. Na maioria das vezes, basta o parágrafo inicial. Meu único medo era que este não fosse assim tão ruim, ou fosse suficientemente bom para que eu tivesse que continuar a ler.
Sendo este o caso, continuei lendo. E lendo. Primeiro, decepcionado ao constatar que o romance não era ruim o bastante para ser posto de lado, depois, com certo interesse, com um entusiasmo crescente e, por fim, com incredulidade: não era possível que fosse tão bom! Vou resistir à tentação de dizer o que primeiro me deixou boquiaberto, o que me fez sorrir, soltar uma gargalhada ou balançar a cabeça, maravilhado. É melhor deixar que o próprio leitor descubra.
De qualquer modo, temos aqui Ignatius Reily, sem antecessores em qualquer literatura que eu conheça – tolo extraordinário, um misto do louco Oliver Hardy, do gordo e o magro, do Dom Quixote e do perverso Tomás de Aquino -, profundamente revoltado com toda a Idade Moderna, em seu camisolão de flanela, num quarto de fundos em Nova Orleans, que, entre intensos ataques de flatulência e de arrotos, enche dezenas de cadernos com suas invectivas.
A mãe acredita que ele precisa ir trabalhar. Ele vai, em uma sucessão de empregos. Cada emprego se transforma rapidamente em uma aventura lunática, em um desastre retumbante; e mesmo assim, como um Dom Quixote, cada uma tem a sua lógica misteriosa.

A namorada, Myrna Minkoff, do Bronx, acha que ele precisa de sexo. O que se passa entre Ignatius e Myrna é diferente de todas as histórias de amor que já li.
De forma alguma uma virtude menor do romance de Toole é a recriação das particularidades de Nova Orleans, suas ruelas, os bairros afastados, seu linguajar, os brancos enquanto grupo – e um negro no qual Toole alcançou quase o impossível, um personagem de incrível comicidade no seu desembaraço, sem o menor resquício de estereótipos.

Mas a maior proeza de Toole é o próprio Ignatius Reilly, intelectual, ideólogo, malandro, simplório e glutão, que deveria provocar repulsa no leitor com suas bebedeiras descomunais, seu completo desprezo e sua luta solitária contra todo mundo – Freud, os homossexuais, os heterossexuais, os protestantes e os inúmeros excessos dos tempos modernos. Imaginem um Tomás de Aquino arruinado, transposto para Nova Orleans, de onde parte para uma feroz incursão pelos pântanos até um banheiro masculino em Baton Rouge, onde seu casaco de couro é roubado enquanto ele está absorto em seus avassaladores problemas gastrointestinais. Sua válvula pilórica se contrai periodicamente em protesto pela ausência de “geometria e teologia adequadas” no mundo moderno.

Hesito em utilizar o termo comédia – embora se trate de comédia – porque o resumiria apenas a um livro engraçado, e este romance é muito mais do que isso. Uma farsa retumbante nas dimensões de um Falstaff talvez o definisse melhor – commedia seria um termo mais apropriado.

É também um romance triste. Nunca se sabe ao certo de onde vem a tristeza: se da tragédia implícita por trás da ira gasosa de Ignatius e suas alucinadas aventuras ou da tragédia que perpassa o próprio livro.
A tragédia do livro é a tragédia do autor – seu suicídio em 1969, aos trinta e dois anos. A tragédia está nas obras que ele poderia ter produzido e nos foram negadas para sempre.

É realmente uma pena que John Kennedy Toole não esteja vivo e escrevendo. Mas, já que não está, só nos resta fazer o possível para que esta pantagruélica e tumultuada tragicomédia humana esteja ao alcance de um mundo de leitores.

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MINIFÚNDIO IV

se guardas a memória
na memória
anterior à palavra
e à história

então entenderás
o arrepio
que te habita
ao rever
a larva da borboleta
sob a folhagem da couve-flor

(Lindolf Bell, Edições Sanfona, Floripa, 1985)



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REGISTRO

1-    Jornal “O Nheçuano” ano 3, número 14, agosto/setembro de 2012, da cidade de Roque Gonzáles, que tem como editor, redator e diagramador o jornalista Marco Marques. Destaque para a reportagem sobre o centenário de Jorge Amado e a seção Autores & Livros sob a responsabilidade impecável de Inês e Nelson Hoffmann.

2-    Boletim do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (nºs. 165, 166 e 167/2012). Destaque para a página 8 sobre Historiadores de Santa Catarina. Francisco José Pereira é homenageado de julho e Iaponan Soares de Araújo de agosto.

3-    De David Gonçalves recebo 4 livretos, cada um com um conto e ilustrações específicas, cuja destinação é para alunos do 5º ao 9º anos escolares. Adorável margarida,A vaca no quarto andar, A mulher barbada e Por seus olhos foram os que recebi. Faltou Sapatos de capim.
São histórias muito interessantes, que receberam um tratamento gráfico   e visual diferenciado, escolhidas a dedo pelo autor e que apresentam um David “mais leve, mais humano”, preocupado em mostrar um lado que parecia guardado até este momento, isto é, o autor preocupado com um tipo específico de leitor: o estudante do ensino fundamental que começa a forjar seu futuro espírito leitor.

4-    De Artêmio Zanon, mais dois livros de poemas: Somos pouco todos nós e Minhas horas cristãs.


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CONFRARIA DO POEMA-pn

A carne sa(n)grando
expõe verso impotente.
Do pulso cortado
jorra poesia:
navalha poética.

Meus versos
passeiam pelo shopping:
inspiram.

Trago meus poemas
na bandeja:
degusta-os!

(Nano poemas III, Pinheiro Neto, Poemas à flor da pele, p. 142, 2012)